quinta-feira, 9 de novembro de 2017

A água do poço de Belém


Uma das histórias mais interessantes que lemos sobre a vida de Davi ocorreu durante um combate com os filisteus. Os filisteus haviam ocupado Belém, a cidade natal de Davi. Davi e seus homens estavam acampados do lado de fora da cidade. Enquanto pensava em Belém, ficou cheio de nostalgia e disse em voz alta: “Quem me dera beber água do poço que está junto à porta de Belém!” (2 Samuel 23:15). Não era uma ordem nem um pedido; Davi simplesmente desejou poder beber novamente do velho poço, como fazia antes nos velhos tempos de simplicidade. Todavia, Davi era tão amado pelos que o cercavam, que um desejo dele era para eles uma ordem. “Três valentes de Davi” abriram caminho lutando com os filisteus, tiraram água do poço, voltaram lutando novamente com os filisteus e, por fim, entregaram a água ao comandante deles.

Posso imaginar esses homens corajosos se prostrando perante Davi, oferecendo-lhe um copo cheio de água fresca. As roupas deles deviam estar rasgadas e ensanguentadas; os corpos, cheios de ferimentos — tudo aquilo para trazer um copo da água daquele poço ao seu amado líder. Davi transbordou de emoção. Ele pegou o copo, mas recusou-se a beber aquela água que poderia ter custado as vidas de seus homens. Lentamente, despejou a água no chão em oferta ao Senhor. E enquanto a terra sedenta absorvia a água, ele disse: “Longe de mim, ó Senhor, fazer tal coisa; beberia eu o sangue dos homens que lá foram com perigo de sua vida?” (v. 17).

Este acontecimento ilustra bem a importância de valorarmos adequadamente tudo em nossa volta. Nossos desejos não podem ser elevados a uma posição de primazia, ainda mais quando o custo para satisfazê-los envolve sacrifícios por demais valiosos. A vida daqueles homens valentes tinha muito mais valor para Davi do que a satisfação de seu desejo por água fresca do poço. Certamente Davi reconheceu a coragem e ousadia daqueles valentes, mas não estava interessado em satisfazer qualquer desejo que oferecesse algum risco à integridade dos seus homens. Neste episódio, Davi dá evidências que tinha posto seus anseios no lugar correto.

Será que temos avaliado corretamente o custo envolvido para alcançarmos certos objetivos na vida? O cristão maduro precisa deixar de lado a impulsividade para ceder aos seus desejos em razão da fé que precisa ser nutrida e também do valor infinitamente maior do que está em jogo. Várias famílias estão sendo literalmente destruídas por conta de desejos menores que foram elevados à categoria de prioridade absoluta. Muitos relacionamentos conjugais já não possuem nenhuma estabilidade por causa da busca desenfreada por alvos fúteis, em detrimento da solidez do casamento. Portanto, é extremamente importante que tenhamos senso crítico para não sermos iludidos na busca pela satisfação de desejos, que colocam ainda mais em risco a estabilidade e a saúde da nossa alma. Sobriedade na vida cristã não é opcional.


Em busca do sucesso


O sucesso geralmente traz notoriedade e popularidade, as quais, por sua vez, provocam distração; esta, por sua vez, traz o fracasso. Os exemplos desse efeito dominó são múltiplos: o astro de TV e cinema que não consegue lidar com a pressão do sucesso e destrói a carreira, voltando-se para o álcool e as drogas; o time esportivo que vence o campeonato nacional, depois, no ano seguinte, atravessa uma temporada terrível por causa de distrações; o gerente de empresa que se corrompe pelo poder que lhe é dado, e em pouco tempo é demitido por estar envolvido em falcatruas.

Na história de Davi, logo após ter assumido o trono e vencido algumas guerras, percebemos que ele se distraiu, desviando-se do seu propósito — e foi grande o desastre resultante. Até certa altura, Davi estava cem por cento concentrado nos desafios que Deus lhe deu: representá-Lo no trono, estabelecer o império e proteger a nação por meio da qual o Messias viria. Por ter-se mantido concentrado, Davi cumpriu esses desafios esplendidamente. Na história de Davi e em muitos outros relatos bíblicos, observamos que um ingrediente essencial para o sucesso espiritual é a concentração em alvos corretos. Por outro lado, o fracasso torna-se iminente quando reina a distração e a indolência.

Muito tem se falado a respeito do estabelecimento de alvos. Estabelecer alvos é algo que vale a pena desde que os alvos valham a pena. Todavia, uma vez estabelecidos os alvos, é fácil nos distrairmos, esquecendo em que consiste a vida. Temos de nos esforçar para não esquecer o que é realmente importante. Recordemos a famosa afirmação de Paulo: “…uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão, prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus” (Filipenses 3:13, 14). Observemos a expressão “uma coisa faço”. Ele não disse “uma dúzia de coisas faço”, nem “mil coisas eu me meto a fazer”, mas “uma coisa faço”. Paulo era um indivíduo concentrado — concentrado em Cristo. A razão do progresso espiritual de Paulo e do seu ministério frutífero foi a concentração no que era essencial, sem deixar-se distrair por futilidades.

Onde você quer chegar sem a concentração na pessoa de Cristo e nos alvos que Ele estabelece por meio das Escrituras? Não podemos esperar sucesso e progresso em nosso viver se estivermos governados por distrações variadas. O alvo do escritor da carta aos Hebreus permanece atual e relevante: “Olhando firmemente para o Autor e Consumador da nossa fé, Jesus.” Portanto, vamos nos empenhar na corrida com concentração total. A linha de chegada está logo adiante.


sexta-feira, 27 de outubro de 2017

MECANISMOS DE DEFESA

TEXTO: Josué 24: 14-15
Tema: MECANISMOS DE DEFESA


Int. 1 – Estamos diariamente expostos a milhares de perigosos microrganismos, como vírus, bactérias e parasitas. Felizmente, o corpo humano possui um mecanismo protetor contra esses invasores: o sistema imunológico (glóbulos brancos, linfócitos). O corpo precisa criar mecanismos de defesa contra as bactérias e vírus que se propagam com facilidade. Por isso, é importante que a criança seja vacinada contra diversas doenças desde os seus primeiros dias de vida. Dessa maneira, o organismo não desenvolve a doença, mas se torna imune a ela.
Int. 2. – Neste mundo, sabemos que estamos expostos aos agentes perniciosos do engano e da malícia, e por isso se faz necessário um plano de contingência para termos um mecanismo de defesa apropriado. Depois de fazer uma retrospectiva da história do povo de Israel, mostrando o quanto Deus foi gracioso e protetor, Josué traz o povo para um momento crucial. Sabedor das péssimas influências que estariam por perto, Josué apresenta ao povo os mecanismos de defesa indispensáveis para a preservação do povo, a começar pelas famílias de Israel.
“Agora, pois, temei ao Senhor e servi-o com integridade e com fidelidade; deitai fora os deuses aos quais serviram vossos pais dalém do Eufrates e no Egito e servi ao Senhor. Porém, se vos parece mal servir ao Senhor, escolhei, hoje, a quem sirvais: se aos deuses a quem serviram vossos pais que estavam dalém do Eufrates ou aos deuses dos amorreus em cuja terra habitais. Eu e a minha casa serviremos ao Senhor.”  (Josué 24: 14-15)

