sexta-feira, 30 de março de 2018

Medos infundados


“Pessoas esmorecidas podem encontrar motivos para ter medo onde eles não existem. Certas pessoas são habilidosas na pesarosa capacidade de inventar problemas. Se o Senhor não as mandou nenhuma provação, elas criam uma para si mesmas. Elas têm uma pequena fábrica de problemas em casa, e elas sentam e usam sua imaginação para meditar no pior. Elas tecem um saco e juntam cinzas.” (Charles Spurgeon)

É impressionante a capacidade que alguns têm de agarrar-se aos temores e receios do coração. E este não é um fato que se observa apenas nas pessoas que não professam a fé em Cristo. Há muitos cristãos que estão presos na armadilha dos temores infundados e não conseguem se desvencilhar deles, mesmo contando com a graça suficiente que há na pessoa bendita de Jesus Cristo e na obra de salvação do Calvário. Para esses, o futuro é sempre ameaçador, o passado é uma coletânea de tristezas e o presente é uma existência sem sabor.

O salmista Davi sabia que podia contar com a presença do supremo Pastor mesmo que estivesse passando pelo vale da sombra da morte. No salmo 23, ele expressa toda a Sua confiança no Pastor Supremo, que o fazia descansar sem ignorar os perigos. Assim ele testemunhava da graça e bondade do Senhor que o seguiam continuamente. O apóstolo Paulo enfrentou situações que testaram sua fé ao limite da exaustão, com temores por fora e terrores por dentro. Mas é notório que o apóstolo não se deixava dominar ou se abater diante das duras provações que ele tinha em seu ministério. Sua fé e alegria transbordam nas cartas que ele escreveu às igrejas de Filipos e Éfeso.

Certamente precisamos fazer calar dentro de nós os temores do velho homem, que insiste em não confiar plenamente em Deus como ajudador fiel. A fé que nos foi dada por meio de Cristo Jesus é o fator de sustentação de nossa estrutura espiritual. Em cada desafio que desperta os receios infundados do coração, é necessário que tenhamos uma resiliência própria dos que perseveram nas duras provas.

Podemos crer na provisão divina que nunca nos deixará sozinhos ou reféns do medo. O que o amanhã nos reserva, o Senhor já sabe; como iremos passar por uma dificuldade, o Senhor já sabe; qual será o resultado de uma luta espiritual que estamos travando, o Senhor também já sabe; nada há que fuja um segundo sequer da atenção e cuidado específicos do Senhor por nossas vidas. Então, cabe a nós uma análise acurada dos temores da nossa alma, feita à luz das Escrituras, com o auxílio do Espírito Santo que sonda e esquadrinha o mais profundo do nosso ser.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Para derrubar árvores

Certo dia, havia um lenhador que conseguiu derrubar 70 árvores. O recorde do seu grupo era de 72 árvores.

Ou seja, ele chegou muito perto de quebrar o recorde e decidiu que queria alcançar essa marca e entrar para a história.

Sendo assim, no dia seguinte ele acordou mais cedo e trabalhou duro. Mas no final só conseguiu cortar 68 árvores.

Ele não desistiu. Tentou mais um dia, acordando ainda mais cedo, esforçando-se ainda mais, mal parou para almoçar e ao final do dia só conseguiu cortar 60 árvores.

O lenhador ficou desolado e totalmente desestimulado.

Foi então que um velho companheiro de trabalho, muito experiente, chegou ao seu lado e ouvindo o desabafo do jovem, perguntou:

"Rapaz, quanto tempo você separou para afiar o machado?"


Moral da história:
Precisamos nos concentrar na preparação antes de partir para a ação. A efetividade e eficácia de nossas ações só serão reais quando a preparação for bem feita. Sem "afiar o machado" é impossível cortar mais árvores. 

Biblicamente, devemos ouvir o que diz o Senhor Jesus:
"Porquanto, qual de vós, desejando construir uma torre, primeiro não se assenta e calcula o custo do empreendimento, e avalia se tem os recursos necessários para edificá-la? Para não acontecer que, havendo providenciado os alicerces, mas não podendo concluir a obra, todas as pessoas que a contemplarem inacabada zombem dele, proclamando: ‘Este homem começou grande construção, mas não foi capaz de terminá-la!"
(Lucas 14:28-30)

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Empecilhos para a jornada da fé

Texto: Hebreus 11: 24-26

O escritor da carta aos hebreus no capítulo 11 nos relembra diversas histórias de personagens do Antigo Testamento, que exerceram sua fé de modo objetivo mesmo diante dos desafios e empecilhos que tiveram em suas vidas. Foram diversos os obstáculos na jornada de Abraão, Jacó, Josué e tantos outros.
Todos nós lidamos com empecilhos diversos que atrapalham a nossa carreira cristã. O escritor aos hebreus também nos lembra a necessidade de “desembaraçar-nos de todo peso do pecado que tenazmente nos assedia”. Se não fizermos isso, a corrida será um fracasso absoluto. Outro empecilho é a nossa agenda superlotada com nossos projetos pessoais, e em muitos casos antagônicos ao propósito de Deus.

"Com sua decisão de abandonar a corte egípcia, o patriarca Moisés suplantou alguns empecilhos para a jornada da fé."
Com sua decisão de abandonar a corte egípcia, quais EMPECILHOS para a jornada da fé o patriarca Moisés suplantou, e que nós devemos também suplantar ainda hoje?

1) O anseio humano por prestígio e poder
"recusou ser chamado filho da filha de Faraó"
Importante destacar que a sociedade egípcia estava dividida em classes sociais rígidas: o faraó, obviamente, ficava no topo; logo abaixo vinham os nobres (originários da família do Faraó); em seguida os funcionários palacianos (sacerdotes, escribas e oficiais militares); depois vinham os soldados, mercadores, artesãos, operários e camponeses; e por fim os escravos, que eram conquistados em guerras ou ficavam naquela posição por não terem como pagar os impostos.
Mas o patriarca Moisés não se deixou iludir pelo status junto à corte egípcia, em ser membro da nobreza ou ter assento junto à mesa com os poderosos do Egito. O tempo do verbo recusou, no original, indica um ato específico de escolha. O patriarca conhecia bem sua origem, seu próprio nome lhe indicava isto: “tirado do rio”. Ele sabia que a sua preservação foi obra do Deus de seus pais. Foi criado como filho pela filha de Faraó, mas quando cresceu não ficou refém do prestígio social que teria na corte do Egito. O prestígio da posição de príncipe no Egito não lhe era em nada atrativo, em razão de propósitos muito maiores que ele enxergava para a sua vida. Ele decidiu renunciar a toda glória terrestre e ao poder humano que estava ao seu dispor.
Ilustração: o anseio por poder, honra, glória e prestígio fez o jovem Absalão ambicionar o trono ocupado por seu pai, o rei Davi (2 Samuel 15). Depois de conquistar a confiança do povo, tomou a decisão de sustar o trono e estabelecer o seu reinado. Sua atitude ensandecida fez perecer 20.000 soldados numa batalha e por fim foi morto. A tragédia que se abateu sob Absalão foi grande, pois o trono não lhe pertencia, não era propósito de Deus para a vida dele.
O poder não é intrinsecamente negativo. Deus concede poder e autoridade a certos homens para que cumpram um papel específico. Por si só, o poder não é bom nem mau, mas recebe o seu significado a partir das decisões e atitudes daquele que o usa. O grande problema é quando posições de autoridade geram cobiça em nosso coração, e nos fazem perder as qualidades de servo. Como o pecado corrompeu todas as coisas, o exercício do poder também foi radicalmente afetado em todos os sentidos.
É bastante comum ver pessoas se apegando ao prestígio social que possuem, de modo a viver com a fé totalmente estagnada. O anseio por posições e status tem feito muitos naufragarem na fé e mergulharem numa profunda apatia com relação aos empreendimentos no reino de Deus.  junto aos poderosos deste mundo raramente é acompanhado de uma fé robusta e de atitudes que fazem oposição ao padrão dominante. Geralmente, o prestígio social só é mantido por conta de concessões pecaminosas, negociatas e fraudes que são antagônicas à fé cristã. Este ardente anelo de gozar de prestígio nesta sociedade corrompida pelo mal, mostra que o nosso coração não está plenamente satisfeito com a pessoa de Cristo.
As pessoas querem prestígio para serem bajuladas e desejam poder para serem mestres do próprio destino. Mas o que é elevado entre os homens é abominável aos olhos de Deus. O louvor que é dirigido aos poderosos e influentes deste mundo corrupto nada tem de excelente aos olhos de Deus. Precisamos diagnosticar se nossos maiores esforços têm sido direcionados para alcançar posições de poder, em detrimento da solidez da fé em Cristo.
O maior prestígio que o crente deve almejar é ser um autêntico servo (doulos) de Cristo) e a posição mais honrosa é estar rendido ao pé da cruz. Enquanto os discípulos vinham discutindo sobre quem seria o maior entre eles, Jesus dá um exemplo de serviço e lava os pés de cada um, inclusive daquele que em poucos momentos o trairia. Não busquemos a honra dos primeiros lugares, querendo ter a primazia em tudo. Estabeleçamos um nobre propósito pra nossas vidas: “Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo” (Fp. 2:3). Vamos descer de nossos pedestais e reconhecer que grande só há o Senhor que nos remiu e nos reclama pra Si.

