sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Vocação


O sentido da vocação é um dos sentidos superiores do homem. É o sentido que o leva a realizar com interesse e denodo as maiores empresas. Nos momentos sombrios, proporciona-lhe luz; nos transes difíceis, incute-lhe novo ânimo. Vejamos três verdades importantes sobre a vocação.

Em primeiro lugar, a vocação é o vetor que rege nossas escolhas. Vivemos em uma sociedade embriagada pelo lucro. As pessoas são valorizadas pelo que possuem, e não pela dignidade do caráter. O dinheiro e o lucro tornaram-se os vetores das escolhas profissionais. No mercado global e consumista, o lucro é o oxigênio que rega os pulmões da sociedade. A riqueza em si não satisfaz, mas o senso do dever cumprido, movido pela alavanca da vocação, traz uma alegria indizível. 

Em segundo lugar, a vocação é a consciência de estar no lugar certo, fazendo a coisa certa. O problema da vocação é talvez o problema social mais grave e urgente, aquele que constitui o fundamento de todos os outros. O problema social não é apenas uma questão de divisão de riquezas, produtos do trabalho, mas um problema de divisão de vocações, modos de produzir. Que tragédia quando grande quantidade de homens de um país  procura cargos, em vez de vocações! 

Em terceiro lugar, a vocação pode ser tanto um pendor quanto um chamado. Em geral, encontra-se a vocação por um destes dois meios: o descobrimento de uma capacidade especial, ou a visão do uma necessidade urgente. A vocação para o ministério é um chamado específico de Deus, conjugado por uma necessidade urgente e uma capacitação especial.


Hernandes Dias Lopes
No livro: DE PASTOR PARA PASTOR

terça-feira, 20 de agosto de 2019

■ Esperar é preciso

Vivemos sob a tirania da pressa. Não fomos treinados na virtude da paciência, nem na disciplina da espera. A tecnologia encurtou as distâncias e eliminou o tempo de espera. A eficiência da tecnologia está na rapidez com que as informações e os serviços são oferecidos. Em um mundo de conexões ultrarrápidas e instantâneas, esperar é um ato de resistência.

O problema que os discípulos de Cristo enfrentam é que a pressa não forja uma fé madura, mas sim cristãos ansiosos, manipuladores e inseguros. O processo que nos leva a confiar menos em nós e mais em Deus é lento, e nele aprendemos que Deus não está preso à pressa neurótica da nossa cultura. Esperar é uma disciplina espiritual e uma necessidade humana. Viver é, em grande medida, esperar, mas nós não sabemos e nem queremos esperar.

A espera sempre foi um princípio para a experiência de oração do povo de Deus. Os salmos nos ajudam a perceber o quanto o povo de Deus precisou da virtude da paciência enquanto aguardava as respostas de suas orações e o cumprimento das promessas de Deus. Somos ensinados a resistir às pressões dos atalhos, da fé fundamentada em falsas promessas e permanecer aguardando o cumprimento da palavra de Deus.

Alguns exemplos: “Por que estás abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei, a ele, meu auxílio e Deus meu” (Salmo 42:5). “Esperei confiantemente pelo Senhor; ele se inclinou para mim e me ouviu quando clamei por socorro” (Salmo 40:1).

Precisamos aprender com os salmistas: clamamos por socorro e esperamos silenciosamente a manifestação da misericórdia de Deus. Entre a nossa oração e o socorro de Deus existe um tempo necessário ao fortalecimento da musculatura da fé.


Pr. Ricardo Barbosa

sábado, 8 de junho de 2019

Fome e sede de justiça


O homem que mostra não ter fome e sede de justiça (Mt. 5:6) é porque está cheio (empanturrado) de justiça própria. Sendo assim, ele enxerga a si mesmo com um grau superlativo e despreza a verdadeira justiça que procede da Palavra de Deus. Tal fome e sede de justiça brota somente de um relacionamento efetivo com o Senhor, isto é, não acontece de modo automático na vida de ninguém. Então, para aquele que se acha autossuficiente e bastante em si mesmo, não há espaço para buscar afeições santas e piedosas com base nos justos e verdadeiros caminhos de Deus. Este homem escolhe seguir os seus próprios conselhos e caminhos, sem considerar o que Deus diz por meio das Escrituras, corretamente interpretadas e aplicadas.

A sequência das bem-aventuranças em Mateus 5 comprova este argumento. Vejamos: somente alguém que se considera sem crédito pessoal algum diante de Deus (pobre de espírito), que chora por sua precária situação de miserável pecador, que não se vangloria de si mesmo e está sempre disposto a ouvir e aprender (manso), será aquele que amará a justiça que Deus requer na Sua santidade. Primeiro somos confrontados a descer do pedestal de orgulho que erigimos em nossos corações, para que então sejamos famintos e sedentos daquilo que honra a Deus.

Portanto, é impossível que tenhamos fome e sede da genuína justiça se já estamos fartos com as opiniões humanistas e as receitas de sucesso que se ancoram na idolatria do eu. Como iremos ansiar por aquilo que satisfaz verdadeiramente nossas almas, se o que nos enche é a nossa imagem prepotente que cultivamos tão cuidadosamente diante dos homens? As guloseimas que o ego tem a oferecer nunca trarão real satisfação para o cristão, por isso ele ama a justiça e almeja ser cada vez mais parecido com Cristo. Sendo assim, devemos nos alimentar diariamente da provisão substancial que nutre as nossas almas para exercermos com vigor a missão que o Senhor nos confiou de sermos uma bênção para a glória do Seu Nome excelso.

INDEPENDÊNCIA É ILUSÃO



Um dos tristes resultados do pecado é que ele nos leva, em algum momento da vida e de alguma forma, a aceitar a ilusão da independência. Independência é o que a serpente vendeu a Adão e Eva, mas essa independência é tão falsa quanto uma nota de três reais. A moeda falsa da independência é a recompensa que o inimigo continua a tremular diante de cada um de nós. A mentira é mais ou menos assim: “Você pode ser qualquer coisa que quiser ser ou fazer, qualquer coisa”! Essa mentira tem o objetivo de nos fazer crer que somos mais sábios e justos do que realmente somos. Ela nos faz pensar que não fazemos coisas maléficas porque existe algo ruim dentro de cada um de nós, mas por causa das pressões externas com as quais somos forçados a lidar. Essa mentira tenta nos convencer de que somos capazes e merecemos recompensas.