OS PRINCÍPIOS CONTIDOS NESTE TEXTO SÃO IMPORTANTES MECANISMOS DE DEFESA PARA A PRESERVAÇÃO DAS FAMÍLIAS CRISTÃS

1. A ADOÇÃO DE FIRME RESOLUÇÃO NA CONTRAMÃO DO MUNDO
“Escolhei, hoje, a quem sirvais”.  “Eu a minha casa serviremos ao Senhor.” Com estas palavras Josué estabelece uma resolução da qual ele não abrirá mão em favor de nenhuma conveniência. Sua firme decisão está respaldada na sua própria história, pela vida que teve com Deus, nas diversas vezes em que viu a poderosa mão do Senhor em favor do Seu povo. Josué não toma esta decisão baseado em conjecturas, ele sabe as implicações de servir somente ao Senhor e os privilégios deste serviço. A declaração de Josué é um modelo de como alguém pode dar testemunho da sua fé mesmo quando isso significa posicionar-se contra a maioria. O compromisso assumido por Josué é estendido a nós como desafio, de nos posicionarmos na direção contrária a que este mundo tem adotado.
Famílias fortes não se estruturam nos alicerces da indecisão. Famílias fortes firmam seus alicerces na firmeza de decisões à luz da Palavra de Deus.
Quem está ao lado do bom Salvador, /Pronto a dedicar-se, agora, ao seu Senhor? /Tudo abandonando pra Jesus seguir, / Encarando tudo quanto possa vir?
REFRÃO: Quem de Cristo ao lado sempre quer andar / Pela tua graça, pelo teu amor, / Eis-nos a teu lado, somos teus, Senhor.  (Hino CC452 Decisão)
Deus requer do seu povo decisão resoluta. Não podemos ficar em cima do muro, porque não existe neutralidade na batalha moral que tem se instaurado contra a família. Impossível servirmos a Deus de modo efetivo quando existe indecisão em nossos corações, quando ainda prevalece a nossa opinião. É importante que as famílias sejam resolutas, a começar pelo cabeça, o homem, que vai prestar contas da liderança que exerceu. Se nossas famílias estão à deriva, primeiro é responsabilidade dos homens. Os homens devem segurar firme o timão do navio, estabelecendo o rumo correto para chegar ao porto seguro. Neste caminho, os ventos e as tempestades serão constantes, mas a família precisa rumar resolutamente na direção estabelecida pela Bíblia, sem arredar o pé da decisão firmada perante o Senhor.
As implicações de um compromisso firmado perante o Senhor não podem ser ignoradas. Lutas e dissabores certamente acompanham esta resolução de ficar do lado do Senhor. Hostilidade e aversão serão companheiras constantes. Mas não há privilégio maior do que tomar posição em nome do Senhor. Quem é do Senhor dê um passo a frente.

2. A REJEIÇÃO DE QUALQUER FALSA ESPERANÇA EM VOGA
“Deitai fora os deuses aos quais serviram vossos pais dalém do Eufrates e no Egito.” / “ou aos deuses dos amorreus em cuja terra habitais.”
Não demorou muito e os israelitas fizeram exatamente aquilo que Deus sempre lhes dissera para não fazer. Da simples tolerância aos cananeus e amorreus, eles passaram a imitá-los. Os israelitas começaram a se casar com os cananeus e a adorar seus deuses. A nação que deveria ser santa e ficar longe das práticas pecaminosas dos cananeus, abraçou os mesmos pecados que trouxeram a ira de Deus sobre eles.
Atualmente nossos ídolos não são de pedra ou de madeira. Eles se revestem de outra roupagem. Nossos ídolos moram em nossas mentes e são alimentados por nossos desejos desordenados. Estes ídolos nos oferecem uma vã esperança, e nos trazem alívio temporário e fugaz em meio às dores neste mundo. A crise de valores que assola as famílias é resultado direto do apego às falsas esperanças trazidas pelos ídolos modernos. A relativização de princípios bíblicos em favor de conceitos humanistas tem solapado as bases da família cristã. Mesmo que não sejam reconhecidos como tais, há falsos deuses no seio das famílias sendo adorados continuamente e recebendo oferendas. Uma das ilusões mais efetivas de Satanás é a ideia de que a felicidade está nas coisas que nós possuímos. Através desta falácia, ele tem edificado um bezerro de ouro, um ídolo chamado materialismo. Em favor do materialismo, muitas famílias estão em frangalhos.
As famílias devem dar um basta a todo resquício de falsa esperança que trazem nas suas bagagens. Os pais não devem propagar para as próximas gerações crendices ou falsas ilusões que carregam por tradição ou por achismo. Mesmo que toda a sociedade volte os olhos para as psicologias da moda, ou para as terapias em voga, a família só será preservada se firmar sua esperança na infalível vontade de Deus revelada nas Escrituras. São muitas as falsas esperanças em voga nos nossos dias, mas nenhuma delas oferece paz real aos corações angustiados. As falácias continuam fazendo seus adeptos, mas falácias não deixam de ser falácias só porque estão na moda. Para que as famílias cresçam e se fortaleçam no Senhor, é imprescindível a rejeição das falsas esperanças que nos assediam diariamente.

3. A DEMONSTRAÇÃO INEQUÍVOCA DE DEDICAÇÃO INTEGRAL AO SENHOR
”Temei ao Senhor e servi-o com integridade e fidelidade” Josué não apenas faz o desafio para o povo assumir o compromisso de servir ao Senhor, mas também qualifica de que forma deve ser este serviço: com temor, integridade e fidelidade. Esta qualificação nos mostra que o serviço feito de qualquer jeito não é aceito pelo Senhor. Faz-se necessário que este serviço seja acompanhado de dedicação exclusiva, sem interrupções ou empecilhos de qualquer natureza. Josué mostrou ao povo que o serviço a Deus requer senso de integridade, que pode ser colocada à prova a qualquer instante. Até porque é impossível ser cristão pela metade. Ou somos remidos ou não somos, não há meio termo.
Se observamos as histórias narradas logo após a morte de Josué no livro de Juízes veremos claramente que o povo de Israel seguiu outros caminhos, mas não o da dedicação integral ao Senhor. Logo se misturaram com os povos cananeus e adotaram suas práticas repulsivas. Se fôssemos excluir do vocabulário do povo de Israel duas palavras na sua relação com Deus, seriam integridade e fidelidade. É impressionante a decadência desta nação por conta de sua rebeldia em não seguir ao Senhor de modo constante e completo.
Este serviço inteiro, por completo, começa por nossa família. “É difícil ver como o cristianismo pode ter um efeito positivo na sociedade, se não pode transformar a sua própria casa”. (John MacArthur). O cristianismo faz diferença nos corações, se espalha para o raio de ação mais próximo e alcança outras pessoas.
INTEGRIDADE= completo, total, inteiro, integral. FIDELIDADE= estabilidade, constância. A vida em família não pode ser dedicada ao Senhor em compartimentos. Famílias que servem ao Senhor apenas aos domingos são uma afronta às Escrituras. E nos outros seis dias? Qual a relevância que Deus tem para a vida em família nos demais dias da semana?
Vivemos uma verdadeira crise de integridade moral no seio familiar. A fidelidade a Deus é colocada em último plano quando não nos é conveniente. Por isso os filhos crescem sem desenvolver um santo temor por Deus e Sua Palavra. Ao negociarmos princípios cristãos no balcão das facilidades deste mundo, passamos para nossa família a ideia de que ser cristão não envolve compromisso integral. E assim as estruturas familiares vão se deteriorando. Os pais precisam ser exemplos de integridade moral/espiritual e fidelidade ao Senhor para seus filhos. Se não formos autênticos nesta relação com Deus, certamente não teremos condições de ensinar adequadamente o caminho que nossos filhos devem trilhar. Minha maior preocupação com Ester, e creio que deve ser a preocupação legítima de cada pai, não é o legado material ou a herança patrimonial que vou deixar para ela, mas sim o legado espiritual de temor ao Senhor que marcará para sempre a sua vida.