2) O anseio humano por conforto e segurança
"preferindo ser maltratado junto com o povo de Deus"
"considerou o opróbrio de Cristo por maiores riquezas do que os tesouros do Egito"
A opulência do Egito era bem conhecida no mundo antigo, em especial o conforto e a segurança que tinha o faraó e os nobres do palácio. O luxo da família do faraó era sustentado pelo camponês que, todo ano, era obrigado a repassar o excedente da produção ao faraó. Era essa riqueza que financiava a vida opulenta desses reis, de sua família e dos funcionários do palácio. O conforto e as regalias do palácio de Faraó ainda hoje surpreendem os estudiosos do antigo Egito. Moisés certamente tinha desfrutado desta vida confortável e segura junto à corte egípcia. O conforto vinha da opulência que os palácios do Egito apresentavam, de acordo com as descobertas arqueológicas. A segurança material estava atrelada à parte dos tesouros de que ele se tornaria herdeiro se permanecesse como membro da corte.
Mesmo diante de todos os atrativos, Moisés decidiu aliar-se aos oprimidos israelitas e dizer adeus ao futuro de riqueza, tranquilidade, comodidades e domínio real. Sobre isso o comentarista Moffat escreve: “A coragem de abandonar o conforto com o qual está acostumado e de aceitar com ânimo a ação como vontade de Deus, é de uma índole muito estranha e elevada; só pode ser criada e sustentada por maior visão espiritual”. Moisés aspirou uma segurança muito mais valiosa do que os tesouros materiais poderiam lhe proporcionar. Ele saiu de uma zona de conforto para enfrentar as duras provas junto com o seu povo escravizado no Egito preferindo ser maltratado.
Todos nós ansiamos por uma vida confortável, sem maiores percalços. Um verso de uma canção popular brasileira afirma: “É proibido sofrer, não vale a pena a viagem, é muito cara a passagem” (Leoni). Será se não vale a pena passar por maus-tratos e dificuldades quando o foco é a obediência a Cristo?
Ilustração: Um pensamento anônimo diz que: “O conforto chega como um convidado, demora-se até se tornar um hóspede e permanece para escravizar-nos.” E o pastor Samuel Rutherford escreveu: “Não construa seu ninho em nenhuma árvore aqui, pois o Senhor da floresta condenou todas elas à destruição.” Quando estamos acostumados aos confortos deste mundo, os resultados para a fé são desastrosos. Não podemos achar que a segurança verdadeira está numa conta bancária, ou num plano de previdência que vai garantir o nosso futuro. Quem somos nós para presumir que amanhã estaremos vivos? A vida autêntica de fé implica que o conforto/segurança desta vida presente não nos prende e não nos deixa apáticos em relação ao reino de Cristo.
Em Lucas 12: 16-21, lemos sobre um homem que confiou em seus tesouros, e colocou neles sua esperança. “Então, direi à minha alma: tens em depósito muitos bens para muitos anos, descansa, come, bebe, regala-re.” Qual foi o veredito divino? Louco! Por conta de nossa natureza que anseia por conforto e segurança neste mundo, precisamos ser lembrados constantemente sobre a natureza transitória dos recursos deste mundo que nos vendem a sensação de conforto e segurança. É muito perigoso quando o nosso coração descansa e se regala nos ídolos que oferecem conforto e segurança, entre eles Mamom. O apego excessivo aos bens materiais vem acompanhado de um esfriamento espiritual e revela o que nós consideramos mais precioso. Na busca desenfreada por uma vida mais confortável esquecemos facilmente o Doador e passamos a idolatrar as benesses conseguidas. A fé neste contexto será pouco a pouco sufocada, e não haverá frutos para a glória do Senhor. A autopreservação tem sugado nosso vigor espiritual, pois que quiser preservar a sua vida , perdê-la-á, mas quer quiser perder a vida por causa de Cristo, acha-la-á. Santo e bendito paradoxo!


3) O anseio humano por satisfação e autogratificação
"a usufruir prazeres transitórios do pecado"
É inato ao homem pós-queda a busca insana por autogratificação. E geralmente está autogratificação está associada com prazeres e pecados que envolvem satisfações perniciosas. A terrível tríade apresentada por João em sua primeira carta descreve bem o que era o Egito: um ambiente inóspito, dominado pela concupiscência da carne, pela concupiscência dos olhos e pela soberba da vida. Permanecer na corte de Faraó significaria gozar dos prazeres variados da carne, isto é, a gratificação dos sentidos, mas só por algum tempo. Eram comuns os banquetes regados a muito vinho, danças e orgias sexuais no palácio do faraó. Sem falar das práticas de zoofilia registradas por historiadores como Heródoto. A prática de prostituição nos templos à deusa da fertilidade Ísis era rotineira, com muita lascívia e frouxidão moral. No entanto Moisés entendeu algo que muitos de nós não damos a devida atenção: o máximo que o pecado pode fornecer é o prazer temporário, mas os prejuízos causados na alma não têm igual caráter temporário. A ênfase do pecado aqui apresentado resume-se numa troca do que é permanente pelo que é transitório.
Ilustração: É só um prato de lentilhas. Mas foi por um prato de lentilhas (uma satisfação momentânea) que Esaú vendeu o seu direito de primogenitura em Gn. 25: 29-34. A expressão “dê-me um pouco desse ensopado vermelho aí. Estou faminto!”, indica no hebraico aqui um pedido apressado e impulsivo de alguém que vive para o momento, para o aqui e agora. Raramente paramos pra pensar que realizar ou satisfazer nossos aimorés desejos seja a pior coisa que pode nos acontecer.
No seu livro A mortificação do pecado, o puritano John Owen escreve um tratado sobre esta questão sensível. Ele escreve: “A fé e o prazer pecaminoso definitivamente não caminham juntos. A causa principal para o esfriamento espiritual são os pecados acariciados que estão escondidos no sótão do coração”. Para Owen, a mortificação do pecado não é apenas um chamado à luta, mas também um chamado ao deleite. De acordo com Owen o vigor espiritual depende muito de mortificarmos o pecado em nós. Owen realçou a contradição prática de estar unido com Cristo e negligenciar a mortificação de pecados. Em grande parte dos casos, a apatia que tomou conta de muitos crentes professos é resultado de concessões aos prazeres deste mundo, em busca de satisfações perniciosas que iludem e escravizam. Eis um grande empecilho ao empreendimento de uma jornada de fé.
Cada vez mais este mundo caminha para maior desordem moral. Vivemos dias em que a libertinagem está sendo naturalizada, e os valores minimamente nobres e morais têm sido considerados fora de moda. Como diz o velho hino: “ruge forte, contundente, a guerra do pecado”. A sociedade hedonista (amante dos prazeres) em que estamos inseridos despreza o bom senso da moral judaico-cristã. Temos observado que a apelação sexual nos programas de televisão e em músicas tem atingido níveis animalescos, o que favorece todo tipo de promiscuidade e imoralidade. O pecado é vendido em seriados da Netflix com a maior naturalidade, e o espanto ou reprovação que causaria há poucos anos atrás já não faz sentido. Hoje em dia, palavras chulas que denotam alguma insinuação imoral já não causam maiores constrangimentos.
Um dos grandes equívocos é elevar os desejos de satisfação carnal à categoria de necessidades. Aqueles que se equivocam nisso caem grande cilada e ruína espiritual, sucumbindo a todo o catálogo de idolatrias que, somente temporariamente, enchem o vazio antes preenchido pela alegria no Senhor. É imprescindível fecharmos as brechas e não abrirmos concessões. Quais as brechas que você percebe em sua vida que o levam a distanciar-se do deleite em Deus? Quais as concessões que você tem feito em benefício de um prazer temporário? Neste mundo pervertido precisamos vencer a barreira da imoralidade, dar um basta naquilo que resulta em prazeres pecaminosos e fugir de toda aparência do mal. Continuemos firmes na luta contra aquilo que desonra a Deus no que diz respeito à santidade do corpo, pois a Bíblia nos diz que ele é um santuário que deve ser dedicado ao Espírito Santo.
Quem está escravizado pelos deleites deste mundo não tem vigor espiritual. Quem está rendido aos prazeres da lascívia não tem como ser um canal de bênçãos para a vida da igreja. Portanto, é impossível prosseguir adiante na jornada da fé estando acorrentado às propostas de prazer e satisfação que o sistema corrompido deste mundo oferece. Um vaso impuro só será útil ao Possuidor se houver a purificação necessária, mediante arrependimento e confissão. Onde quer que exista fé genuína e bíblica, existe arrependimento; onde quer que exista arrependimento, existe fé. Pelo poder que há em Cristo e na Sua graça, não permita, meu caro irmão, que a sua jornada de fé seja malograda pelas propostas indecentes desta era, que tentam todos os dias roubar o seu coração. Tenha um plano de contingência para não se deixar enganar pelas paixões e tentações carnais, que fazem guerra contra a sua alma.


sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Relevância para a vitalidade da igreja

Texto: Tito 3: 8-11


Não é de hoje que o povo de Deus tem sido enfraquecido por conta de desperdício de energia em atividades irrelevantes. Tais atividades demandam tempo, esforço, recurso e estratégias, que no final nada resultam de efetivo. Jesus sabia reconhecer o que era relevante no seu ministério e em que deveria concentrar seus esforços nos três anos do seu ministério. Quando confrontado pelos fariseus, Jesus tinha uma resposta adequada e relevante para cada ocasião. Enquanto os discípulos dormiam, Jesus reconhecia a relevância da oração. No momento em que foi traído com o beijo por Judas, Jesus não viu como relevante a reação de Pedro. Ao se encontrar com a mulher samaritana Jesus não se concentrou em assuntos superficiais, mas viu a carência da alma daquela mulher e a confrontou com o que era relevante. A mulher falava da água do poço, Jesus falava da água que jorra para a vida eterna, que mata a sede espiritual. A mulher falava de uma adoração superficial, Jesus falava sobre uma adoração superior, feita em espírito e em verdade. E em virtude do testemunho desta mulher, muitos samaritanos daquela cidade creram em Jesus. É impressionante como Jesus se concentrava no que era relevante, sem perder as oportunidades!