A Bíblia deixa muito claro que a procura por independência nunca termina em independência; ela termina em escravidão. Por quê? Porque fomos cuidadosamente projetados pelo Criador para vivermos em um relacionamento dependente, obediente e adorador com Ele, e em relacionamento humilde e interdependente com outros seres humanos. A procura por independência não é apenas um erro espiritual, ela é uma negação fundamental da nossa humanidade. A busca por independência sempre nos deixa dependentes de uma lista de coisas para as quais nós olhamos, em vez de esperança, vida, força e descanso. Numa tentativa vã de nos enganar achando que somos independentes, nos tornamos viciados em coisas que iludem, as quais jamais darão descanso ao nosso coração.

O Salmo 23 nos ensina, entre outras coisas, que somos pessoas com uma necessidade constante e urgente da ajuda do bom Pastor. E mesmo que andemos com Deus durante mil anos, continuaremos necessitando da Sua ajuda tanto quanto necessitamos no primeiro dia em que fomos socorridos por Sua forte mão. A única maneira de você encontrar descanso no Pastor divino é fugindo da ilusão da independência. Por que você não faz isso com maior frequência em sua vida.


Texto adaptado de Paul Tripp
Livro: Abrigo no temporal

terça-feira, 28 de maio de 2019

Pecado bom é pecado morto


"Porque, se viverdes segundo a carne, caminhais para a morte; mas, se, pelo Espírito, mortificardes os feitos do corpo, certamente, vivereis" (Rm. 8:13)

Ficou famoso o bordão utilizado por várias pessoas quando se trata do combate à criminalidade: "bandido bom é bandido morto." Não entrando na questão política e social que sustenta a discussão em torno do tema, é interessante buscar a analogia que podemos extrair deste bordão. Certamente o pecado será sempre um inimigo a ser combatido em prol da saúde da nossa alma. E como bem sabemos o pecado é um bandido audacioso, que rouba a nossa alegria, mata a nossa vitalidade espiritual e sequestra a nossa paz de consciência. Não podemos baixar as armas espirituais quando se trata do velho homem feroz e do pecado que tenazmente nos assedia. Seja por ação, omissão ou pensamento, devemos estar atentos a todas as emboscadas em que o pecado bandido quer nos surpreender. Sabemos que a luta é ferrenha, envolve esforço e dedicação sempre crescentes, uma vez que o pecado será um inimigo que não desiste fácil dos seus ataques. Em cada momento da vida, desde o momento em que acordamos de manhã, faz-se necessário revestir-nos dos frutos do Espírito, a fim de que o pecado não tenha espaço para seus ataques insidiosos ao nosso coração.

Os feitos do corpo, no linguajar paulino, representam esta tendência pecaminosa humana que busca dominar o homem, fazendo refém de práticas afrontosas à santidade de Deus. Mas é plenamente possível mortificarmos os feitos do corpo, mediante o poder e a dependência do Espírito Santo, de quem decorre o selo que em cada crente foi posto pela misericórdia divina. Nada ou ninguém pode nos separar do amor que nos alcançou pela graça do Senhor, e, portanto, temos os recursos espirituais que nos foram disponibilizados para não cedermos ao pecado e às suas ardilosas investidas sobre nós.

Temos que deixar de lado a indolência quando o assunto é lutar contra aquilo que em nós busca resistir à autoridade do Senhor. Crentes indolentes são presas fáceis ao mundo, à carne e ao diabo, pois não fazem uso adequado dos recursos espirituais disponíveis para mortificação dos feitos do corpo. Por isso, os enganos do coração pecaminoso ganham musculatura e vencem facilmente as investidas, levando o cristão a um estado de mediocridade espiritual. Sem alegria, sem ânimo e sem a paz que excede o entendimento habitando em sua alma, fica difícil fazer frente ao pecado e suas artimanhas. Sendo assim, é urgente que adotemos a frase “pecado bom é pecado morto” não como mais um chavão decorado, mas como uma prática diária que nos levará à maturidade espiritual e nos fará cada vez mais resistentes em nossa luta contra o pecado.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Lidando com o dinheiro

O dinheiro, o que ele pode fazer e o que ele pode oferecer nos lembram que este é um mundo de engano e perigo. As coisas nem sempre são o que parecem. E não há mentira mais danosa do que a que diz que a vida pode ser encontrada em algum lugar fora do Criador. O dinheiro pode funcionar como um ingrediente de um estilo de vida que, na prática, se esqueça da existência de Deus e de Seu plano. Quantas pessoas têm acreditado nessa mentira e acabado com o coração e bolso vazios? A luta contra o amor ao dinheiro no coração de cada um de nós é um lembrete constante de que ainda vivemos em uma zona perigosa.

O dinheiro é uma janela muito precisa para aquilo que realmente é importante para nós. Ele expõe o fato de que, deste lado da eternidade, é difícil manter em nosso coração, como importante, aquilo que Deus diz que verdadeiramente o é. Há uma tendência perigosa no coração de cada um de nós de as coisas ganharem significado além de seu real significado e começarem a comandar os pensamentos, desejos e a lealdade do nosso coração. Se olharmos humildemente, o desejo pelo dinheiro e o uso que fazemos dele nos ajudarão a ver o que está tentando governar nosso coração. Em outras palavras, o dinheiro pode financiar nossa lealdade ao reino do eu.

Precisamos entender que os problemas financeiros são mais profundos que o tamanho do salário ou a especificidade do nosso orçamento, pois estão enraizados em problemas no coração (Mateus 15.19-20).  Algumas perguntas-chaves servem para revelar o equilíbrio ou desequilíbrio quanto à questão do dinheiro em nossas vidas: o nível de nosso contentamento sobe e desce de acordo com a quantidade de dinheiro que temos disponível? Ficamos felizes em dar, mesmo em épocas em que não temos muito? Quando dispomos de algum dinheiro extra qual o nosso sonho de consumo? Somos prontos, desejosos e rápidos em expressarmos generosidade? Façamos um exercício pessoal: procurar a base bíblica para nossas respostas honestas a estas perguntas.