Um péssimo exemplo

TEXTO: EZEQUIEL 34: 1-10
TEMA: Um péssimo exemplo

O bom exemplo, quando aferido ao padrão bíblico, sempre é digno de ser copiado. No entanto, o péssimo exemplo deve ser de pronto repelido. A história de Israel está cheia de exemplos na maioria negativos. “Ora, estas coisas se tornaram exemplos para nós, a fim de que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram” (1 Cor. 10.6). Exemplos de perseverança na fé devem ser imitados (Daniel e os seus amigos na Babilônia); exemplos de retrocesso na fé devem ser repelidos (o juiz Sansão, Elias fugindo de Acabe).
O texto em destaque não trata de pastores conforme o conceito neotestamentário (aquele que cuida do rebanho do Senhor nas igrejas locais). O texto engloba a liderança de Israel como um todo, incluindo reis, sacerdotes e falsos profetas, que receberam a desaprovação do Senhor, por intermédio do profeta Ezequiel.  Reis e oficiais do governo eram chamados de “pastores”.  Os profetas (maiores e menores) utilizavam-se desta ilustração pastor-ovelha para estabelecer a relação líder-povo. No período pré-exílico os líderes do povo de Israel cometeram inúmeras torpezas, o que despertou a ira do Senhor, usando a Babilônia como vara de disciplina. Em face deste contexto e partindo do pressuposto que o negativo precede o positivo, gostaria de afirmar a seguinte proposição:
“Os líderes de Israel nos dão o exemplo de como um pastor pode malograr a condução do seu rebanho. ”
Malograr = provocar danos ou estragos, levar ao fracasso, não ser bem-sucedido
De quais maneiras os líderes de Israel nos dão o exemplo de como um pastor pode malograr a condução do seu rebanho?


1)   PREFERINDO A AUTOPRESERVAÇÃO
Os líderes “apascentavam a si mesmos ou cuidavam de si mesmos”: eis o motivo pelo qual Ezequiel emite o sonoro “ai”. O ai divino é um claro sinal de desaprovação e juízo. A palavra traduzida como apascentar refere-se a atenção e cuidado consigo mesmo, e denota um esforço concentrado em preservação, não se expondo a perigos ou intempéries de qualquer natureza. A advertência contra estes líderes vem seguida de uma pergunta retórica, porque espera-se que os pastores preservem o rebanho que lhes foi confiado. E que não preservem a si mesmos, evitando os desgastes próprios do labor com as ovelhas. A autopreservação é uma característica de líderes que se importam muito mais com a sua imagem do que com o bem dos liderados.
Para ilustrar, pensemos no rei Davi, que para preservar a sua imagem pessoal, resolveu colocar para debaixo do tapete o adultério que tinha cometido e o assassinato que encomendou. Aparentemente estava tudo bem, mas só aparentemente. Tudo ruiu quando Davi foi confrontado pelo profeta Natã. O Salmo 51 é uma oração de um homem que desistiu de se auto preservar.
Mas, definitivamente, o ministério pastoral segundo os princípios bíblicos não é espaço para envernizar a autoimagem. Quando o pastor cultiva uma preocupação com a sua imagem, em detrimento de prioridades bíblicas, já dá sinais de que seu interesse é agradar pessoas e não a Deus primordialmente. O desejo de agradar a todos, em prejuízo das Escrituras, tem feito sucumbir o ministério de muitos pastores.
O pastor não foi chamado para viver numa redoma, pelo contrário, sua missão está diretamente relacionada com o auto sacrifício. A tarefa do pastor é árdua porque demanda a necessidade de andar uma milha a mais e de oferecer a outra face. Quantos “sapos” o pastor não tem que engolir porque seu posicionamento bíblico fere o orgulho das ovelhas? Um pastor “bacana”, que prefere seguir o “politicamente correto” para aparecer bem na fita, nunca terá a aprovação do Pastor Supremo.
O pastor foi chamado para confrontar o que precisa ser confrontado, tendo a Bíblia como único parâmetro de aplicação. Além disso, a busca por popularidade e o cultivo da vaidade no ministério são feitos em prejuízo da sã doutrina. O pastor precisa ter muita cautela neste quesito, sob pena de malograr a condução do rebanho.


2)   FOMENTANDO O FAVORECIMENTO PESSOAL
A denúncia feita pelo profeta Ezequiel agora se concentra nos ganhos que os líderes de Israel obtinham à custa do povo. As metáforas utilizadas servem para ilustrar que a exploração era evidente, e que o povo padecia sob a mão de uma liderança sem o menor escrúpulo. Através de tributos exorbitantes, os líderes sugavam o quanto podiam do povo, em busca de satisfação cada vez maior e vida regalada. Os reis, príncipes e magistrados não estavam interessados em ser instrumentos de serviço, mas apenas queriam ser servidos. Jesus, o Sumo Pastor, declarou enfaticamente: “eu não vim para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos.”
“O que eu ganho com isso?”, “De que modo posso me favorecer?” São perguntas que se firmam no pensamento de quem busca satisfazer interesses próprios no serviço do Senhor.  
O apóstolo Paulo fez um alerta ao jovem pastor Timóteo que evitasse “altercações sem fim, por homens cuja mente é pervertida e privados da verdade, supondo que a piedade é fonte de lucro” (1 Timóteo 6:5). Havia falsos líderes que estavam em busca de lucros financeiros utilizando-se de um discurso piedoso. Paulo aponta que a ganância é um grave mal para a igreja, e diz que grande fonte de lucro é a piedade com contentamento.  É bíblico que a igreja cuide bem do seu pastor, e zele por ele na questão financeira, suprindo-lhe com o apoio e recursos. “Porque na lei de Moisés está escrito: Não atarás a boca ao boi, quando pisa o trigo. Acaso, é com bois que Deus se preocupa?” Neste contexto Paulo defende a importância de ser sustentado dignamente pela igreja de Corinto.
É notório que muitos pastores pervertidos entendem que o sucesso financeiro é a primeira evidência da bênção de Deus sobre o Seu povo, e fazem uso desta retórica para se beneficiarem. É triste ver falsos líderes de igrejas explorando o rebanho com sagacidade, em busca de impérios e movidos por ganância.
No entanto, todo pastor devotado a Cristo, sabe que o ministério pastoral não é um meio de ganhar dinheiro fácil. Aquele que foi chamado por Deus para esta nobre missão entende que o povo de Deus não pode ser explorado ou utilizado como meio de enriquecimento. A proposta do chamado pastoral não é um chamado para estar na linha de pobreza, mas também não é que faça do ministério uma fonte de exploração para obter lucro. Até porque igreja não é empresa, e sua função não é gerar lucros. Pastor não é gerente financeiro, e sua função não é estabelecer metas de crescimento do caixa. O foco do ministério pastoral não deve ser estabelecido em função de favorecimento pessoal com base em pretensões materialistas.
O pastor Argemiro já deu seu testemunho de que por vários anos serviu ao Senhor recebendo da igreja apenas uma ajuda de custo (cesta básica). Esta não deve ser a regra, mas a situação concreta mostra que nunca assumiu o ministério pastoral com intenções gananciosas.