Muitas vezes, por força do hábito, somos levados a agir nos concentrando em assuntos periféricos e deixamos de lado o que é relevante e indispensável. Não raro insistimos em trilhar atalhos no cristianismo e esquecemos a corrida que nos foi proposta. Perdemos tempo em projetos que não estão na agenda do Senhor, e assim a vida segue e continuamos correndo atrás do vento. A relevância do que fazemos deve ser medida pela relevância que à Bíblia atribui a estas coisas. Não somos nós que definimos o que é ou não relevante para nossas vidas ou para a igreja. A igreja é do Senhor e nossas vidas pertencem ao Senhor e, portanto, quem define o que é relevante é Ele e mais ninguém. Certamente é um anelo honroso querer e realizar o que o Senhor considera relevante. A nossa prioridade como servos (doulos) de Cristo deve ser fazer o que lhe é agradável, e isto passa necessariamente por aquilo que o Mestre considera relevante, para não haja desperdício de tempo e energia em futilidades. Deus abomina o desperdício de energia em assuntos e atividades periféricas, que em nada podem acrescentar ao avanço do reino de Cristo.

E por falar em relevância, as instruções que Paulo dirige ao pastor Tito no final desta carta são extremamente relevantes. Paulo não queria que Tito desperdiçasse esforços em vão e sem propósitos, pois o alvo deveria ser trazer crescimento à igreja do Senhor que se reunia na ilha de Creta. Assim, Paulo delimita neste texto alguns aspectos de grande relevância para o sucesso e progresso do ministério de Tito. Após abordar a bondade de Deus, a renovação efetuada pelo Espírito Santo, a beleza da justificação exclusivamente pela graça de Cristo, no versículo 8 Paulo deixa claro que Tito deveria ser ousado e insistente nesta tarefa de lembrar o que era relevante para a igreja. “Faças afirmação, confiadamente”, ou seja, Tito não deveria ser tímido ou se sentir reprimido em abordar tais assuntos, visto que o objetivo era fortalecimento da fé dos crentes na ilha de Creta.

“A vitalidade da igreja está atrelada à delimitação precisa do que é de fato relevante”

Mas em que ASPECTOS a vitalidade da igreja está atrelada à delimitação precisa do que é de fato relevante?

1) No que diz respeito às evidências da fé salvífica (vs. 8)
A ideia básica neste versículo é a conformidade entre o que pensamos a respeito do Evangelho e as evidências deste modo de pensar. A palavra que foi traduzida como solícito expressa a necessidade de diligência e cuidado na prática da vida cristã. Paulo já tinha abordado sobre a benignidade de Deus e sua mui grande misericórdia, que nos salvou mediante o lavar regenerador do Espírito Santo. Isto nos tornou herdeiros de uma nova e viva esperança. Portanto, seguindo este argumento de Paulo, o fato de alguém crer em Deus só pode ser autenticado por meio de obras condizentes, que espelham na prática a fé uma vez professada. Os que têm crido em Deus devem mostrar sem titubear as evidências desta fé.

Ilustração: Uma propaganda em outdoors de uma empresa de produtos agropecuários afirmava o seguinte: “melhor enraizamento, maior produtividade”. O produto químico promete fortalecer as raízes da planta, e assim haverá mais frutos. Uma raiz enfraquecida não possui vitalidade suficiente para nutrir a planta, por isso é importante cuidar da raiz. Temos boas raízes, porque confiamos na graça salvadora de Deus. Temos bom ensino bíblico que fortalecem a nossa fé em Cristo. Onde estão os frutos? Primeiro a raiz (fé), depois o fruto (as obras). As obras são consequência natural de uma fé saudável e robusta. Na carta aos hebreus lemos que “sem fé é impossível agradar a Deus”, o contexto fala da fé para o dia a dia, que se concretiza em ações para a glória de Deus, como visto na vida de Abraão, Moisés e tantos outros.
As obras de salvação devem acompanhar necessariamente uma profissão de fé em Cristo. Não podemos alegar que a graça nos alcançou se permanecemos em atitudes que contradizem o evangelho de Cristo. Fomos salvos para as boas obras, aquele procedimento exemplar que dá autenticidade a nossa confissão. É triste ver uma igreja que se transformou-se num clube social, cujos membros já não têm mais zelo pela prática cristã. A vitalidade de um corpo de crentes é ao mesmo tempo causa e consequência de práticas condizentes com o discipulado requerido por Cristo. Obviamente, estas obras nada têm a ver com mero ativismo. A vida do crente deve ser uma manifestação do poder transformador da graça de Deus. Em que a maravilhosa graça de Deus tem transformado você?
“A diferença entre o fruto espiritual e o ativismo carnal e humano é que o fruto glorifica a Jesus Cristo. Sempre que alguém faz algo pelas próprias forças, há a tendência de vangloriar-se. O verdadeiro fruto espiritual é tão belo e maravilhoso que ninguém é capaz de assumir o crédito; a glória deve ser dada somente a Deus.” (Warren Wiersbe)
Neste ano que se inicia cada membro da igreja deve fazer uma autocrítica e analisar se sua vida tem correspondido ao lavar regenerador operado pelo Espírito Santo na salvação. Onde estão os frutos em nós, ramos da videira, já que professamos publicamente nossa união com Cristo? Podemos até ser bons alunos de teologia, regularmente matrícula na Escola Dominical, mas se a teologia que temos aprendido não tem transformado nossas vidas, estamos acumulando maior juízo sobre nós. Grande parte do esforço de muitos crentes tem sido direcionado para aprofundar o conhecimento sobre doutrinas e estudos teológicos, mas onde estão os efeitos práticos disto? Não podemos nos contentar em encher nossas mentes com o bom ensino bíblico, e parar por aí. A relevância do cristianismo está na evidência de frutos condizentes com o ensino recebido. “Tornai-vos, pois, praticantes da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos.” Tiago 1:22
Devemos conhecer os princípios bíblicos sobre os perigos e os malefícios da ira ou sobre a maldade da fofoca, mas não terá relevância nenhuma se não formos diligentes com relação ao domínio próprio, quando algo não sai de acordo com o nosso modo de pensar. Devemos conhecer os princípios relacionados com a cordialidade, mas qual será a relevância se continuamos agindo com aspereza e rispidez? A fé sem obras está morta.

2) No que diz respeito ao propósito da apologética  (vs. 9)
O apóstolo Paulo continua sua instrução a Tito agora utilizando o modo imperativo. A palavra que foi traduzida como evitar no original possui um significado bem abrangente, significando manter distância / afastar-se com determinação/ repelir. A influência de muitos hereges na ilha de Creta tinha se disseminado assumindo proporções alarmantes conforme Tito 1:10,11. Os judaizantes insistiam em não aceitar a transição do judaísmo para o cristianismo. Queriam acrescentar à fé cristã alguns elementos do judaísmo, inclusive a circuncisão. Acrescente-se a isso que era crescente naquele mundo grego o intelectualismo especulativo, fomentado pelas diversas correntes filosóficas em voga na época. Havia alguns infiltrados no meio da igreja que especulavam sobre a lei com base em argumentos vazios, que não traziam nenhum benefício para a igreja, pelo contrário, minavam-lhe a força e solidez. Estes debates infrutíferos causavam mais confusão do que edificação. Ser um apologeta bíblico é ser alguém que evita debates inúteis e que se concentra no que é essencial. O propósito da apologética ou do estudo bíblico-sistemático não é fomentar a curiosidade humana, mas acima de tudo ser um canal para transformação de vidas e proclamação da verdade revelada nas Escrituras, sem nenhum reducionismo ou diluição. Os ensinamentos sobre a justificação e a salvação pela graça de Deus, e sobre a ação do Espírito Santo (2.11,14 e 3.4-7) fundamentam a exortação do apóstolo para que Tito se mostre firme no governo e na edificação espiritual da igreja. A implicação imediata é que Tito devia dar um basta em assuntos que nada acrescentavam ao fortalecimento da igreja. Ele tinha que repelir com veemência qualquer ensino que trouxesse discussões vazias e não cooperasse para o progresso espiritual da igreja