Adaptado de Paul Tripp

A BELEZA DA GRAÇA


A beleza da graça é que ela não apenas nos resgata, ela nos coloca em nosso lugar. A graça nos humilha quando abre nossos olhos para o fato de que nem tudo se refere a nós. A graça nos faz amar o Rei em vez de querer ser o rei. Ela expõe o quanto somos sujos e espiritualmente necessitados. Ela nos recebe em um reino muito maior e mais belo que o nosso. A graça nos capacita a investir em coisas eternas, não nos prazeres temporários que consumiriam todo o nosso tempo e dinheiro. A graça nos faz sentir pequenos sem nos sentir sozinhos ou abandonados. Ela nos diz que somos pobres enquanto nos oferece riquezas maiores que as que conhecemos. A graça nos faz entender o perigo que somos a nós mesmos e a profundidade de nossa necessidade momento a momento. A graça revela o quanto nosso coração é instável, sem jamais ridicularizar nossa fraqueza. A graça não apenas nos humilha uma vez, mas repetidamente, quando nosso coração orgulhoso nos coloca no centro de novo.

Somente a graça pode fazer crescer em nosso coração as coisas que progressivamente nos libertam da escravidão do amor ao dinheiro ou a qualquer outra coisa que desafie o governo que só Deus deve ter. Somente a graça pode transformar uma pessoa cheia de direitos em uma pessoa grata. Somente a graça pode transformar um coração exigente e invejoso em um coração verdadeiramente contente. Somente a graça pode nos fazer pacientes, livres de um coração que quer o que quer agora. Somente a graça no capacita a sermos compassivos, capazes de ver as necessidades dos outros e cuidar delas, em vez de sermos dominados pelo que é nosso. Somente a graça pode transformar esse falso rei em alguém que investe seu tempo e seu dinheiro a serviço do Rei.

        Que possamos concluir a respeito de nossas vidas o mesmo que Paulo concluiu: “Pela graça de Deus, sou o que sou, e a graça que Ele me deu não tem sido inútil” (1 Cor 15:10a). Exaltemos sempre a beleza da graça em nos redimir e nos santificar para sermos úteis ao Rei dos reis.

Adaptado de Paul Tripp

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Santo temor e integridade


O Senhor trabalha efetivamente em nós quando nos exercitamos em vidas disciplinadas e submissas a Ele. Com isto quero dizer que a disciplina espiritual (exercícios regulares) é fundamental para o progresso na fé. De maneira simples, podemos afirmar que autodisciplina é a disposição de subordinar interesses pessoais egoístas aos interesses eternos do nosso Deus. Mas toda a disciplina empregada pode se transformar em autoengano se não estiver embasada em um genuíno relacionamento com o Senhor.

Uma vida de compromisso com Cristo não será marcada por concessões ao pecado, pelo contrário, haverá santas afeições e disposições no sentido de agradar aquele que por nós ofereceu-se como sacrifício. Se não há integridade em nossas ações, o arrependimento é o caminho para realinhar a consciência diante do Senhor, que nos conhece perfeita e totalmente. Visto que não há nada que possamos esconder do Senhor, a confissão humilde atesta o reconhecimento de nossa fragilidade diante dEle. Somente mediante uma postura de contrição é possível entender a malignidade do pecado que cometemos contra Deus, que em Sua santidade não pode contemplar o mal. Portanto, a qualidade da vida cristã perpassa necessariamente por arrependimento contínuo e dependência constante das verdades libertadoras do Evangelho.

O salmista adverte sobre a importância do santo temor de ofender a Deus ou pecar contra Ele: “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria; revelam prudência todos os que o praticam” (Salmo 111:10). Uma das salvaguardas que nos ajudam a sermos preventivos na vida cristã é a escolha do temor saudável, do assombro e do respeito por Deus. Tal reverência nos motiva e nos coloca em guarda de modo que não tropecemos e percamos nossa alegria. Ela também nos dirige de maneira que não ofendamos ao Senhor, não comprometamos a integridade do nosso testemunho diante dos incrédulos ou neguemos nossa utilidade e ministério na vida de outros crentes no corpo de Cristo.

A graça do Senhor é sempre abundante para nos tirar do tremedal de lama do pecado e fortalecer nossos pés sobre a rocha das promessas bíblicas. Sendo assim, confiemos na verdade eterna de que há perdão disponível para aqueles que se arrependem de seus caminhos tortuosos e reconhecem a única fonte de verdadeira alegria: o próprio Deus gracioso e bom.

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Comunhão com o Senhor


Texto: Salmo 32:1-5
Tema: Comunhão com o Senhor

A comunhão como Senhor é um grande privilégio daqueles que desfrutam a filiação. Mas nem todo filho faz uso dos meios de graça para estar em comunhão com o Pai. Como filhos do Pai amoroso, devemos nutrir o anelo sempre crescente de aproximar-nos cada vez mais do trono da graça em regozijo proporcionado pela presença do Senhor. Como bem expressou o salmista: “Tu me farás ver os caminhos da vida; na tua presença há plenitude de alegria, na tua destra, delícias perpetuamente” (Salmo 16:11). E um dos meios de graça para isso é a convicção de ter sido perdoado e desfrutar da verdadeira alegria do perdão outorgado por Deus.
Para ilustrar esta introdução me veio à mente a cena de reconciliação entre José e seus irmãos no Egito. Ao perdoar seus irmãos, José procurou restabelecer as pontes, e trouxe seus familiares para perto de si, alojando-os na terra do Egito. Jacó e seus filhos habitaram no Egito durante todo o período de fome. Alguns anos depois, quando o velho Jacó morreu, surgiu um temor entre os irmãos de José. Mas é interessante que José enfatizou aos seus irmãos a certeza do perdão que eles tinham recebido. “Respondeu-lhes José: Não temais; acaso, estou eu em lugar de Deus? Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem, para fazer, como vedes agora, que se conserve muita gente em vida. Não temais, pois; eu vos sustentarei a vós outros e a vossos filhos. Assim, os consolou e lhes falou ao coração.” (Gn 50: 19-21).  A certeza do perdão gerou um prazer pela comunhão com José, houve consolo e paz no coração daqueles homens, paz que só podia ser gerada porque não restavam dúvidas sobre a grandeza do gesto de perdão que lhes foi ofertado.
Em proporção muito mais elevada é a certeza do perdão divino para o crente.  A certeza do perdão divino traz refrigério real para o crente, dando-lhe novo ânimo para prosseguir na caminhada com Cristo. O Salmo 32 é um claro exemplo de como a convicção do perdão recebido pelo salmista mudou a sua percepção da vida e nutriu ainda mais o seu relacionamento com o Senhor. Este Salmo 32, juntamente com o Salmo 51, faz parte da confissão de pecado de Davi após ter sido confrontado pelo profeta Natã. Davi havia desprezado a palavra do Senhor, fazendo o que era mau perante ele. Depois de ter cometido adultério, a Urias, o heteu, mandou assassinar à espada; e a Batseba tomou por mulher. Esta sequência de fatos foi uma verdadeira espiral descendente na vida de Davi, levando-o a um estado de penúria espiritual e de amargor, dias em que não experimentou alegria da comunhão com o Senhor. O Salmo 32 é um hino de louvor de Davi pela certeza do perdão divino que lhe foi outorgado.
A convicção do perdão divino deve ser a tônica da vida cristã, visto que ainda estamos do lado de cá da eternidade, ainda habitando num corpo que é corruptível pelo engano do pecado, como bem alertou o apóstolo João: “Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a verdade não está em nós”. PORÉM: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1Jo 1:8-9). Com base nisso, faço a seguinte afirmação:

“A certeza do perdão divino é imprescindível para nutrirmos a nossa comunhão com o Senhor”

A comunhão com Deus é alimentada e fortalecida por meio da confissão e arrependimento, e pela certeza do perdão divino outorgado. A confissão de Davi perante o profeta Natã: “Pequei contra o Senhor” foi respondida com a declaração: “Também o Senhor te perdoou o teu pecado” (2 Sm 12:13). A frase eu “eu pequei contra o Senhor” é uma frase cheia de esperança, abre-se uma janela de oportunidade de recomeço para realinharmos nossa vida com Deus, convictos de que o perdão do Senhor é real. “Davi disse: confessarei ao Senhor as minhas transgressões; e tu perdoaste a iniquidade do meu pecado” (Sl. 32:5b). É um gravíssimo pecado recusarmos descansar na graça de Deus, aceitar e desfrutar do Seu perdão. Que possamos confessar e descansar no perdão divino a fim de nutrirmos a comunhão com o Senhor hoje e sempre.
Por quais razões a certeza do perdão divino é imprescindível para nutrirmos a nossa comunhão com o Senhor?

1. A certeza do perdão divino é um poderoso antídoto contra a nossa inércia (vs. 3a)
Enquanto calei os meus pecados, envelheceram os meus ossos pelos meus constantes gemidos todo o dia.(Sl 32:3).
A conjunção enquantofaz parte da família das conjunções subordinativas temporais, que são usadas para introduzir uma oração que acrescenta uma circunstância de tempo ao fato expresso na oração principal. Poderia ser substituída sem perder o sentido original por: Desde que eu calei/ ou quando eu calei. Segundo as leis da física, a inércia é a tendência natural de um objeto em resistir a alterações em seu estado original de repouso ou movimento. No contexto trata-se de um estado de ausência total de movimento em direção à restauração por meio do perdão. O salmista permaneceu por um tempo imóvel, sem dar um passo sequer nas tratativas em relação ao pecado cometido diante do Senhor. Não podemos precisar exatamente por quanto tempo Davi manteve-se nesse silêncio perante o Senhor, no mínimo 9 meses que foi o tempo da gravidez de Batseba, quando o profeta Natã veio confrontar o rei, deu-lhe um veredito: “também o filho que te nasceu morrerá” (2 Sm. 12:14). Neste tempo de silêncio, Davi evitou tocar no assunto ou mesmo trazer à consciência o grave mal cometido perante os olhos da nação e principalmente contra o Senhor. O tempo passou, mas as chagas não foram curadas. A ferida na consciência de Davi continuou aberta e purulenta por um tempo considerável, e isso lhe trouxe consequências bastante difíceis.
“Quando Deus fala, permanecer apático e inerte é uma prova de ateísmo prático.” Uma das coisas que minha mãe sempre reprovava era quando ela dava uma ordem e eu respondia com “já vou”! Só que esse “já vou” se prolongava por muito tempo. “Já vou” se transformava numa estratégia para fazer outra coisa que não estava na agenda de minha mãe. Ela sempre reforçava: Já vou, não. Agora! Nas questões que envolvem nutrir a comunhão com o Senhor, “Já vou” nunca será uma resposta adequada para o cristão, pois neste intervalo buscaremos realizar outras coisas que não estão na agenda do Senhor. A obediência não pode ser adiada, senão ficará desconfigurada. Quando Abrãao recebeu a ordem para oferecer seu filho Isaque como holocausto no monte Moriá, a Bíblia diz que ainda de madrugada ele preparou o jumento, a lenha e foi para o lugar designado. Abraão não procurou um tempo para “amadurecer a ideia” ou tentar negociar uma alternativa.
Devemos lutar todos dias contra a tendência carnal de permanecer imóvel em um estado de inércia espiritual, quando pouco ou nada fazemos para acertar as contas diante do Senhor, mediante confissão e arrependimento genuínos. Deixamos o tempo passar confiando na vã ilusão de que as coisas se resolverão automaticamente. Confiamos que a passagem do tempo será um remédio para a restauração da comunhão com o Senhor. Isso não funciona, trata-se de um autoengano perigoso, que pode nos levar a um estado de dormência e letargia. Falar que queremos nutrir a comunhão com Deus é fácil, mas o que fizemos hoje de efetivo para este propósito? Falar que queremos servir a Deus é bonito, mas hoje quais as atitudes de serviço foram tomadas? O tema anual “Sê tu uma bênção” exige um rompimento com a postura inerte que temos adotado.
Hebreus 3:12-13 nos alerta a termos cuidado com o perverso coração de incredulidade que nos afaste do Deus vivo. Exortai-vos mutuamente durante o tempo que se chama Hoje! Precisamos recuperar o senso de urgência na manutenção da nossa comunhão com o Senhor. Não há espaço para a letargia quando o que está em xeque é a saúde a relação vertical com o nosso Deus. Não podemos presumir que a mera passagem do tempo trabalhará a nosso favor, em questão relacionada à manutenção da comunhão com o Senhor.  Isaías já alertava o povo de Israel: “Buscai ao Senhor enquanto se pode achar, invocai-O enquanto está perto. Deixe o perverso o seu caminho, o iníquo, os seus pensamentos; converta-se ao Senhor, que se compadecerá dele, e volte-se para o nosso Deus, porque é rico em perdoar” (Is 55: 6-7). O dia de acertar os ponteiros e buscar aproximar-se do Senhor é hoje, o amanhã não nos é dado como uma garantia.  Portanto, a certeza do perdão divino deve nos motivar a uma vida de comunhão com o Senhor, livres da inércia espiritual.