3)   IGNORANDO AS NECESSIDADES PRIORITÁRIAS
O texto nos apresenta uma série de omissões dos líderes de Israel. Se os pecados de comissão dos líderes eram terríveis, seus pecados de omissão eram ainda piores. Não se trata aqui de um caso isolado, mas de uma prática reiterada de negligência diante das reais necessidades dos liderados.  O povo sofria e se dispersava e os líderes não exerciam o cuidado indispensável. A omissão era a tônica em Israel, em virtude de uma liderança que optou pela indiferença diante da situação crítica do povo. As ovelhas fracas, doentes, quebradas, desgarradas e perdidas, no texto, referem-se a diversas situações que exigiam a pronta atuação do pastor, utilizando os recursos e ferramentas apropriadas para fortalecer, curar, ligar, tornar a trazer e buscar.
Paulo escrevendo sobre o corpo de Cristo à igreja de Corinto, declara: “Se um membro sofre, todos sofrem com ele.”  O princípio da interdependência está em pleno vigor, não foi e nunca será revogado. Deus requer do Seu povo que seja pró-ativo em atender as necessidades uns dos outros. Mas o Senhor concede ao pastor a visão para enxergar as necessidades legítimas do rebanho, direcionando adequadamente os esforços. Sem um pastor que saiba as necessidades espiritualmente prioritárias do rebanho, as ovelhas ficam dispersas, e um rebanho disperso torna-se presa fácil para os ataques de lobos.
Compartilhar a dor do outro é uma atribuição com que o pastor se depara continuamente. A dor e o sofrimento dentro da igreja podem ser causados por diversas razões. O pastor precisa estar atento às reais necessidades do rebanho, e agir com diligência para trazer restauração. Em razão da dor proveniente das aflições próprias deste mundo caído, a ovelha encontra compaixão e graça por meio do ministério pastoral.
O pastor precisa estar atento ao gemido de dor (desde que legítima) do seu rebanho. Não se trata de passar a mão na cabeça de pecadores inveterados que não abrem mão de sua rebeldia, mas de compadecer-se daqueles que choram por seus pecados e se arrependem diante do Senhor.  As pregações devem ser sempre direcionadas pelo Senhor, mas o pastor deve conhecer o que se passa com o rebanho, as dores e dificuldades particulares da igreja. Ai da igreja em que o pastor não conhece as reais necessidades espirituais do seu povo, e pouco se importa com a advertência em Hebreus13:17: velam por vossa alma, como quem deve prestar contas!

REMORSO X ARREPENDIMENTO


Você sabe a diferença entre remorso e arrependimento? Paulo, em 2 Coríntios 77: 8-11, faz uma clara distinção entre a tristeza segundo o mundo e a tristeza segundo Deus. A realidade do pecado como afronta à santidade divina deve trazer-nos tristeza segundo Deus, que nos impulsiona a profundas mudanças em nosso viver.

A tristeza mundana não passa de um remorso. A tristeza mundana experimenta o pecado, estremece de dor e sente pesar, mas apenas por um breve momento. A tristeza mundana está realmente determinada a lutar contra o pecado, somente por enquanto. O problema é que esta recente descoberta de convicção e pesar, bem como este abalo emocional, são todos de curta duração. O foco da tristeza segundo o mundo é o mundo. Pessoas que sofrem por remorso estão angustiadas porque estão perdendo (ou temem perder) as coisas que o mundo oferece. Este tipo de tristeza, conforme argumenta o apóstolo Paulo, conduz à morte. É letal porque brota do mesmo tipo de coração que deseja em primeiro lugar dedicar-se a si mesmo.

Na tristeza segundo Deus há uma mudança de perspectiva. O foco é a santidade divina que foi afrontada. As lágrimas de tristeza fluem do sincero desgosto por ter quebrado a santa lei do Deus que nos ama. Ou seja, esse profundo pesar é motivado por Deus e orientado para Deus. A tristeza segundo Deus produz arrependimento para vida, que transborda em paz real e duradoura. Este pesar por ter pecado estende-se para além de um momentâneo tormento de dor e pontadas fugazes de convicção. Alguém que experimenta a tristeza segundo Deus ocupa-se na batalha contra o pecado, buscando força e graça necessária no poder de Cristo.

Façamos uma avaliação importante: se a tristeza que temos vivenciado não nos leva a uma verdadeira e durável transformação, então tivemos uma experiência mundana, e precisamos desesperadamente da tristeza segundo Deus. O nosso pesar em relação ao pecado não pode ser um simples remorso. Assim como Daniel orou, necessitamos corar de vergonha e lamentar profundamente sobre a real condição de nosso coração. E assim, fazer os ajustes necessários para reorientar biblicamente a forma como encaramos o pecado que tenazmente nos assedia. Portanto, deixemos o remorso para trás e busquemos a verdadeira paz que o arrependimento genuíno nos proporciona.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Inconformismo

Texto: Miquéias 3


Martin Luther King Jr. (1929-1968) tornou-se um dos mais importantes líderes do movimento dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos e no mundo. Em 14 de outubro de 1964, recebeu o Prêmio Nobel da Paz pelo combate à desigualdade racial através da não violência. O seu inconformismo com a situação de apartheid que os negros sofriam, o levou a levantar a bandeira de contestação deste sistema excludente.  Sua atuação foi fundamental para aprovação da Lei de Direitos Civis dos Estados Unidos, em 1964. São famosos alguns trechos de seus discursos:
·        “O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons.”
·        “Eu tenho um sonho. O sonho de ver meus filhos julgados pelo caráter, e não pela cor da pele.”
·        “Se um homem não descobriu nada pelo qual morrer, não está pronto para viver.”
Martin Luther King era odiado por muitos segregacionistas do sul, o que culminou em seu assassinato no dia 4 de abril de 1968, momentos antes de uma passeata, num hotel da cidade de Memphis

O texto em epígrafe trata de uma realidade degradante no meio do povo de Israel. Havia uma série de escândalos em Israel que eram tolerados como se tudo aquilo fosse natural. O ministério de Miquéias foi centrado na época em que os assírios ameaçavam invadir a Samaria, a capital do reino do Norte destruída em 722 a.C., e a Jerusalém, a capital do reino do Sul. O zelo pela santidade do Senhor impeliu o profeta Miquéias a expressar o seu inconformismo diante daquela realidade reprovável (note o versículo Mq. 3:8). Miquéias não tinha como preocupação ganhar um concurso de popularidade na sua época. Não tinha como objetivo projetar o seu nome ou garantir a sua fama diante da classe dominante de Israel. Seu papel como profeta do Senhor foi incisivo, denunciando os males que dominavam o cenário político e religioso em Israel.

“Assim como o profeta Miquéias, devemos expressar o nosso inconformismo diante de situações que merecem contundente reprovação”

? Diante de quais situações que merecem contundente reprovação devemos expressar o nosso inconformismo?