Ilustração: 2 Timóteo 3:16-17
"Evita, igualmente, os falatórios inúteis e profanos, pois os que deles usam passarão a impiedade ainda maior. Além disso, a linguagem deles corrói como câncer; entre os quais se incluem Himeneu e Fileto." Cada indivíduo é um farol, ou levando outras pessoas a naufragarem nas rochas, ou ajudando-as a entrarem em segurança no porto. Himeneu e Fileto eram homens que levavam outros a naufragarem nas rochas, através de suas ideias e pensamentos equivocados.
Observe que Paulo não proíbe todo tipo de discussão. Precisamos batalhar pela fé e reprovar toda distorção da verdade. A apologética é uma necessidade urgente e real, para o correto combate de heresias e a defesa da sã doutrina. Paulo, porém, condena a discussão fútil, sem proveito, sem implicações práticas na vida espiritual. Não podemos perder o foco, desviando-nos da obra para gastarmos nossa energia com falatórios inúteis. Precisamos nos concentrar no que é essencial para nutrir a nossa fé nestes dias tão tenebrosos.
A igreja deve investir em ensino apologético e de doutrinas, mas sem esquecer que o ensino é o meio e não o fim. O ensino robusto da Palavra de Deus robustece a nossa fé e fortalece nossos músculos espirituais. Mas o ensino visando vencer debates com opositores frívolos da Bíblia, que defendem seus pontos de vista com base em achismos, é totalmente infrutífero. Mais do que nunca a igreja deve aprender a não jogar pérolas aos porcos, evitando que o tempo seja desperdiçado em contendas vazias que minam a estabilidade do povo eleito.
Um princípio basilar da fé cristã é que “todo argumento deve ser levado cativo à autoridade das Escrituras.” Se os nossos argumentos têm muito do homem e pouco ou nada de bíblico, precisam ser silenciados imediatamente. Não podemos deixar que falácias se propaguem no meio do povo de Deus, tirando a vitalidade que a igreja deve ter para ser luz e sal neste mundo em trevas. É importante que a igreja esteja engajada na luta contra os falsos ensinos que permeiam este mundo. Há muitas “fake news gospel” que se revestem com verniz cristão, mas em nada acrescentam à solidez e maturidade da igreja.

3) No que diz respeito à repreensão e disciplina (vs. 10,11)
O que Paulo via em Creta com preocupação era a tendência de pessoas com ideias estranhas ao evangelho formarem grupos dissidentes, dividindo, assim, o corpo de Cristo. A palavra grega hairetikos, traduzida por “faccioso”, é muito sugestiva. O verbo grego hairein significa “eleger”; e a palavra grega hairesis significa “partido, escola ou seita”. Originalmente a palavra não tinha nenhum significado negativo. Uma hairesis era apenas um partido ao qual uma pessoa desejava pertencer. O significado negativo aparece quando uma pessoa impõe sua opinião privada contra todo ensino e tradição da igreja. A pessoa facciosa é aquela que transforma as próprias ideias na prova e na medida de toda a verdade, e que resulta em partidos e divisionismo na igreja. O adjetivo faccioso está sendo neste contexto no sentido estrito de causar rupturas. Pessoas com ideias próprias não submetidas à autoridade das Escrituras são um estorvo para a igreja do Senhor. Paulo mostra que alguém que faz desta prática um estilo de vida está pervertida, isto é, corrompida ou distorcida, e sua conduta ímpia certamente trará juízo. Por isso a necessidade de admoestação consistente como ponto de partida para a disciplina da igreja. Sem confrontação bíblica e tratamento adequado, o fermento levedará a massa toda.

Ilustração: A necrose é sempre um processo patológico e desordenado de morte celular causado por fatores que levam à lesão celular irreversível e consequente inutilidade do tecido afetado.  A necrose pode ser diferenciada em vários tipos, e cada um está associado a determinado tipo de agente lesivo e determinadas características. Em alguns casos a necrose começa a afetar órgãos ou membros do corpo, irradiando-se através de uma infecção. Para evitar isso, recomenda-se a amputação da parte necrosada, pois mais vale uma parte do corpo sendo retirada do que todo o corpo ser prejudicado pela necrose. De maneira semelhante, o que se quer prevenir na disciplina bíblica é que o rebelde não-arrependido traga maiores prejuízos à saúde de toda a igreja. Quanto maior a tolerância à rebeldia dentro da igreja maior será a influência negativa causada, e certamente outros membros serão contaminados. Ao invés de vitalidade, haverá declínio e degeneração.
Muitas vezes temos a tendência de pensar que a confrontação e a disciplina bíblica devem ser aplicadas apenas em casos considerados de maior porte, que causam escândalos no meio da igreja, quando a rebeldia está relacionada por exemplo a alguma imoralidade sexual. Mas nos esquecemos que a vitalidade da igreja está relacionada com o tratamento adequado de problemas relacionados a partidarismos geralmente resultantes de caprichos pessoais. A imposição de gostos pessoais gera discórdias, enquanto a autoridade das Escrituras é colocada de lado em prol de picuinhas sem sentido. Uma igreja dividida contra si mesma nunca será forte. Este assunto é de grande relevância para a saúde espiritual e progresso da igreja.  
Quantas igrejas estão morrendo à míngua por causa de facções internas, criadas com o objetivo de minar a autoridade da liderança e do pastor? Será se de algum modo nos enquadramos no perfil de “faccioso”, enfermando a igreja do Senhor com base em nossos caprichos pessoais que em nenhum momento objetivam a glória de Deus? É muito fácil sermos enganados pelo nosso próprio coração, e em nome de um “zelo pela igreja”, sermos instrumentos de discórdia e desgaste interno. Geralmente pessoas com opiniões fortes estabelecem seus posicionamentos sem o embasamento bíblico necessário e outros acabam abraçando a ideia. E quando são confrontados não admitem que estão errados e permanecem num caminho de rebelião. A igreja não pode ficar se desgastando ao longo do tempo com este tipo de rebeldes. É necessário dar um basta através da disciplina bíblica corretamente aplicada em cada caso, após a confrontação por meio das Escrituras.
É importante que a disciplina bíblica não seja um assunto visto com espanto pela igreja do Senhor. Em nome de um amor banal e fútil, em nome de tolerância carnal, muitos assuntos são jogados para debaixo do tapete e não são tratados como deveriam. A disciplina corretamente administrada faz a igreja crescer em santidade e preserva sua vitalidade. Hebreus 12.10-12 ensina que Deus “nos disciplina para aproveitamento, a fim de sermos participantes da sua santidade. Toda disciplina, com efeito, no momento não parece ser motivo de alegria, mas de tristeza; ao depois, entretanto, produz fruto pacífico aos que têm sido por ela exercitados, fruto de justiça.”


quinta-feira, 9 de novembro de 2017

A água do poço de Belém


Uma das histórias mais interessantes que lemos sobre a vida de Davi ocorreu durante um combate com os filisteus. Os filisteus haviam ocupado Belém, a cidade natal de Davi. Davi e seus homens estavam acampados do lado de fora da cidade. Enquanto pensava em Belém, ficou cheio de nostalgia e disse em voz alta: “Quem me dera beber água do poço que está junto à porta de Belém!” (2 Samuel 23:15). Não era uma ordem nem um pedido; Davi simplesmente desejou poder beber novamente do velho poço, como fazia antes nos velhos tempos de simplicidade. Todavia, Davi era tão amado pelos que o cercavam, que um desejo dele era para eles uma ordem. “Três valentes de Davi” abriram caminho lutando com os filisteus, tiraram água do poço, voltaram lutando novamente com os filisteus e, por fim, entregaram a água ao comandante deles.

Posso imaginar esses homens corajosos se prostrando perante Davi, oferecendo-lhe um copo cheio de água fresca. As roupas deles deviam estar rasgadas e ensanguentadas; os corpos, cheios de ferimentos — tudo aquilo para trazer um copo da água daquele poço ao seu amado líder. Davi transbordou de emoção. Ele pegou o copo, mas recusou-se a beber aquela água que poderia ter custado as vidas de seus homens. Lentamente, despejou a água no chão em oferta ao Senhor. E enquanto a terra sedenta absorvia a água, ele disse: “Longe de mim, ó Senhor, fazer tal coisa; beberia eu o sangue dos homens que lá foram com perigo de sua vida?” (v. 17).

Este acontecimento ilustra bem a importância de valorarmos adequadamente tudo em nossa volta. Nossos desejos não podem ser elevados a uma posição de primazia, ainda mais quando o custo para satisfazê-los envolve sacrifícios por demais valiosos. A vida daqueles homens valentes tinha muito mais valor para Davi do que a satisfação de seu desejo por água fresca do poço. Certamente Davi reconheceu a coragem e ousadia daqueles valentes, mas não estava interessado em satisfazer qualquer desejo que oferecesse algum risco à integridade dos seus homens. Neste episódio, Davi dá evidências que tinha posto seus anseios no lugar correto.

Será que temos avaliado corretamente o custo envolvido para alcançarmos certos objetivos na vida? O cristão maduro precisa deixar de lado a impulsividade para ceder aos seus desejos em razão da fé que precisa ser nutrida e também do valor infinitamente maior do que está em jogo. Várias famílias estão sendo literalmente destruídas por conta de desejos menores que foram elevados à categoria de prioridade absoluta. Muitos relacionamentos conjugais já não possuem nenhuma estabilidade por causa da busca desenfreada por alvos fúteis, em detrimento da solidez do casamento. Portanto, é extremamente importante que tenhamos senso crítico para não sermos iludidos na busca pela satisfação de desejos, que colocam ainda mais em risco a estabilidade e a saúde da nossa alma. Sobriedade na vida cristã não é opcional.


Em busca do sucesso


O sucesso geralmente traz notoriedade e popularidade, as quais, por sua vez, provocam distração; esta, por sua vez, traz o fracasso. Os exemplos desse efeito dominó são múltiplos: o astro de TV e cinema que não consegue lidar com a pressão do sucesso e destrói a carreira, voltando-se para o álcool e as drogas; o time esportivo que vence o campeonato nacional, depois, no ano seguinte, atravessa uma temporada terrível por causa de distrações; o gerente de empresa que se corrompe pelo poder que lhe é dado, e em pouco tempo é demitido por estar envolvido em falcatruas.