2. A certeza do perdão divino é um poderoso antídoto contra a nossa insensibilidade (vs. 4a)
Porque a tua mão pesava dia e noite sobre mim, e o meu vigor se tornou em sequidão de estio. (Sl 32:4).
Esse pesar da mão do Senhor deve ser entendido corretamente. Não é como aquele de um juiz que castiga um criminoso, com a imposição de uma pesada pena; nenhum ser humano conseguiria suportar o peso da mão do Senhor executando sua justiça deste modo; antes, é como a disciplina de um pai amoroso, que trata de seus filhos desobedientes a fim de conduzi-los ao arrependimento. Em outras palavras, é Deus nos reclamando pra Si. Mas podemos estar tão endurecidos pelo engano no pecado que ficamos insensíveis à ação restauradora de Deus, nos reclamando pra Si. Neste sentido, em nossa percepção distorcida, a mão do Senhor aparentará querer nos fazer mal e nos conduzir ao desfiladeiro da angústia por simples capricho. Não se trata disso. A mão do Senhor tem o peso da disciplina paternal necessária a uma mudança efetiva de rota. Entendido de forma correta, há bênção neste peso da mão do Senhor descrito pelo salmista. Mesmo passando por uma tremenda avalanche em seu estado espiritual, emocional e físico, Davi ainda deixou-se endurecer e não atentou para a voz de Deus que lhe falava à consciência (leb), nem identificou a mão do Senhor reclamando-o pra Si. Sua visão da realidade tornou-se embaçada e sua percepção espiritual ficou entorpecida, tudo isso como consequência de sua resistência diante do tratamento divino. Durante o tempo em que calou, Davi certamente percebeu o estado deplorável de sua alma, porém isso não foi suficiente para vencer a indiferença para com o seu pecado e a insensibilidade de sua consciência, cauterizada por desprezar a Palavra do Senhor.
Jesus já vinha tratando a consciência de Saulo: “Dura coisa é recalcitrares contra os aguilhões” (At. 26:14), mas ele permanecia insensível e oferecia resistência ao chamado divino. Mas o chamado irresistível do Mestre não pode ser vencido. Sua oferta de perdão por meio da cruz abriu os olhos de Paulo, que passou a enxergar a preciosidade da graça. Ele passou de perseguidor a perseguido, porque baixou as armas e rendeu-se totalmente. Isto só o perdão divino pode fazer.
Se permanecemos insensíveis diante da mão do Senhor nos reclamando pra Si, certamente amargaremos vidas infrutíferas e sem proximidade genuína com Ele. Quando a nossa consciência fica embotada pelo pecado, não temos condição de realizarmos uma análise correta do tratamento do Senhor dispensado a nós. Passamos a enxergar toda a realidade conspirando contra nós, e não percebemos o quanto o Senhor está trabalhando em nós para trazer-nos a um novo patamar no relacionamento com Ele. Por isso necessitamos sempre de arrependimento e confissão. Ai de nós quando a nossa consciência estiver tão insensível a ponto de não mais reconhecermos o tratamento divino! É sinal de profundo entorpecimento espiritual diante da disciplina divina. Precisamos de consciências sensíveis à voz de Deus que emana das Escrituras, somente assim teremos condições de seguirmos por caminhos retos. Consciências sensíveis para reconhecer que não somos supercrentes, que carecemos todos os dias do perdão divino e de sua graça ajudante.
Não devemos brincar com os alertas divinos ou com a disciplina da mão do Senhor. Quando a nossa consciência se torna endurecida, o pecado adormece o senso moral de certo ou errado e o pecador impenitente torna-se insensível aos avisos da consciência que Deus colocou dentro de cada um de nós para nos guiar (Romanos 2:15). Quando os sinais de alerta são ignorados e as medidas reparadoras não são adotada, o resultado é mais endurecimento de consciência.
Tal insensibilidade se revela de várias maneiras. Podemos ficar experts em ouvir sermões, admirando a oratória e hermenêutica aplicada ao texto bíblico, mas com consciências insensíveis os princípios bíblicos não serão postos em prática. Podemos até ser confrontados com um importante ensino das Escrituras sobre humildade, mas a insensibilidade diante da verdade não nos faz dobrar a cerviz e reconhecer que nada somos no reino de Deus, apenas servos inúteis. Deus trata conosco mediante os meios necessário até que a nossa ardente soberba, a qual sabemos ser indomável, seja humilhada (Calvino). Portanto, a certeza do perdão divino deve nos motivar a uma vida de comunhão com o Senhor, livres da insensibilidade.