Antes de pensar que estas situações são externas a nós, quero enfatizar que elas podem estar entranhadas em nós muito além do que imaginamos. O inconformismo deve começar em nós mesmos, quando somos confrontados pelas Escrituras. Como diz a letra de um antigo hineto: “A começar em mim, quebra corações”. Que estejamos atentos para perceber situações de pecado que devem causar inconformismo, primeiramente em nós, e assim estaremos aptos para expressar o mesmo inconformismo a nossa volta.
·        Veremos 3 SITUAÇÕES que merecem contundente reprovação, diante das quais devemos expressar o nosso inconformismo:


. Quando o exercício do poder é visto não como recurso moderador da justiça, mas como fonte de opressão (vs. 1-3)
Os termos hebraicos que correspondem a “chefe” e “cabeça” relacionam-se com alguém no exercício de autoridade, e abrangem todos aqueles possuidores de algum poder, responsáveis por executar a justiça, podendo ser os ministros, os nobres, juízes e também os sacerdotes. Era esperado dos líderes civis e religiosos mais proeminentes de Israel que exercessem suas atribuições com equidade e prudência, mas a realidade não era essa nem de longe.  “Mishpat”, traduzido como juízo, é o estabelecimento de relações corretas e justas entre os homens. No âmbito judicial, aborrecer o bem e amar o mal, corresponde a emitir sentenças injustas, favorecendo os culpados e prejudicando os inocentes. No uso mais amplo, “bem” e “mal” são termos genéricos que se referem ao “certo/errado”. Assim o que era certo e justo era desprezado, e o que era errado e injusto era amplamente aceito. As classes superiores e governantes eram tanto açougueiros quanto animais ferozes, e seus subordinados eram as vítimas indefesas de um sistema brutal de exploração e opressão. Os chefes de Israel tinham tal consideração pelos seus compatriotas, assim como os açougueiros e as feras têm pelas carcaças. O povo humilde e subalterno era literalmente esfolado vivo, para dar sustentação aos líderes que exerciam com tirania o poder que detinham nas mãos.
Ø Ilustração:
A exploração sofrida no seio da igreja foi denunciada por Tiago, meio irmão do Senhor.  Na sua carta, famosa pela expressão "a fé sem obras está morta", ele apresenta também o seu inconformismo com a situação fraudulenta que tinha invadido a igreja do Senhor. "Eis que o salário dos trabalhadores que ceifaram os vossos campos e que por vós foi retido com fraude está clamando; e os clamores dos ceifeiros penetraram até aos ouvidos do Senhor dos Exércitos." (Tiago 5:4) (Lv. 19:13). Nada mais anticristão do que um cristão explorar outro cristão.
A justiça social plena é um ideal inatingível neste mundo corrompido pelo pecado. O sonho de igualdade social dos marxistas não passa de sonho. Mas não podemos fechar os olhos para a opressão brutal que as pessoas têm sofrido, em benefício de líderes corruptos da nossa nação que viajam de graça, comem e dormem nos melhores hotéis com dinheiro de impostos cada vez mais altos.
Mas deixando de lado o plano político em nosso país, o que dizer quando a igreja se torna um local de exploração cruel das ovelhas? Suetônio disse: “É função do bom pastor tosquiar as ovelhas, e não arrancar-lhes a pele”. Não somente o pastor, mas também a liderança precisa estar atenta às reais necessidades espirituais do rebanho para não exercer um poder arbitrário, sem base nas Escrituras. Toda autoridade nasce e morre nas Escrituras; portanto, sempre haverá exercício arbitrário do poder quando as Escrituras são deixadas de lado para cumprimento de caprichos pessoais da liderança. Quando Deus fala, o homem cala. E quando um líder levantado e guiado por Deus fala, não pode haver contestação. Mas quando um líder não se curva diante do Senhor, suas atitudes e mensagens terão como objetivo causar intimidação e opressão nos ouvintes (Zc. 11: 15-17).
O púlpito pode ser uma fonte de edificação para o povo, quando a Palavra é corretamente exposta e aplicada; mas também pode ser um local em que caprichos e vontades humanas são impostas de modo opressivo e inconsequente. O fato de toda autoridade vir de Deus não diviniza o detentor do poder. A autoridade que o Senhor delegou aos seus representantes deve ser usada de modo a trazer glória ao nome de Cristo, e não prejuízos à noiva de Cristo.


. Quando a proclamação da mensagem é vista não como recurso promotor da verdade, mas como fonte de ilusão (vs. 5)
Miquéias estava inconformado com o fato de que os profetas e sacerdotes faziam errar o povo de Deus, que significa iludir, desviar e desencaminhar moral e espiritualmente. Estes falsos profetas proclamavam apenas aquilo que o povo e os dirigentes queriam ouvir, ainda que fosse algo ilusório, em troca de manter o seu próprio bem estar de mordomia e de recursos financeiros. Fica bastante claro no texto, que a motivação destes falsos profetas não era pregar com fidelidade a palavra de Deus, mas se locupletarem. O dinheiro era o vetor que governava a vida deles. Se havia dinheiro entrando no bolso, tinham palavras cheias de esperança para o povo. Se o pão lhes era retirado da boca, ameaçavam o povo com guerra santa. Ou seja, a mensagem mudava conforme os benefícios materiais/financeiros (R$) para os profetas. Estes profetas tinham a audácia de falar piedosamente em nome de Deus, como se Ele fizesse parte daquele negócio desonesto.
Ilustração:
No sermão de 27/06/1937, o pastor luterano Niemoller deixou claro para os presentes que ele tinha o dever sagrado de denunciar os males do regime nazista, não importando as consequências: “Não temos nenhuma intenção de usar nossos poderes para escapar do braço das autoridades. Não estamos mais dispostos a ficar em silêncio sob o comando de homens quando Deus nos manda falar. Porque é o caso, e assim deve permanecer, de que devemos obedecer mais a Deus que aos homens”. Alguns dias depois, ele foi preso. Seu crime? “Abuso do púlpito.”
Não é de hoje que os pregadores de ilusão têm arrebanhado muitos seguidores. No tempo do profeta Miquéias imperava a pregação por conveniência e não é diferente nos nossos dias. O conteúdo da mensagem era adaptado de acordo com as ofertas que eram dadas aos falsos profetas. Charles Spurgeon disse que “um ministro infiel (que negocia a verdade) é o maior instrumento de Satanás dentro da igreja”. Atualmente, a tônica dentro dos arraiais evangélicos é oferecer falsas esperanças, conforto ilusório, conselhos convenientes, tudo que não cause nenhum incômodo aos ouvintes, talvez uma espécie de band-aid espiritual. Existem muitos vendedores de ilusões, que cometem estelionato da fé. Devemos expressar o nosso inconformismo quando pessoas se utilizam do púlpito ou da Palavra de Deus para se favorecem de alguma maneira, trazendo vergonha à causa do Evangelho.
“Qual é o seu preço, meu querido irmão?” Você negocia a verdade de Deus por alguma conveniência? Ou você está fechado para qualquer tipo de negociata, já que a verdade do Senhor é inegociável? “Compra a verdade e não a vendas!” (Pv. 23:23), é o imperativo bíblico. Certamente precisamos estar atentos a tudo o que falamos em nome de Deus, pois o que dizemos precisa ser aferido com a verdade das Escrituras. Não adianta querer agradar gregos e troianos com um discurso adaptável às circunstâncias, isso nunca vai glorificar a Deus. Podemos até conquistar a aprovação e aplausos de muitas pessoas, mas não seremos tidos como despenseiros fiéis. O que se requer dos despenseiros é que sejam fiéis na entrega da mensagem que receberam do Senhor, sem diluir, tirar ou acrescentar nada. Não fomos autorizados pelo Senhor a criar falsas ilusões para ninguém.
A saúde espiritual de um crente pode ser medida de várias maneiras, e uma delas é o nível de confrontação bíblica que ele está disposto a travar, quando sua aceitação ou popularidade é colocada em risco. Ou quando, por amor à verdade, suas posições cristãs não oscilam diante daqueles que podem lhe favorecer de alguma maneira.