Na história de Davi, logo após ter assumido o trono e vencido algumas guerras, percebemos que ele se distraiu, desviando-se do seu propósito — e foi grande o desastre resultante. Até certa altura, Davi estava cem por cento concentrado nos desafios que Deus lhe deu: representá-Lo no trono, estabelecer o império e proteger a nação por meio da qual o Messias viria. Por ter-se mantido concentrado, Davi cumpriu esses desafios esplendidamente. Na história de Davi e em muitos outros relatos bíblicos, observamos que um ingrediente essencial para o sucesso espiritual é a concentração em alvos corretos. Por outro lado, o fracasso torna-se iminente quando reina a distração e a indolência.

Muito tem se falado a respeito do estabelecimento de alvos. Estabelecer alvos é algo que vale a pena desde que os alvos valham a pena. Todavia, uma vez estabelecidos os alvos, é fácil nos distrairmos, esquecendo em que consiste a vida. Temos de nos esforçar para não esquecer o que é realmente importante. Recordemos a famosa afirmação de Paulo: “…uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão, prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus” (Filipenses 3:13, 14). Observemos a expressão “uma coisa faço”. Ele não disse “uma dúzia de coisas faço”, nem “mil coisas eu me meto a fazer”, mas “uma coisa faço”. Paulo era um indivíduo concentrado — concentrado em Cristo. A razão do progresso espiritual de Paulo e do seu ministério frutífero foi a concentração no que era essencial, sem deixar-se distrair por futilidades.

Onde você quer chegar sem a concentração na pessoa de Cristo e nos alvos que Ele estabelece por meio das Escrituras? Não podemos esperar sucesso e progresso em nosso viver se estivermos governados por distrações variadas. O alvo do escritor da carta aos Hebreus permanece atual e relevante: “Olhando firmemente para o Autor e Consumador da nossa fé, Jesus.” Portanto, vamos nos empenhar na corrida com concentração total. A linha de chegada está logo adiante.


sexta-feira, 27 de outubro de 2017

MECANISMOS DE DEFESA

TEXTO: Josué 24: 14-15
Tema: MECANISMOS DE DEFESA


Int. 1 – Estamos diariamente expostos a milhares de perigosos microrganismos, como vírus, bactérias e parasitas. Felizmente, o corpo humano possui um mecanismo protetor contra esses invasores: o sistema imunológico (glóbulos brancos, linfócitos). O corpo precisa criar mecanismos de defesa contra as bactérias e vírus que se propagam com facilidade. Por isso, é importante que a criança seja vacinada contra diversas doenças desde os seus primeiros dias de vida. Dessa maneira, o organismo não desenvolve a doença, mas se torna imune a ela.
Int. 2. – Neste mundo, sabemos que estamos expostos aos agentes perniciosos do engano e da malícia, e por isso se faz necessário um plano de contingência para termos um mecanismo de defesa apropriado. Depois de fazer uma retrospectiva da história do povo de Israel, mostrando o quanto Deus foi gracioso e protetor, Josué traz o povo para um momento crucial. Sabedor das péssimas influências que estariam por perto, Josué apresenta ao povo os mecanismos de defesa indispensáveis para a preservação do povo, a começar pelas famílias de Israel.
“Agora, pois, temei ao Senhor e servi-o com integridade e com fidelidade; deitai fora os deuses aos quais serviram vossos pais dalém do Eufrates e no Egito e servi ao Senhor. Porém, se vos parece mal servir ao Senhor, escolhei, hoje, a quem sirvais: se aos deuses a quem serviram vossos pais que estavam dalém do Eufrates ou aos deuses dos amorreus em cuja terra habitais. Eu e a minha casa serviremos ao Senhor.”  (Josué 24: 14-15)

OS PRINCÍPIOS CONTIDOS NESTE TEXTO SÃO IMPORTANTES MECANISMOS DE DEFESA PARA A PRESERVAÇÃO DAS FAMÍLIAS CRISTÃS

1. A ADOÇÃO DE FIRME RESOLUÇÃO NA CONTRAMÃO DO MUNDO
“Escolhei, hoje, a quem sirvais”.  “Eu a minha casa serviremos ao Senhor.” Com estas palavras Josué estabelece uma resolução da qual ele não abrirá mão em favor de nenhuma conveniência. Sua firme decisão está respaldada na sua própria história, pela vida que teve com Deus, nas diversas vezes em que viu a poderosa mão do Senhor em favor do Seu povo. Josué não toma esta decisão baseado em conjecturas, ele sabe as implicações de servir somente ao Senhor e os privilégios deste serviço. A declaração de Josué é um modelo de como alguém pode dar testemunho da sua fé mesmo quando isso significa posicionar-se contra a maioria. O compromisso assumido por Josué é estendido a nós como desafio, de nos posicionarmos na direção contrária a que este mundo tem adotado.
Famílias fortes não se estruturam nos alicerces da indecisão. Famílias fortes firmam seus alicerces na firmeza de decisões à luz da Palavra de Deus.
Quem está ao lado do bom Salvador, /Pronto a dedicar-se, agora, ao seu Senhor? /Tudo abandonando pra Jesus seguir, / Encarando tudo quanto possa vir?
REFRÃO: Quem de Cristo ao lado sempre quer andar / Pela tua graça, pelo teu amor, / Eis-nos a teu lado, somos teus, Senhor.  (Hino CC452 Decisão)
Deus requer do seu povo decisão resoluta. Não podemos ficar em cima do muro, porque não existe neutralidade na batalha moral que tem se instaurado contra a família. Impossível servirmos a Deus de modo efetivo quando existe indecisão em nossos corações, quando ainda prevalece a nossa opinião. É importante que as famílias sejam resolutas, a começar pelo cabeça, o homem, que vai prestar contas da liderança que exerceu. Se nossas famílias estão à deriva, primeiro é responsabilidade dos homens. Os homens devem segurar firme o timão do navio, estabelecendo o rumo correto para chegar ao porto seguro. Neste caminho, os ventos e as tempestades serão constantes, mas a família precisa rumar resolutamente na direção estabelecida pela Bíblia, sem arredar o pé da decisão firmada perante o Senhor.
As implicações de um compromisso firmado perante o Senhor não podem ser ignoradas. Lutas e dissabores certamente acompanham esta resolução de ficar do lado do Senhor. Hostilidade e aversão serão companheiras constantes. Mas não há privilégio maior do que tomar posição em nome do Senhor. Quem é do Senhor dê um passo a frente.

2. A REJEIÇÃO DE QUALQUER FALSA ESPERANÇA EM VOGA
“Deitai fora os deuses aos quais serviram vossos pais dalém do Eufrates e no Egito.” / “ou aos deuses dos amorreus em cuja terra habitais.”
Não demorou muito e os israelitas fizeram exatamente aquilo que Deus sempre lhes dissera para não fazer. Da simples tolerância aos cananeus e amorreus, eles passaram a imitá-los. Os israelitas começaram a se casar com os cananeus e a adorar seus deuses. A nação que deveria ser santa e ficar longe das práticas pecaminosas dos cananeus, abraçou os mesmos pecados que trouxeram a ira de Deus sobre eles.
Atualmente nossos ídolos não são de pedra ou de madeira. Eles se revestem de outra roupagem. Nossos ídolos moram em nossas mentes e são alimentados por nossos desejos desordenados. Estes ídolos nos oferecem uma vã esperança, e nos trazem alívio temporário e fugaz em meio às dores neste mundo. A crise de valores que assola as famílias é resultado direto do apego às falsas esperanças trazidas pelos ídolos modernos. A relativização de princípios bíblicos em favor de conceitos humanistas tem solapado as bases da família cristã. Mesmo que não sejam reconhecidos como tais, há falsos deuses no seio das famílias sendo adorados continuamente e recebendo oferendas. Uma das ilusões mais efetivas de Satanás é a ideia de que a felicidade está nas coisas que nós possuímos. Através desta falácia, ele tem edificado um bezerro de ouro, um ídolo chamado materialismo. Em favor do materialismo, muitas famílias estão em frangalhos.
As famílias devem dar um basta a todo resquício de falsa esperança que trazem nas suas bagagens. Os pais não devem propagar para as próximas gerações crendices ou falsas ilusões que carregam por tradição ou por achismo. Mesmo que toda a sociedade volte os olhos para as psicologias da moda, ou para as terapias em voga, a família só será preservada se firmar sua esperança na infalível vontade de Deus revelada nas Escrituras. São muitas as falsas esperanças em voga nos nossos dias, mas nenhuma delas oferece paz real aos corações angustiados. As falácias continuam fazendo seus adeptos, mas falácias não deixam de ser falácias só porque estão na moda. Para que as famílias cresçam e se fortaleçam no Senhor, é imprescindível a rejeição das falsas esperanças que nos assediam diariamente.