3. A certeza do perdão divino é um poderoso antídoto contra a nossa dissimulação (vs. 5a)
Confessei-te o meu pecado e a minha iniquidade não mais ocultei. (Sl 32:5a).
O vocábulo (kasa) também é empregado no sentido mais genérico de esconder ou encobrir. A ideia básica é não expor à clara luz. A história registrada em 2 Samuel 11 nos mostra que Davi utilizou artifícios para ocultar a sua iniquidade. Por exemplo, mandando trazer o servo Urias da frente de batalha, para ficar em casa e dormir com a sua mulher. O plano de Davis era atribuir aquela gravidez de Batseba ao soldado Urias. Porém, a hombridade de Urias prevaleceu e ele não foi para sua casa. Não bastasse isso, Davi ainda planejou o assassinato de Urias, colocando-o na frente mais perigosa da batalha. Quando Joabe enviou o mensageiro para avisar ao rei, a resposta de Davi foi: “Não te pareça isto mal aos teus olhos; pois a espada tanto consome este como aquele; esforça a tua peleja contra a cidade, e a derrota; esforça-o tu assim” (2 Samuel 11:25). Davi apelou para que o comandante Joabe considerasse o fato da morte de Urias como algo natural, ocultando e dissimulando seu real propósito ao colocar Urias na frente da batalha.
“Então, disse Judá a seus irmãos: De que nos aproveita matar o nosso irmão e esconder-lhe o sangue?”  (Gn 37:26).  O plano para vender José aos mercadores midianitas que seguiam para o Egito foi aceito por todos os irmãos. Logo depois, eles mataram um bode, mergulharam no sangue a túnica de José e a mandaram ao pai (Jacó) com este recado: “Achamos isto. Veja se é a túnica de teu filho”. Esta foi a saída para encobrir o que tinham feito com José. Essa versão dissimulada permaneceu por muitos anos; a verdade só veio à tona quando os irmãos de José tiveram que ir ao Egito em busca de comida. E o que dizer de Acã, que escondeu na sua tenda alguns despojos da cidade de Jericó? O pecado oculto de Acã custou a vida de 36 homens de Israel e uma derrota diante da pequena cidade de Ai. Quando há pecado escondido no arraial não adiante querer a bênção do Senhor. A dissimulação sempre acarretará em graves prejuízos.
Um tema de um acampamento do qual participei quando ainda era adolescente: E quando a máscara cair?” A pergunta-tema por si só nos deixa reflexivos: não é se a máscara cair, como se fosse apenas uma possibilidade. É quando: apenas questão de tempo e a realidade virá à tona. Será que temos a infantil pretensão que o nosso pecado passará despercebido diante do Senhor? “E não há criatura que não seja manifesta na sua presença; pelo contrário, todas as coisas estão descobertas e patentes aos olhos daquele a quem temos de prestar contas” (Hb. 4:13). Eugene Peterson afirmou em um dos seus livros sobre Davi: “Não queremos encarar nosso pecado porque não queremos perder a ilusão de que somos deuses.” A ilusão de que somos deuses gera a ilusão de que tudo está sob nosso controle e nada será descoberto. E assim vamos vivendo de ilusão em ilusão, dissimulando e inventando evasivas para não encarar a feiura da nossa transgressão contra os mandamentos do Senhor.
Adotar a dissimulação como natural em nossas vidas, fingido para si e para o outros que está tudo muito bem, é uma herança que recebemos de Adão. Fazer vestimentas de folhas de figueira foi uma tentativa infantil de esconder a vergonha e a culpa. O homem pós-queda teima em não reconhecer sua penúria de alma e sua condição vexatória, e ainda apresenta uma roupagem artificial de modo que não haja dúvidas sobre uma fé robusta. “O que encobre as suas transgressões jamais prosperará; mas o que as confessa e deixa alcançará misericórdia” (Pv. 28:13). O pastor puritano Richard Sibbes afirmou que “a única maneira de cobrir nosso pecado é descobri-lo pela confissão.” A dissimulação pode demonstrar-se de várias formas: iludir a si mesmo negando a situação, minimizar a gravidade da situação, colocar a culpar em outra coisa ou pessoa, apresentar desculpas, redefinir o mal para fazê-lo parecer bom. Nossas vidas devem ser vividas em transparência, visto que o Senhor nos conhece perfeitamente. O pecado oculto não pode coexistir com a paz interior proveniente da comunhão com Deus. NÃO HÁ PAZ PARA OS REBELDES! Só quando expomos e reconhecemos nosso pecado é que Deus se dispõe a cobri-lo. Portanto, a certeza do perdão divino deve nos motivar a uma vida de comunhão com o Senhor, livres da dissimulação.

terça-feira, 19 de março de 2019

Judas e Pedro

Vemos a diferença entre o desespero destrutivo e a tristeza do evangelho em dois dos discípulos. Após a crucificação de Jesus, Judas chorou com sinceridade mas sem qualquer esperança, enquanto Pedro experimentou a tristeza do evangelho e, portanto, grande bênção. No primeiro momento, o choro esmagou aquele que chorou, mas, no segundo momento, o choro levou a Cristo aquele que chorou, para receber misericórdia. O choro de Pedro revelou seu desespero confiante de que Jesus o ajudasse da maneira que somente Jesus poderia fazê-lo, mas Judas chorou de uma maneira sem Cristo, como se estivesse completamente além de qualquer esperança. 

Todos conhecem Judas como o discípulo que traiu Jesus por dinheiro, mas nem todos sabem (ou lembram) que Judas ficou triste por fazer isso. Mateus 27.3-4 diz que Judas, ao ver o que acontecera com Jesus, “tocado de remorso, devolveu as trinta moedas de prata aos principais sacerdotes e aos anciãos, dizendo: Pequei, traindo sangue inocente”. Judas sentiu com seriedade seriedade o seu pecado e manifestou todos os sinais de remorso apropriado.

- Viu o seu pecado pelo que realmente era: a condenação de Jesus. 

- Admitiu especificamente o seu pecado, sem desculpas. 

- Fez restituição pelo seu pecado, ao devolver as trinta moedas de prata. 

- Isentou Jesus de qualquer culpa, chamando-o de inocente. 

Judas viu o que o seu amor ao dinheiro fez – ele viu que Jesus teve de morrer por causa de seu materialismo e avareza. Mas faltou uma coisa. O que Judas não viu foi Jesus morrendo espontaneamente e morrendo, de fato, por pecadores como ele. Judas não viu a Jesus como cheio de graça, amor e misericórdia. Portanto, a sua culpa era muito grande para ele. Judas, atirou “para o santuário as moedas de prata, retirou-se e foi enforcar-se” (Mt 27.5). 