. Quando a identificação com o Senhor é vista não como recurso santificador da vida, mas como fonte de presunção (vs. 9-11)
A expressão “o Senhor está no meio de nósdenota uma identificação profunda do Senhor com o Seu povo amado. Mesmo sendo transcendente o Senhor resolveu partilhar a Sua presença com o Seu povo, desde o momento do chamado de Abraão culminando na saída milagrosa do Egito. Se não fosse o Senhor no meio do Seu povo, dando sustento e direção,o povo de Israel não existiria. Mas a despeito desta identificação com o Senhor, que deveria ser encarada com responsabilidade, o povo resolveu agir com rebeldia. Observa-se no texto um misto de cinismo e presunção por parte daqueles que despertaram o inconformismo do profeta Miquéias: “Nenhum mal nos sobrevirá”. Algumas traduções do verso 11: “O Senhor está conosco. Nada de ruim nos sucederá” e “Nenhum mal vai acontecer porque o Senhor está do nosso lado.” Os líderes corrompidos alimentavam a falsa pressuposição de que Deus estaria do lado deles sob quaisquer condições. Para eles não haveria juízo da parte do Senhor. Mas o Deus santo e justo não pode contemplar o mal ou aprovar a injustiça, nem ficar indiferente diante da opressão.
Ø Ilustração:
“Porquanto o Senhor, teu Deus, anda no meio do teu acampamento para te livrar e para entregar-te os teus inimigos; portanto, o teu acampamento será santo, para que ele não veja em ti coisa indecente e se aparte de ti.” (Dt. 23:14). O Senhor andaria com o seu povo, mas o acampamento deveria ser mantido limpo e nada impuro poderia ser visto dentro de suas fronteiras. Fica evidente a necessidade de não ser complacente com qualquer coisa que afrontasse a santidade do Senhor. A identificação do Senhor com o Seu povo e a recíproca pressupunha zelo e temor.
Precisamos entender que a identificação do Senhor conosco é a base de nossa identificação com Ele: “O Senhor, teu Deus, está no meio de ti, poderoso para salvar-te; ele se deleitará em ti com alegria; renovar-te-á no seu amor, regozijar-se-á em ti com júbilo.” (Sf. 3:17)
De fato é uma promessa bastante segura que o Senhor está conosco todos os dias até a consumação dos séculos. Esse é um lado da moeda. O outro lado é a nossa resposta efetiva diante desta verdade bíblica. Cada vez mais somos convocados a nos identificar com o Senhor. A teologia tem de abrir caminho da cabeça para o coração e depois à prática, ou foi mal utilizada. Toda teologia que não nos impulsiona a uma resposta efetiva não serviu ao seu propósito. Além disso, Qualquer “teologia” que facilite o nosso pecado não é uma teologia bíblica. Presumir que Deus está ratificando a nossa conduta por conta de algum progresso ou sucesso aparente é típico do homem pós-queda. Geralmente, a prosperidade ou a ausência de dificuldades, é entendida erroneamente como o selo de aprovação do Senhor. Nada mais perigoso do que fiar-se na identificação com o Senhor, na aliança firmada por Ele, sem dar importância a uma viver santificado. Viver com base numa presunção equivocada é um passo certo para a queda espiritual. “No tocante a Deus, professam conhecê-lo; entretanto, o negam por suas obras” (Tt 1:16)

Como saber que o Senhor está no meio de nós? Quando há arrependimento verdadeiro e mudanças efetivas, quando há relacionamentos restaurados, quando a igreja avança em temor e piedade, quando os lares são edificados pela graça de Cristo, quando as Escrituras têm preeminência nas decisões que tomamos. A apatia certamente dominará nosso viver se a nossa identificação com o Senhor for meramente teórica e sem resultado prático. Precisamos muito mais do que um discurso teológico e uma boa confissão de fé.

Prevenção é sempre o melhor

Texto: 2 Cor. 4: 1-2

Introdução:
Prevenir é melhor que remediar”. “Um homem prevenido, vale por dois”. A prevenção é a tônica dos assuntos de saúde. A medicina preventiva é um dos ramos que mais crescem. A identificação precoce de moléstias por meio de exames preventivos possibilita minimizar os danos causados pela demora no diagnóstico.
- Setembro amarelo (suicídio)
- Outubro rosa (câncer de mama)
- Novembro azul (câncer de próstata)
No contexto da carta aos Coríntios, Paulo estava sofrendo severos ataques por conta do seu ministério. Ele era acusado de falso apóstolo e de embusteiro, uma pessoa sem caráter para o exercício do apostolado. Por isso ele escreveu a 2ª. carta aos Coríntios, para defender o seu ministério, colocando-se à prova de qualquer contestação. Sua abordagem é incisiva e nos mostra um homem precavido contra as estratégias que queriam minar o seu ministério como apóstolo do Senhor.
Na missão confiada a nós, como sal e luz neste mundo corrompido, devemos adotar medidas preventivas contra os ataques que certamente virão dos ímpios, e até mesmo de outros cristãos professos. Este mundo caído é um front de batalha em questões de fé, e não há como manter uma neutralidade. Por isso é necessário que sejamos cristãos prevenidos, sempre atentos as ciladas dos opositores que desejam aniquilar as nossas bases de fé. É certo que o chamado divino é sempre acompanhado da capacitação divina; e Paulo sabia que Deus o sustentaria até o final. Mas é nosso dever adotar medidas preventivas para não sucumbirmos ante à oposição.

PRECISAMOS ADOTAR MEDIDAS PREVENTIVAS CONTRA OS ATAQUES DOS OPOSITORES DA MISSÃO A NÓS CONFIADA”
? Quais medidas preventivas precisamos adotar contra os ataque dos opositores da missão a nós confiada?
 
1. A VALORIZAÇÃO DA TRANSPARÊNCIA 
"rejeitamos as coisas que, por vergonhosas, se ocultam"
Coisas vergonhosas geralmente são feitas às escondidas, para não levantar nenhuma suspeita ou não causar nenhum embaraço em quem as pratica. Aquilo que é desonroso é realizado de modo que não desperte a atenção das pessoas. Paulo condena este tipo de postura de modo claro, pois o cristão deve viver na luz, sem nada a ocultar. Seus atos eram realizados visando a glória de Deus, e portanto não tinham que ser às escondidas, fora da percepção dos homens.
Ilustração: "A luz do sol é o melhor dos desinfetantes", afirmou, quase um século atrás, o juiz americano Louis Brandeis (1856-1941). A frase se referia à necessidade de transparência no sistema financeiro. As ideias de Brandeis influenciaram a criação de leis que tiveram como objetivo tornar o funcionamento dos mercados mais límpido, restringindo o poder dos grandes banqueiros e protegendo poupadores.
  • Efésios 5: 11-13: "E não sejais cúmplices nas obras infrutíferas das trevas; antes, porém, reprovai-as. Porque o que eles fazem em oculto, o só referir é vergonha. Mas todas as coisas, quando reprovadas pela luz, se tornam manifestas; porque tudo que se manifesta é luz."
Os Filhos da luz não devem ter nada a esconder. Nossas vidas devem ser marcadas pela total transparência naquilo que fazemos, pois Deus já nos tirou das trevas. Um estilo de vida “às escondidas” é uma forte evidência de que algo está errado com o nosso cristianismo. Deus requer dos Seus filhos que vivam na luz, e para isto é imprescindível que não tenhamos nada a ocultar de nossos irmãos em Cristo Jesus. Nossas redes sociais e conversas podem ser vistas por outros irmãos em Cristo, sem nos causar nenhum constrangimento? Nossa vida é um livro aberto? Ou será que ainda temos muito a esconder, com alguns cômodos que não podem ser visitados por ninguém? Será que temos um quartinho da bagunça?
 