3. A DEMONSTRAÇÃO INEQUÍVOCA DE DEDICAÇÃO INTEGRAL AO SENHOR
”Temei ao Senhor e servi-o com integridade e fidelidade” Josué não apenas faz o desafio para o povo assumir o compromisso de servir ao Senhor, mas também qualifica de que forma deve ser este serviço: com temor, integridade e fidelidade. Esta qualificação nos mostra que o serviço feito de qualquer jeito não é aceito pelo Senhor. Faz-se necessário que este serviço seja acompanhado de dedicação exclusiva, sem interrupções ou empecilhos de qualquer natureza. Josué mostrou ao povo que o serviço a Deus requer senso de integridade, que pode ser colocada à prova a qualquer instante. Até porque é impossível ser cristão pela metade. Ou somos remidos ou não somos, não há meio termo.
Se observamos as histórias narradas logo após a morte de Josué no livro de Juízes veremos claramente que o povo de Israel seguiu outros caminhos, mas não o da dedicação integral ao Senhor. Logo se misturaram com os povos cananeus e adotaram suas práticas repulsivas. Se fôssemos excluir do vocabulário do povo de Israel duas palavras na sua relação com Deus, seriam integridade e fidelidade. É impressionante a decadência desta nação por conta de sua rebeldia em não seguir ao Senhor de modo constante e completo.
Este serviço inteiro, por completo, começa por nossa família. “É difícil ver como o cristianismo pode ter um efeito positivo na sociedade, se não pode transformar a sua própria casa”. (John MacArthur). O cristianismo faz diferença nos corações, se espalha para o raio de ação mais próximo e alcança outras pessoas.
INTEGRIDADE= completo, total, inteiro, integral. FIDELIDADE= estabilidade, constância. A vida em família não pode ser dedicada ao Senhor em compartimentos. Famílias que servem ao Senhor apenas aos domingos são uma afronta às Escrituras. E nos outros seis dias? Qual a relevância que Deus tem para a vida em família nos demais dias da semana?
Vivemos uma verdadeira crise de integridade moral no seio familiar. A fidelidade a Deus é colocada em último plano quando não nos é conveniente. Por isso os filhos crescem sem desenvolver um santo temor por Deus e Sua Palavra. Ao negociarmos princípios cristãos no balcão das facilidades deste mundo, passamos para nossa família a ideia de que ser cristão não envolve compromisso integral. E assim as estruturas familiares vão se deteriorando. Os pais precisam ser exemplos de integridade moral/espiritual e fidelidade ao Senhor para seus filhos. Se não formos autênticos nesta relação com Deus, certamente não teremos condições de ensinar adequadamente o caminho que nossos filhos devem trilhar. Minha maior preocupação com Ester, e creio que deve ser a preocupação legítima de cada pai, não é o legado material ou a herança patrimonial que vou deixar para ela, mas sim o legado espiritual de temor ao Senhor que marcará para sempre a sua vida.



Um péssimo exemplo

TEXTO: EZEQUIEL 34: 1-10
TEMA: Um péssimo exemplo

O bom exemplo, quando aferido ao padrão bíblico, sempre é digno de ser copiado. No entanto, o péssimo exemplo deve ser de pronto repelido. A história de Israel está cheia de exemplos na maioria negativos. “Ora, estas coisas se tornaram exemplos para nós, a fim de que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram” (1 Cor. 10.6). Exemplos de perseverança na fé devem ser imitados (Daniel e os seus amigos na Babilônia); exemplos de retrocesso na fé devem ser repelidos (o juiz Sansão, Elias fugindo de Acabe).
O texto em destaque não trata de pastores conforme o conceito neotestamentário (aquele que cuida do rebanho do Senhor nas igrejas locais). O texto engloba a liderança de Israel como um todo, incluindo reis, sacerdotes e falsos profetas, que receberam a desaprovação do Senhor, por intermédio do profeta Ezequiel.  Reis e oficiais do governo eram chamados de “pastores”.  Os profetas (maiores e menores) utilizavam-se desta ilustração pastor-ovelha para estabelecer a relação líder-povo. No período pré-exílico os líderes do povo de Israel cometeram inúmeras torpezas, o que despertou a ira do Senhor, usando a Babilônia como vara de disciplina. Em face deste contexto e partindo do pressuposto que o negativo precede o positivo, gostaria de afirmar a seguinte proposição:
“Os líderes de Israel nos dão o exemplo de como um pastor pode malograr a condução do seu rebanho. ”
Malograr = provocar danos ou estragos, levar ao fracasso, não ser bem-sucedido
De quais maneiras os líderes de Israel nos dão o exemplo de como um pastor pode malograr a condução do seu rebanho?


1)   PREFERINDO A AUTOPRESERVAÇÃO
Os líderes “apascentavam a si mesmos ou cuidavam de si mesmos”: eis o motivo pelo qual Ezequiel emite o sonoro “ai”. O ai divino é um claro sinal de desaprovação e juízo. A palavra traduzida como apascentar refere-se a atenção e cuidado consigo mesmo, e denota um esforço concentrado em preservação, não se expondo a perigos ou intempéries de qualquer natureza. A advertência contra estes líderes vem seguida de uma pergunta retórica, porque espera-se que os pastores preservem o rebanho que lhes foi confiado. E que não preservem a si mesmos, evitando os desgastes próprios do labor com as ovelhas. A autopreservação é uma característica de líderes que se importam muito mais com a sua imagem do que com o bem dos liderados.
Para ilustrar, pensemos no rei Davi, que para preservar a sua imagem pessoal, resolveu colocar para debaixo do tapete o adultério que tinha cometido e o assassinato que encomendou. Aparentemente estava tudo bem, mas só aparentemente. Tudo ruiu quando Davi foi confrontado pelo profeta Natã. O Salmo 51 é uma oração de um homem que desistiu de se auto preservar.
Mas, definitivamente, o ministério pastoral segundo os princípios bíblicos não é espaço para envernizar a autoimagem. Quando o pastor cultiva uma preocupação com a sua imagem, em detrimento de prioridades bíblicas, já dá sinais de que seu interesse é agradar pessoas e não a Deus primordialmente. O desejo de agradar a todos, em prejuízo das Escrituras, tem feito sucumbir o ministério de muitos pastores.
O pastor não foi chamado para viver numa redoma, pelo contrário, sua missão está diretamente relacionada com o auto sacrifício. A tarefa do pastor é árdua porque demanda a necessidade de andar uma milha a mais e de oferecer a outra face. Quantos “sapos” o pastor não tem que engolir porque seu posicionamento bíblico fere o orgulho das ovelhas? Um pastor “bacana”, que prefere seguir o “politicamente correto” para aparecer bem na fita, nunca terá a aprovação do Pastor Supremo.
O pastor foi chamado para confrontar o que precisa ser confrontado, tendo a Bíblia como único parâmetro de aplicação. Além disso, a busca por popularidade e o cultivo da vaidade no ministério são feitos em prejuízo da sã doutrina. O pastor precisa ter muita cautela neste quesito, sob pena de malograr a condução do rebanho.


2)   FOMENTANDO O FAVORECIMENTO PESSOAL
A denúncia feita pelo profeta Ezequiel agora se concentra nos ganhos que os líderes de Israel obtinham à custa do povo. As metáforas utilizadas servem para ilustrar que a exploração era evidente, e que o povo padecia sob a mão de uma liderança sem o menor escrúpulo. Através de tributos exorbitantes, os líderes sugavam o quanto podiam do povo, em busca de satisfação cada vez maior e vida regalada. Os reis, príncipes e magistrados não estavam interessados em ser instrumentos de serviço, mas apenas queriam ser servidos. Jesus, o Sumo Pastor, declarou enfaticamente: “eu não vim para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos.”
“O que eu ganho com isso?”, “De que modo posso me favorecer?” São perguntas que se firmam no pensamento de quem busca satisfazer interesses próprios no serviço do Senhor.  
O apóstolo Paulo fez um alerta ao jovem pastor Timóteo que evitasse “altercações sem fim, por homens cuja mente é pervertida e privados da verdade, supondo que a piedade é fonte de lucro” (1 Timóteo 6:5). Havia falsos líderes que estavam em busca de lucros financeiros utilizando-se de um discurso piedoso. Paulo aponta que a ganância é um grave mal para a igreja, e diz que grande fonte de lucro é a piedade com contentamento.  É bíblico que a igreja cuide bem do seu pastor, e zele por ele na questão financeira, suprindo-lhe com o apoio e recursos. “Porque na lei de Moisés está escrito: Não atarás a boca ao boi, quando pisa o trigo. Acaso, é com bois que Deus se preocupa?” Neste contexto Paulo defende a importância de ser sustentado dignamente pela igreja de Corinto.
É notório que muitos pastores pervertidos entendem que o sucesso financeiro é a primeira evidência da bênção de Deus sobre o Seu povo, e fazem uso desta retórica para se beneficiarem. É triste ver falsos líderes de igrejas explorando o rebanho com sagacidade, em busca de impérios e movidos por ganância.
No entanto, todo pastor devotado a Cristo, sabe que o ministério pastoral não é um meio de ganhar dinheiro fácil. Aquele que foi chamado por Deus para esta nobre missão entende que o povo de Deus não pode ser explorado ou utilizado como meio de enriquecimento. A proposta do chamado pastoral não é um chamado para estar na linha de pobreza, mas também não é que faça do ministério uma fonte de exploração para obter lucro. Até porque igreja não é empresa, e sua função não é gerar lucros. Pastor não é gerente financeiro, e sua função não é estabelecer metas de crescimento do caixa. O foco do ministério pastoral não deve ser estabelecido em função de favorecimento pessoal com base em pretensões materialistas.
O pastor Argemiro já deu seu testemunho de que por vários anos serviu ao Senhor recebendo da igreja apenas uma ajuda de custo (cesta básica). Esta não deve ser a regra, mas a situação concreta mostra que nunca assumiu o ministério pastoral com intenções gananciosas.