É bom que Mateus nos tenha dado outro quadro de choro para contrastar com este de Judas. Pouco antes de escrever a história da tristeza não evangélica de Judas, Mateus escreveu a história da traição e tristeza de outro discípulo. Pedro havia negado a Jesus três vezes; e, quando o galo cantou, Pedro se lembrou de que Jesus dissera que ele faria aquilo. Por isso, ele saiu “e chorou amargamente” (Mt 26.75). Ou seja, Pedro foi a algum lugar e transbordou seus olhos; chorou alto, com uma tristeza que invadiu toda a sua alma. Estava cheio de tristeza e mostrou isso. Como Judas, Pedro traiu a Jesus e, como Judas, sentiu remorso profundo. Todavia, Pedro não se suicidou. Em vez disso, parece que seguiu em frente com algum tipo de esperança em Jesus. Sabemos disso pela maneira como ele reagiu na próxima vez em que viu a Jesus. Quando Pedro reconheceu que era Jesus quem estava em pé na praia, enquanto ele pescava, lançou-se na água e nadou até à praia (Jo 21.1-8). O barco deles não estava muito longe da praia – a apenas uns 90 metros – mas Pedro não podia esperar para encontrar-se com Jesus. 

Essa é a diferença entre a tristeza do evangelho e todo outro tipo de tristeza. Em última análise, uma foge de Jesus a outra corre em direção a Jesus. Uma olha para Jesus na cruz e se focaliza em quão terrível é o pecado que o colocou ali, enquanto a outra se focaliza em quão admirável é o amor que suportou tal sofrimento por meu pecado. De fato, “o evangelho cria somente um tipo de tristeza pelo pecado que é pura e não destrói”. Sim, devemos chorar o nosso pecado, não como uma abstração, nem apenas porque transgredimos as leis de Deus, nem porque governamos a nossa própria vida; em vez disso, devemos chorar o nosso pecado porque vemos o nosso pecado (e a nossa justiça própria) como a nossa arma de assassinato na execução injusta de Jesus Cristo, que tanto nos amou. Esse tipo de tristeza nos fará odiar o nosso pecado e, ao mesmo tempo, amar o nosso Salvador cada vez mais.



Extraído de: Glenn, Robert W.. Crucificando a Moralidade: O Evangelho das Bem-Aventuranças. Editora Fiel. Edição do Kindle. 

segunda-feira, 18 de março de 2019

Ao pé da cruz o terreno é plano

Em toda a Bíblia é claramente perceptível a ruína que a soberba certamente acarretará. Foi assim na vida do rei Uzias, conforme relatado em 2 Crônicas 26,  bem como na vida do apóstolo Pedro, que presumiu uma firmeza espiritual acima de qualquer provação. A soberba alimenta inúmeras atitudes carnais, como por exemplo competições e partidarismo no meio do povo de Deus. São variadas as consequências perniciosas de alimentar o orgulho que levam à destruição de relacionamentos e desestabilizam qualquer igreja. É importante lembrar que os assaltantes de glória estão em todo lugar, e podemos incorrer também no mesmo pecado.

Mas ao contemplarmos a cruz de Cristo, o rude madeiro no qual o Senhor de toda glória foi sacrificado como Cordeiro divino, não deve sobrar o menor espaço para a vanglória humana. Ao pé da cruz não há espaço para o exercício de superioridade ou para pretensões mesquinhas. Só há espaço para humilhação e santo tremor, diante do Rei eterno que se fez carne para padecer a nossa morte.

Se cada um de nós não nos despirmos de nossa ambição egoísta e vaidade pessoal, os prejuízos para corpo serão imensuráveis. Não haverá um só que não seja afetado pelos efeitos deletérios de nosso apego ao pedestal de orgulho que erigimos. E assim, cedo ou tarde, ouviremos a repreensão do Senhor feita à igreja de Laodicéia: “és miserável, pobre, cego e nu.”

O apóstolo Paulo deixou instrução aos filipenses: “cada um considere os outros superiores a si mesmo”, mostrando que a tarefa que temos diante de nós é crucial. Resta-nos a missão de mortificar o velho Adão que insiste em ter a primazia, visto que ao pé da cruz não existe ninguém superior, somos todos servos inúteis na melhor das hipóteses (Lc. 17:10).

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

O perigo da autoabsorção


O capítulo 3 de Gênesis relata a queda como o início da tragédia humana sobre a terra: cada um de nós escolheu ser seu próprio rei. Optamos por seguir o caminho da centralidade em nós mesmos. E isso destrói os relacionamentos. Não há nada que nos torne mais miseráveis do que a autoabsorção, ou seja, o fato de só pensar em como eu estou me sentindo, como estou me saindo, como as pessoas estão me tratando, se estou alcançando sucesso ou fracasso, se estou sendo tratado com justiça. A autoabsorção nos deixa estáticos; não há nada que cause maior desintegração. Por que temos guerras? Lutas de classe? Conflitos familiares? Por que nossos relacionamentos constantemente se desintegram? Por causa das trevas da autoabsorção, do fato de estarmos centralizado em nós mesmos. Quando decidimos ser nosso próprio centro, nosso próprio rei, tudo o mais se desintegra: seja socialmente, emocionalmente, espiritualmente ou fisicamente.

(Timothy Keller, A Cruz do Rei, pg. 35)

Raiz da preocupação


Você sabe de onde vem a preocupação constante? Sua raiz vem da arrogância que assume a seguinte postura: “eu sei bem o jeito que minha vida deve ser, e Deus não está entendendo isso direito”. Por outro lado, a verdadeira humildade significa descansar no Senhor e ter autocrítica.

As preocupações acalentadas no coração quanto ao futuro são extremamente danosas à saúde e vigor espiritual do cristão. Sentimentos avassaladores alimentados por dúvidas quanto ao dia de amanhã são a fonte de muita murmuração e ingratidão no meio do povo que se chama pelo nome do Senhor. Na verdade, a ansiosa preocupação é fruto de uma ilusão de controle, algo que o velho Adão adora insuflar em nossas mentes. Pensamos que temos todas as coordenadas sobre a direção à nossa frente, mas quando algum imprevisto nos tira da rota, sobram motivações egocêntricas para nos voltarmos contra a sabedoria do nosso Deus. Eis a postura de um arrogante.