2. A VALORIZAÇÃO DA AUTENTICIDADE 
"não andando com astúcia"

O dicionário eletrônico Houaiss define astúcia como: “habilidade de dissimular e usar artifícios enganadores e, com isso, obter vantagens às custas de outrem; malícia, treta, artimanha.” Paulo era acusado de usar artimanhas para sustentar-se como apóstolo e ministro do Evangelho, mas esta acusação não passava de difamação. Levantaram contra Paulo varias acusações, questionando a sua integridade e honradez.
Ilustração: um exemplo de astúcia, sem o menor sinal de autenticidade, foi o casal Ananias e Safira (Atos 5). Eles queriam ludibriar os apóstolos com sua pretensa generosidade, mas foram desmascarados e punidos. O casal forjou uma aparente piedade, que não condizia com a realidade. Isto foi e é abominável ao Senhor.
A astúcia é um atributo do diabo, não dos verdadeiros servos do Senhor. A palavra grega panourgia (astúcia, esperteza) aparece cinco vezes no Novo Testamento, sempre com conotação exclusivamente negativa (Lc 20.23; 1Co 3.19; 2 Co 4.2; 11.3; Ef 4.14). A astúcia não caracteriza a conduta de Paulo e seus colegas, porque eles se esfor- çam pela honestidade e pela integridade. Os judaizantes podem acusá-lo de esperteza (12.16), mas sua vida demonstrava que essa acusação deles não tinha o menor fundamento.
Andar com astúcia é agir com esperteza em busca de vantagens, forjando as reais intenções com um comportamento calculado para não ser desmascarado. Vivemos uma crise de autenticidade no meio chamado evangélico. Há muitos embusteiros que com suas artimanhas enganam a muitos. Mas de toda sorte de enganos, o pior certamente é o autoengano, aquele que é voltado para transmitir uma imagem irreal de si, para obter a aprovação e os aplausos da plateia. Autenticidade é viver sem intenções maliciosas e sem astúcia, com sinceridade em nossas ações.
 
3. A VALORIZAÇÃO DA SUFICIÊNCIA DAS ESCRITURAS
"nem adulterando a Palavra de Deus"

O verbo "adulterar" faz referência à adição de água ao vinho ou ao leite, para render maior quantidade e proporcionar mais lucros aos comerciantes. A Palavra de Deus quando é corrompida não serve aos seus propósitos, assim como o remédio, que quando é diluído perde a sua eficácia. Paulo também era acusado de propagar inverdades e afrontar o judaísmo até então vigente. Mas sua consciência estava tranquila quanto à necessidade de pregar a Palavra, e somente a Palavra (1 Co. 2:1-5). Para o apóstolo as Escrituras eram suficiente, e não havia necessidade de acrescentar nenhuma pitada de sabedoria humana ou filosofia da época.
Ilustração: Um exímio adulterador, que sabia diluir como ninguém a mensagem pura das Escrituras, foi o profeta Hananias, que se opunha à mensagem de julgamento pregada por Jeremias. Ele era um falso arauto que afirmava a queda de Babilônia e a volta dos exilados e dos tesouros do templo, dentro de dois anos. Sua mensagem não tinha o selo do “Assim diz o Senhor”, pois estava diluída e corrompida com falsas promessas. Este tipo de mensagem ao gosto do freguês sempre goza de bastante popularidade.
Para falar em nome do Senhor dos Exércitos precisamos submeter-nos à suficiência da Sua Palavra. Dizer que a Palavra de Deus é suficiente é uma coisa. Viver conforme esta verdade é outra coisa totalmente diferente. Valorizar a suficiência das Escrituras no dia-a-dia, sem acrescentar nada a sua essência, é o teste de fogo quando nos vemos diante dos dilemas da vida. A âncora do cristão é a pura Palavra de Deus, sem nenhum acréscimo. É dela que provém o nosso sustento e direcionamento neste mar revolto da vida. Não é saudável e nem seguro diluirmos seu conteúdo para nos sentirmos confortáveis.
Devemos marcar posição quanto à questão da suficiência das Escrituras nestes tempos pós-modernos em que vivemos. O povo de Deus deve se apegar ao Livro de Deus, ainda que sofra retaliações por isso. O que não estiver aferido com as Escritures é de procedência maligna.

4. A VALORIZAÇÃO DA RESPONSABILIDADE PESSOAL
"nos recomendamos à consciência de todo homem, na presença de Deus"

Aqui não se trata de presunção ou falta de humildade, algo que Paulo tinha fortemente combatido na igreja de Corinto. Paulo aqui está ressaltando a responsabilidade que ele tinha por seus atos, a ponto de colocar-se sob o exame daquelas consciências submetidas à verdade na presença de Deus. O apóstolo não fugia da responsabilidade por suas ações, pois eram feitas visando somente a glória de Deus. Ele era um servo plenamente convicto da sua missão, e, portanto, não tinha como se furtar desta responsabilidade diante de Deus e diante dos homens.
A consciência humana funciona como um tribunal interno, e quando a nossa consciência está imbuída da verdade bíblica, os julgamentos são acertados. Paulo não tinha medo de passar por tal exame, sabendo que suas ações eram marcadas pela integridade. A consciência humana, quando guiada pela verdade de Deus, registra e avalia o bem e o mal, examina a própria conduta moral e a dos outros, e obedece à autoridade que Deus instituiu.
Ilustração: Recentemente o pastor Argemiro pregou um sermão com base em Mateus 18, cujo tema era: Qual o nosso perfil como crentes? O segundo ponto da mensagem era: O perfil de quem insensatamente serve de estorvo espiritual a outro ou de quem lhe serve de apoio espiritual? Nos tornamos estorvo espiritual quando não vivemos com responsabilidade, quando fazemos tropeçar ou trazemos escândalo à consciência de outros.
Assumimos a responsabilidade por nossas atitudes, ou sempre encontramos respostas evasivas? Será que estamos abertos à confrontação bíblica por alguém se alguma mancha for detectada em nosso cristianismo? Isto é encarar com responsabilidade a vida cristã, sem tergiversar. Viver de modo responsável é estar disposto a passar por um exame à luz da Verdade de Deus, sob a orientação clara e e segura de pessoas maduras na fé.

A prestação de contas honesta a um irmão maduro na fé é uma forma de fortalecer a nossa responsabilidade como cristãos e evitar a falsa impressão de que somos irrepreensíveis. A prestação de contas é uma medida preventiva contra o orgulho presente em nossos corações e se torna um salvaguarda para a solidificação de relacionamentos efetivos e santos.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Não mais escravos

Não se pode dizer a um escravo: “Viva como um homem livre”; mas pode-se dizer isso a alguém que foi liberto da escravatura. Agora que estamos de fato mortos para o pecado —para o seu governo e reino —temos de considerar isso como uma verdade. Temos de manter diante de nós esta realidade de que já não somos escravos. Podemos agora erguer-nos diante do pecado e dizer-lhe não. Antes, não tínhamos hipótese, agora podemos escolher. Quando pecamos como cristãos, não o fazemos como escravos, mas como indivíduos com liberdade de escolha. Pecamos porque escolhemos pecar.