3)   IGNORANDO AS NECESSIDADES PRIORITÁRIAS
O texto nos apresenta uma série de omissões dos líderes de Israel. Se os pecados de comissão dos líderes eram terríveis, seus pecados de omissão eram ainda piores. Não se trata aqui de um caso isolado, mas de uma prática reiterada de negligência diante das reais necessidades dos liderados.  O povo sofria e se dispersava e os líderes não exerciam o cuidado indispensável. A omissão era a tônica em Israel, em virtude de uma liderança que optou pela indiferença diante da situação crítica do povo. As ovelhas fracas, doentes, quebradas, desgarradas e perdidas, no texto, referem-se a diversas situações que exigiam a pronta atuação do pastor, utilizando os recursos e ferramentas apropriadas para fortalecer, curar, ligar, tornar a trazer e buscar.
Paulo escrevendo sobre o corpo de Cristo à igreja de Corinto, declara: “Se um membro sofre, todos sofrem com ele.”  O princípio da interdependência está em pleno vigor, não foi e nunca será revogado. Deus requer do Seu povo que seja pró-ativo em atender as necessidades uns dos outros. Mas o Senhor concede ao pastor a visão para enxergar as necessidades legítimas do rebanho, direcionando adequadamente os esforços. Sem um pastor que saiba as necessidades espiritualmente prioritárias do rebanho, as ovelhas ficam dispersas, e um rebanho disperso torna-se presa fácil para os ataques de lobos.
Compartilhar a dor do outro é uma atribuição com que o pastor se depara continuamente. A dor e o sofrimento dentro da igreja podem ser causados por diversas razões. O pastor precisa estar atento às reais necessidades do rebanho, e agir com diligência para trazer restauração. Em razão da dor proveniente das aflições próprias deste mundo caído, a ovelha encontra compaixão e graça por meio do ministério pastoral.
O pastor precisa estar atento ao gemido de dor (desde que legítima) do seu rebanho. Não se trata de passar a mão na cabeça de pecadores inveterados que não abrem mão de sua rebeldia, mas de compadecer-se daqueles que choram por seus pecados e se arrependem diante do Senhor.  As pregações devem ser sempre direcionadas pelo Senhor, mas o pastor deve conhecer o que se passa com o rebanho, as dores e dificuldades particulares da igreja. Ai da igreja em que o pastor não conhece as reais necessidades espirituais do seu povo, e pouco se importa com a advertência em Hebreus13:17: velam por vossa alma, como quem deve prestar contas!

REMORSO X ARREPENDIMENTO


Você sabe a diferença entre remorso e arrependimento? Paulo, em 2 Coríntios 77: 8-11, faz uma clara distinção entre a tristeza segundo o mundo e a tristeza segundo Deus. A realidade do pecado como afronta à santidade divina deve trazer-nos tristeza segundo Deus, que nos impulsiona a profundas mudanças em nosso viver.

A tristeza mundana não passa de um remorso. A tristeza mundana experimenta o pecado, estremece de dor e sente pesar, mas apenas por um breve momento. A tristeza mundana está realmente determinada a lutar contra o pecado, somente por enquanto. O problema é que esta recente descoberta de convicção e pesar, bem como este abalo emocional, são todos de curta duração. O foco da tristeza segundo o mundo é o mundo. Pessoas que sofrem por remorso estão angustiadas porque estão perdendo (ou temem perder) as coisas que o mundo oferece. Este tipo de tristeza, conforme argumenta o apóstolo Paulo, conduz à morte. É letal porque brota do mesmo tipo de coração que deseja em primeiro lugar dedicar-se a si mesmo.

Na tristeza segundo Deus há uma mudança de perspectiva. O foco é a santidade divina que foi afrontada. As lágrimas de tristeza fluem do sincero desgosto por ter quebrado a santa lei do Deus que nos ama. Ou seja, esse profundo pesar é motivado por Deus e orientado para Deus. A tristeza segundo Deus produz arrependimento para vida, que transborda em paz real e duradoura. Este pesar por ter pecado estende-se para além de um momentâneo tormento de dor e pontadas fugazes de convicção. Alguém que experimenta a tristeza segundo Deus ocupa-se na batalha contra o pecado, buscando força e graça necessária no poder de Cristo.

Façamos uma avaliação importante: se a tristeza que temos vivenciado não nos leva a uma verdadeira e durável transformação, então tivemos uma experiência mundana, e precisamos desesperadamente da tristeza segundo Deus. O nosso pesar em relação ao pecado não pode ser um simples remorso. Assim como Daniel orou, necessitamos corar de vergonha e lamentar profundamente sobre a real condição de nosso coração. E assim, fazer os ajustes necessários para reorientar biblicamente a forma como encaramos o pecado que tenazmente nos assedia. Portanto, deixemos o remorso para trás e busquemos a verdadeira paz que o arrependimento genuíno nos proporciona.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Inconformismo

Texto: Miquéias 3


Martin Luther King Jr. (1929-1968) tornou-se um dos mais importantes líderes do movimento dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos e no mundo. Em 14 de outubro de 1964, recebeu o Prêmio Nobel da Paz pelo combate à desigualdade racial através da não violência. O seu inconformismo com a situação de apartheid que os negros sofriam, o levou a levantar a bandeira de contestação deste sistema excludente.  Sua atuação foi fundamental para aprovação da Lei de Direitos Civis dos Estados Unidos, em 1964. São famosos alguns trechos de seus discursos:
·        “O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons.”
·        “Eu tenho um sonho. O sonho de ver meus filhos julgados pelo caráter, e não pela cor da pele.”
·        “Se um homem não descobriu nada pelo qual morrer, não está pronto para viver.”
Martin Luther King era odiado por muitos segregacionistas do sul, o que culminou em seu assassinato no dia 4 de abril de 1968, momentos antes de uma passeata, num hotel da cidade de Memphis

O texto em epígrafe trata de uma realidade degradante no meio do povo de Israel. Havia uma série de escândalos em Israel que eram tolerados como se tudo aquilo fosse natural. O ministério de Miquéias foi centrado na época em que os assírios ameaçavam invadir a Samaria, a capital do reino do Norte destruída em 722 a.C., e a Jerusalém, a capital do reino do Sul. O zelo pela santidade do Senhor impeliu o profeta Miquéias a expressar o seu inconformismo diante daquela realidade reprovável (note o versículo Mq. 3:8). Miquéias não tinha como preocupação ganhar um concurso de popularidade na sua época. Não tinha como objetivo projetar o seu nome ou garantir a sua fama diante da classe dominante de Israel. Seu papel como profeta do Senhor foi incisivo, denunciando os males que dominavam o cenário político e religioso em Israel.

“Assim como o profeta Miquéias, devemos expressar o nosso inconformismo diante de situações que merecem contundente reprovação”

? Diante de quais situações que merecem contundente reprovação devemos expressar o nosso inconformismo?

Antes de pensar que estas situações são externas a nós, quero enfatizar que elas podem estar entranhadas em nós muito além do que imaginamos. O inconformismo deve começar em nós mesmos, quando somos confrontados pelas Escrituras. Como diz a letra de um antigo hineto: “A começar em mim, quebra corações”. Que estejamos atentos para perceber situações de pecado que devem causar inconformismo, primeiramente em nós, e assim estaremos aptos para expressar o mesmo inconformismo a nossa volta.
·        Veremos 3 SITUAÇÕES que merecem contundente reprovação, diante das quais devemos expressar o nosso inconformismo:


. Quando o exercício do poder é visto não como recurso moderador da justiça, mas como fonte de opressão (vs. 1-3)
Os termos hebraicos que correspondem a “chefe” e “cabeça” relacionam-se com alguém no exercício de autoridade, e abrangem todos aqueles possuidores de algum poder, responsáveis por executar a justiça, podendo ser os ministros, os nobres, juízes e também os sacerdotes. Era esperado dos líderes civis e religiosos mais proeminentes de Israel que exercessem suas atribuições com equidade e prudência, mas a realidade não era essa nem de longe.  “Mishpat”, traduzido como juízo, é o estabelecimento de relações corretas e justas entre os homens. No âmbito judicial, aborrecer o bem e amar o mal, corresponde a emitir sentenças injustas, favorecendo os culpados e prejudicando os inocentes. No uso mais amplo, “bem” e “mal” são termos genéricos que se referem ao “certo/errado”. Assim o que era certo e justo era desprezado, e o que era errado e injusto era amplamente aceito. As classes superiores e governantes eram tanto açougueiros quanto animais ferozes, e seus subordinados eram as vítimas indefesas de um sistema brutal de exploração e opressão. Os chefes de Israel tinham tal consideração pelos seus compatriotas, assim como os açougueiros e as feras têm pelas carcaças. O povo humilde e subalterno era literalmente esfolado vivo, para dar sustentação aos líderes que exerciam com tirania o poder que detinham nas mãos.
Ø Ilustração:
A exploração sofrida no seio da igreja foi denunciada por Tiago, meio irmão do Senhor.  Na sua carta, famosa pela expressão "a fé sem obras está morta", ele apresenta também o seu inconformismo com a situação fraudulenta que tinha invadido a igreja do Senhor. "Eis que o salário dos trabalhadores que ceifaram os vossos campos e que por vós foi retido com fraude está clamando; e os clamores dos ceifeiros penetraram até aos ouvidos do Senhor dos Exércitos." (Tiago 5:4) (Lv. 19:13). Nada mais anticristão do que um cristão explorar outro cristão.
A justiça social plena é um ideal inatingível neste mundo corrompido pelo pecado. O sonho de igualdade social dos marxistas não passa de sonho. Mas não podemos fechar os olhos para a opressão brutal que as pessoas têm sofrido, em benefício de líderes corruptos da nossa nação que viajam de graça, comem e dormem nos melhores hotéis com dinheiro de impostos cada vez mais altos.
Mas deixando de lado o plano político em nosso país, o que dizer quando a igreja se torna um local de exploração cruel das ovelhas? Suetônio disse: “É função do bom pastor tosquiar as ovelhas, e não arrancar-lhes a pele”. Não somente o pastor, mas também a liderança precisa estar atenta às reais necessidades espirituais do rebanho para não exercer um poder arbitrário, sem base nas Escrituras. Toda autoridade nasce e morre nas Escrituras; portanto, sempre haverá exercício arbitrário do poder quando as Escrituras são deixadas de lado para cumprimento de caprichos pessoais da liderança. Quando Deus fala, o homem cala. E quando um líder levantado e guiado por Deus fala, não pode haver contestação. Mas quando um líder não se curva diante do Senhor, suas atitudes e mensagens terão como objetivo causar intimidação e opressão nos ouvintes (Zc. 11: 15-17).
O púlpito pode ser uma fonte de edificação para o povo, quando a Palavra é corretamente exposta e aplicada; mas também pode ser um local em que caprichos e vontades humanas são impostas de modo opressivo e inconsequente. O fato de toda autoridade vir de Deus não diviniza o detentor do poder. A autoridade que o Senhor delegou aos seus representantes deve ser usada de modo a trazer glória ao nome de Cristo, e não prejuízos à noiva de Cristo.


. Quando a proclamação da mensagem é vista não como recurso promotor da verdade, mas como fonte de ilusão (vs. 5)
Miquéias estava inconformado com o fato de que os profetas e sacerdotes faziam errar o povo de Deus, que significa iludir, desviar e desencaminhar moral e espiritualmente. Estes falsos profetas proclamavam apenas aquilo que o povo e os dirigentes queriam ouvir, ainda que fosse algo ilusório, em troca de manter o seu próprio bem estar de mordomia e de recursos financeiros. Fica bastante claro no texto, que a motivação destes falsos profetas não era pregar com fidelidade a palavra de Deus, mas se locupletarem. O dinheiro era o vetor que governava a vida deles. Se havia dinheiro entrando no bolso, tinham palavras cheias de esperança para o povo. Se o pão lhes era retirado da boca, ameaçavam o povo com guerra santa. Ou seja, a mensagem mudava conforme os benefícios materiais/financeiros (R$) para os profetas. Estes profetas tinham a audácia de falar piedosamente em nome de Deus, como se Ele fizesse parte daquele negócio desonesto.
Ilustração:
No sermão de 27/06/1937, o pastor luterano Niemoller deixou claro para os presentes que ele tinha o dever sagrado de denunciar os males do regime nazista, não importando as consequências: “Não temos nenhuma intenção de usar nossos poderes para escapar do braço das autoridades. Não estamos mais dispostos a ficar em silêncio sob o comando de homens quando Deus nos manda falar. Porque é o caso, e assim deve permanecer, de que devemos obedecer mais a Deus que aos homens”. Alguns dias depois, ele foi preso. Seu crime? “Abuso do púlpito.”
Não é de hoje que os pregadores de ilusão têm arrebanhado muitos seguidores. No tempo do profeta Miquéias imperava a pregação por conveniência e não é diferente nos nossos dias. O conteúdo da mensagem era adaptado de acordo com as ofertas que eram dadas aos falsos profetas. Charles Spurgeon disse que “um ministro infiel (que negocia a verdade) é o maior instrumento de Satanás dentro da igreja”. Atualmente, a tônica dentro dos arraiais evangélicos é oferecer falsas esperanças, conforto ilusório, conselhos convenientes, tudo que não cause nenhum incômodo aos ouvintes, talvez uma espécie de band-aid espiritual. Existem muitos vendedores de ilusões, que cometem estelionato da fé. Devemos expressar o nosso inconformismo quando pessoas se utilizam do púlpito ou da Palavra de Deus para se favorecem de alguma maneira, trazendo vergonha à causa do Evangelho.
“Qual é o seu preço, meu querido irmão?” Você negocia a verdade de Deus por alguma conveniência? Ou você está fechado para qualquer tipo de negociata, já que a verdade do Senhor é inegociável? “Compra a verdade e não a vendas!” (Pv. 23:23), é o imperativo bíblico. Certamente precisamos estar atentos a tudo o que falamos em nome de Deus, pois o que dizemos precisa ser aferido com a verdade das Escrituras. Não adianta querer agradar gregos e troianos com um discurso adaptável às circunstâncias, isso nunca vai glorificar a Deus. Podemos até conquistar a aprovação e aplausos de muitas pessoas, mas não seremos tidos como despenseiros fiéis. O que se requer dos despenseiros é que sejam fiéis na entrega da mensagem que receberam do Senhor, sem diluir, tirar ou acrescentar nada. Não fomos autorizados pelo Senhor a criar falsas ilusões para ninguém.
A saúde espiritual de um crente pode ser medida de várias maneiras, e uma delas é o nível de confrontação bíblica que ele está disposto a travar, quando sua aceitação ou popularidade é colocada em risco. Ou quando, por amor à verdade, suas posições cristãs não oscilam diante daqueles que podem lhe favorecer de alguma maneira.


. Quando a identificação com o Senhor é vista não como recurso santificador da vida, mas como fonte de presunção (vs. 9-11)
A expressão “o Senhor está no meio de nósdenota uma identificação profunda do Senhor com o Seu povo amado. Mesmo sendo transcendente o Senhor resolveu partilhar a Sua presença com o Seu povo, desde o momento do chamado de Abraão culminando na saída milagrosa do Egito. Se não fosse o Senhor no meio do Seu povo, dando sustento e direção,o povo de Israel não existiria. Mas a despeito desta identificação com o Senhor, que deveria ser encarada com responsabilidade, o povo resolveu agir com rebeldia. Observa-se no texto um misto de cinismo e presunção por parte daqueles que despertaram o inconformismo do profeta Miquéias: “Nenhum mal nos sobrevirá”. Algumas traduções do verso 11: “O Senhor está conosco. Nada de ruim nos sucederá” e “Nenhum mal vai acontecer porque o Senhor está do nosso lado.” Os líderes corrompidos alimentavam a falsa pressuposição de que Deus estaria do lado deles sob quaisquer condições. Para eles não haveria juízo da parte do Senhor. Mas o Deus santo e justo não pode contemplar o mal ou aprovar a injustiça, nem ficar indiferente diante da opressão.
Ø Ilustração:
“Porquanto o Senhor, teu Deus, anda no meio do teu acampamento para te livrar e para entregar-te os teus inimigos; portanto, o teu acampamento será santo, para que ele não veja em ti coisa indecente e se aparte de ti.” (Dt. 23:14). O Senhor andaria com o seu povo, mas o acampamento deveria ser mantido limpo e nada impuro poderia ser visto dentro de suas fronteiras. Fica evidente a necessidade de não ser complacente com qualquer coisa que afrontasse a santidade do Senhor. A identificação do Senhor com o Seu povo e a recíproca pressupunha zelo e temor.
Precisamos entender que a identificação do Senhor conosco é a base de nossa identificação com Ele: “O Senhor, teu Deus, está no meio de ti, poderoso para salvar-te; ele se deleitará em ti com alegria; renovar-te-á no seu amor, regozijar-se-á em ti com júbilo.” (Sf. 3:17)
De fato é uma promessa bastante segura que o Senhor está conosco todos os dias até a consumação dos séculos. Esse é um lado da moeda. O outro lado é a nossa resposta efetiva diante desta verdade bíblica. Cada vez mais somos convocados a nos identificar com o Senhor. A teologia tem de abrir caminho da cabeça para o coração e depois à prática, ou foi mal utilizada. Toda teologia que não nos impulsiona a uma resposta efetiva não serviu ao seu propósito. Além disso, Qualquer “teologia” que facilite o nosso pecado não é uma teologia bíblica. Presumir que Deus está ratificando a nossa conduta por conta de algum progresso ou sucesso aparente é típico do homem pós-queda. Geralmente, a prosperidade ou a ausência de dificuldades, é entendida erroneamente como o selo de aprovação do Senhor. Nada mais perigoso do que fiar-se na identificação com o Senhor, na aliança firmada por Ele, sem dar importância a uma viver santificado. Viver com base numa presunção equivocada é um passo certo para a queda espiritual. “No tocante a Deus, professam conhecê-lo; entretanto, o negam por suas obras” (Tt 1:16)

Como saber que o Senhor está no meio de nós? Quando há arrependimento verdadeiro e mudanças efetivas, quando há relacionamentos restaurados, quando a igreja avança em temor e piedade, quando os lares são edificados pela graça de Cristo, quando as Escrituras têm preeminência nas decisões que tomamos. A apatia certamente dominará nosso viver se a nossa identificação com o Senhor for meramente teórica e sem resultado prático. Precisamos muito mais do que um discurso teológico e uma boa confissão de fé.