Há muitas maneiras de acalentar ansiedade quanto ao futuro, mas nenhuma delas acrescentará um só metro à extensão da nossa vida. Em Mateus 6, Jesus sabiamente nos faz olhar para o cuidado do Criador com as coisas criadas, não deixando que nenhum fio de cabelo caia sem o Seu controle. Em outras palavras, Deus não é pego de surpresa por nenhuma contingência do nosso amanhã. Ele sabe o fim desde o começo, tal qual um tapeceiro que une os tecidos de uma peça de rara beleza. O produto final será um hino de louvor à sabedoria divina em nos conduzir por vales e desertos, aprimorando a nossa semelhança com Cristo. Portanto, não é atitude prudente duvidar da sabedoria do Senhor. Lembremo-nos que essa foi a estratégia usada por Satanás ao enganar Eva no jardim do Éden.

Em suma, cultivemos em nossos corações uma confiança dependente do Senhor Deus, que nos ama de modo irrefutável e cuidará de nós em cada circunstância difícil que venhamos a enfrentar. Certamente a paz de Deus guardará os nossos corações. Ele é Deus dos poderosos feitos em prol do Seu povo, visando sempre a glória do Seu majestoso Nome.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Confissão: um meio de graça

O povo de Deus é chamado a regularmente confessar seus pecados. No livro dos Salmos, por exemplo, há uma profusão de orações de confissão, em que o salmista Davi reconhece seus pecados apresentando-os diante de Deus (vide Sl. 32 e Sl. 51). O pronto reconhecimento de nossa inclinação ao pecado e das ocasiões em que cedemos aos apelos do nosso coração, é condição indispensável para a saúde da alma e para a manutenção de uma boa consciência aos olhos do Senhor. Uma confissão histórica do Livro de Oração Comum dos puritanos faz menção a essa tensão: “Todo-Poderoso e amantíssimo Pai, erramos e desviamos como ovelhas perdidas. Seguimos excessivamente os truques e as inclinações de nosso coração."

Uma igreja cujos membros confessam o fato de que nem sempre amam aquilo que dizem amar — que os “desejos e inclinações” de nosso coração superam nossas melhores intenções — é um manancial de onde pode jorrar verdadeira vida abundante. Por outro lado, uma igreja cujos membros preferem fazer de conta que nada de anormal se passa em seus corações, é um lugar árido e sem espaço para florescer a graça divina.

Uma vez chamados à presença santa de Deus e confrontados por Sua excelsa graça, tornamo-nos conscientes de Sua santidade e de nossa impiedade, sendo assim conduzidos a um momento de confissão — uma prática compartilhada na qual encaramos nossos pecados, tanto de comissão como de omissão, bem como nossos desejos desordenados e nossa cumplicidade com o sistema mundano.

As liturgias seculares, ao longo da semana, implicitamente nos ensinam a “acreditar em nós mesmos”. São falsos evangelhos de autoafirmação que recusam a graça. A prática da confissão é uma disciplina crucial para alinhar nossas mais profundas afeições, direcionando-as para um vigoroso padrão de autenticidade aprovado pelo Senhor, que nos conhece perfeitamente.  “E não há criatura que não seja manifesta na sua presença; pelo contrário, todas as coisas estão descobertas e patentes aos olhos daquele a quem temos de prestar contas.”  (Hebreus 4:13)

Adaptado de: Smith, James. Você é aquilo que ama . Vida Nova. Edição do Kindle.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Valorizando a Palavra de Deus


Devemos ter pensamentos claros acerca da maneira por meio da qual Deus fala conosco. Isso ocorre essencialmente quando somos levados a julgar a nós mesmos e as nossas situações, da maneira que Ele mesmo o faz. O que Deus faz é conduzir-nos, quer de argumento em argumento, por um determinado período de tempo, ou até por meio de um repentino brilho de discernimento, para percebermos como as verdades bíblicas afetam este ou aquele aspecto das nossas vidas e das vidas dos nossos semelhantes. O Novo Testamento orienta os crentes a buscarem orientação, acerca de sua fé e de sua vida diária, no ensino apostólico apoiado no Antigo Testamento. Em outras palavras, é na Bíblia que encontramos essa orientação e não em quaisquer iluminações inesperadas e não-racionais.

“Lâmpada para os meus pés é a tua palavra, e luz para os meus caminhos” (Sl 119.105). Examinemos o quadro traçado pelo salmista. Ele precisava fazer uma viagem. Habitualmente a Bíblia retrata a vida como se fosse uma viagem. Ele estava no escuro, incapaz de enxergar o caminho a seguir, sujeito a perder-se e a ferir-se, se avançasse às cegas. (Isso retrata a nossa ignorância natural sobre a vontade de Deus para as nossas vidas, a nossa incapacidade de adivinhá-la e a certeza de que, na prática, nós a erraremos.) Porém, uma lâmpada foi dada ao viajante (imaginemos que fosse uma lanterna). Agora, ele pode perceber a vereda à sua frente, passo a passo, sem desviar-se dela, embora as trevas continuem a cercá-lo (Esse quadro revela o que a Palavra de Deus faz por nós, mostrando-nos como devemos viver).

Por qual motivo o contato com a Palavra escrita de Deus transforma algumas pessoas e outras não? Primeiro, algumas pessoas permitem que a Palavra escrita guiem-nas à Palavra viva, Jesus Cristo, para quem a Palavra escrita aponta continuamente, enquanto outras não permitem que isso suceda. Segundo, nem todos aproximam-se da Bíblia famintos e cheios de expectativas, cônscios da sua necessidade diária de ouvirem Deus falar. O desejo por Deus, oriundo de nossa necessidade por Ele, é o fator que decide quão profundo ou quão superficial será o impacto das Escrituras sobre nós.

Uma vez que cheguemos a reconhecer que a Bíblia é o ensino de Deus, e recordemos que nem Deus, nem Cristo, nem a natureza e a necessidade humanas, nem o arrependimento, nem a fé, nem a piedade se alteraram, desde que a Bíblia foi escrita, procuraremos com diligência ouvir a palavra de Deus para nós, mediante a análise e a aplicação daquilo que foi escrito. A saúde da nossa alma depende exclusivamente do alimento que buscamos para saciá-la, precisamos ter olhos e mentes voltados para o Autor da nossa fé, que nos fala de modo especial através da Bíblia.

Parker, J. I. . Vocábulos de Deus . Editora FIEL. Edição do Kindle.