Resumindo, então, fomos libertos do reino e governo do pecado, do reino da injustiça. A nossa libertação resulta da nossa união com Cristo, na sua morte. Quando Cristo entrou neste mundo, entrou voluntariamente no reino do pecado, embora nunca tenha pecado. Quando morreu, morreu para este mundo do pecado (Romanos 6.10) e, através da nossa união com ele, nós morremos igualmente para esse reino. Temos de reconhecer o fato de que estamos mortos para o governo do pecado, de que podemos nos erguer e dizer não ao pecado. Devemos, portanto, guardar o nosso corpo, de modo que o pecado não reine em nós.

Vemos assim, que Deus fez provisão para a nossa santidade. Por meio de Cristo, libertou-nos do reino do pecado, de maneira que agora podemos resistir-lhe. Mas essa responsabilidade de resistir ao pecado é nossa. Deus não vai fazer isso por nós. Confundir o potencial para resistir (que Deus providenciou) com a responsabilidade de resistir (que é nossa) é concorrer para a tragédia da nossa busca de santidade.


Jerry Bridges, no livro: A busca da Santidade (versão Kindle)



Caminho dos homens X Caminho de Deus

Que diferença entre o caminho de Deus e o caminho dos homens. Por exemplo, muitos irmãos gostam tanto de ouvir um sermão bom, entendido como tal aquele que massageia o ego, aquele que eleva a auto-estima, aquele que promove a exaltação do “eu”. Estes mesmos irmãos, certamente não gostam nada de meditar nas bem aventuranças (Mt. 5:3-12). O Sermão do Monte é um golpe mortal desferido pelo próprio Senhor Jesus, contra esse tipo de sermões psicologizados, açucarados, que são exatamente o contrário do que Jesus ensinou. Que caminhos diferentes.

Contrariamente aos caminhos do homem, o caminho de Deus nos leva a nos ajoelhar diante dele, reconhecendo a sua santidade e a nossa miséria espiritual. O caminho do Senhor nos faz chorar por causa dos nossos pecados. O caminho do Senhor nos torna mansos e gentis em nossos relacionamentos. O caminho do Senhor nos leva a considerar a honestidade, de sorte que as nossas atitudes sejam compatíveis com a nossa confissão, concedendo-nos sede de justiça, e o desejo de crescer na graça e na santidade. O caminho do Senhor nos faz ser misericordiosos com os desventurados, porque conhecemos as desventuras causadas pelo pecado. O caminho do Senhor nos transforma em pacificadores, mas também nos traz perseguições, injúrias, insultos, exatamente por causa da justiça e por causa de Cristo com  quem nos identificamos. Que caminhos diferentes. Que Deus nos conceda graça de andar no seu caminho.

Fonte:
Igreja Presbiteriana Jardim Treze de Maio

sábado, 16 de julho de 2016

Satisfação gera ação

Não existe satisfação comparável à da pessoa que tem a mente imbuída da plena certeza de conhecer a Deus, e de que Deus o conhece. Essa era a razão do contentamento e da calma com que Daniel e seus companheiros firmaram sua posição, mesmo diante dos opositores.
A vida é cheia de contusões. Estamos expostos a todo tipo de dificuldade inerente à condição humana. Além disso, a oposição ferrenha que o cristão enfrenta por conta de suas convicções bíblicas gera muitos percalços. Sendo assim, a chave para enfrentarmos corretamente a oposição do mundo ímpio é ter o nosso contentamento centrado em Deus. Quando estamos satisfeitos no Senhor e encontramos verdadeira paz e alegria nEle, os revezes desta vida não podem nos fazer sucumbir. Firmados na Rocha, nossos pés não vacilarão.
O grande problema é que deixamos brechas em nosso coração, e assim somos sufocados por pensamentos equivocados sobre a vida e até mesmo sobre Deus. Precisamos volver os nossos olhos para as Escrituras, a revelação de Deus para nós. Nas Escrituras encontraremos a correta percepção que deve nos guiar nos mares revoltos deste mundo. Não se trata de intuição, mas de convicção.
Uma vez justificados, já temos paz com Deus. Mas esta paz precisa ser evidenciada em meio ao turbilhão de contrariedades que existem neste mundo pervertido e corrupto. Crentes cabisbaixos e sem alento são um atestado do conhecimento inadequado e fraco de quem Deus é e de Suas obras magníficas em prol do Seu povo.
Sejamos coerentes e vivamos conforme a alegria que procede do amor gracioso outorgado na Cruz, por meio de Jesus Cristo, o nosso Redentor amado.



segunda-feira, 6 de junho de 2016

Implicações da Justificação


O que é a justificação? Herman Hoeksema a definiu como um ato da graça de Deus, no qual Ele imputa (credita na conta legal) de quem é culpado e condenado, Sua perfeita justiça em Cristo, absolvendo-o de toda a sua culpa e punição com base no mérito da obra de Cristo, e dando a este pecador o direito à vida eterna. A justificação é uma parte da salvação do pecado através de Cristo, uma vez que Deus aplica a salvação a cada um de Seus eleitos.

A justificação é Deus declarando à consciência de Seus filhos regenerados e chamados, que eles são perdoados e justos. Deus por meio de Seu Espírito fala à consciência do pecador humilhado e quebrantado, sobre o Seu ato de mudar a posição legal dele perante Deus, o Juiz, de um estado de culpa para um estado de perfeita justiça.

A imputação da obra de Cristo é fundamental no entendimento da justificação. O pecador recebe graciosamente os benefícios adquiridos pelos méritos de Cristo. A situação legal-forense do pecador é sobrenaturalmente transformada: antes um pecador condenado, agora um pecador justificado. Portanto, já não há mais nenhuma condenação para aqueles que estão “em Cristo Jesus”. Ou seja, para aqueles sobre quem foi imputada a perfeita justiça de Cristo já não resta nenhuma pendência judicial perante o Deus santo.

Ademais, em termos práticos, isto implica uma profunda percepção da nova criatura que é formada em Cristo Jesus. Uma vez justificado pela fé, o pecador também é regenerado para uma nova e viva esperança. Isto significa que as coisas antigas já passaram e eis que tudo se faz novo. Sendo assim, a evidência cristalina no viver de alguém justificado e regenerado por Deus será manifesta em obras dignas desta nova posição.

Enquanto estivermos neste mundo ainda pecaremos porque somos pecadores. Mas é preciso enfatizar que a nossa nova realidade espiritual diante de Deus foi mudada. Somos quem somos por causa exclusivamente do que Cristo fez na cruz do Gólgota. Esta nova realidade nos faz enxergar com limpidez a penúria de nossa alma enquanto peregrinamos por este mundo. Por isso, a vida do pecador justificado é de contínuo arrependimento e de descanso à sombra da cruz. A essência da vida cristã reside no fato de que somos imerecedores da comunhão com Deus, e que somente através da graça temos acesso ao Pai.

Ainda que caminhemos num mundo caído, isto não nos torna reféns do pecado. Uma fez justificados, fomos libertos de suas amarras e já não podemos servir ao pecado como escravos. Em Cristo, estamos numa nova posição espiritual que nos constrange a viver de modo altaneiro e digno do Evangelho.

Amor abundante e sublime no qual Deus nos dá, sem nenhum mérito nosso, mas apenas por pura graça, a perfeita satisfação, a justiça e a santidade de Cristo!