segunda-feira, 25 de maio de 2020

Qual combustível você utiliza


"Se você pensa na identidade do seu coração como um motor, poderia dizer que existe uma espécie de combustível a alimentá-lo de modo limpo e eficiente e um outro tipo que não só polui como também destrói o motor. O sujo é o combustível do medo e da necessidade de provar quem se é. Ou da necessidade de ser necessário para alguém. Ou da necessidade de se expressar por inteiro e sem reservas. Diversos “combustíveis” nos motivam a viver por um tempo, mas só existe um combustível limpo e que não levará ao esgotamento e à decepção. Esse combustível é o amor de Deus por você. Qualquer outro combustível se tornará demoníaco. Ou o deixará obcecado ou, na melhor das hipóteses, apenas o desapontará. Sempre que alimenta sua vida com esses combustíveis, Satanás consegue levá-lo para onde bem entende. A única coisa que ele não quer é que as palavras de Deus “Você é meu filho amado” alimentem o motor de seu coração e de sua vida." 

Timothy Keller
Encontros com Jesus: Respostas inusitadas aos maiores questionamentos da vida 

domingo, 3 de maio de 2020

Sabedoria para vivermos


Sabedoria: Equilíbrio + Força + Discernimento 

Concernente ao equilíbrio: será que a sabedoria está protegendo-nos dos extremos? Em nossos dias de extremismos fanáticos, um sábio equilíbrio nos protegerá da margem da loucura. Quando colocamos a sabedoria para trabalhar, fica mais fácil para os outros conviverem conosco. Como Will Rogers afirma: “Precisamos nos sentar confortavelmente na sela”. A sabedoria ajuda isso acontecer e nos mantém balanceados.

Concernente à força: será que a sabedoria está mantendo-nos estáveis? Sob o ataque do criticismo, assim como das sutis armadilhas do orgulho, uma força interior é essencial. Quando colocamos a sabedoria para trabalhar, ganhamos um amortecedor para suavizar as duras pancadas da vida.

Concernente ao discernimento: será que a sabedoria está esclarecendo a nossa mente? Rodeados de uma multidão de vozes convidativas e persuasivas, precisamos do sistema de filtragem que somente a sabedoria pode dar. Quando colocamos a sabedoria para trabalhar, é incrível como isso aumenta o nosso nível de discernimento.

Sim, Deus tem o mundo todo em Suas mãos – o vento, as ondas, os bebezinhos, e até mesmo você e eu. As coisas não estão fora de controle. A questão da vida à beira do limite não é: será que a Sua sabedoria funciona? E sim: estamos colocando a Sua sabedoria para funcionar?

“A sabedoria é a capacidade dada por Deus de vermos a vida com rara objetividade e de lidarmos com a vida com rara estabilidade.”

Charles Swindoll, no livro Vivendo à beira do limite

sexta-feira, 27 de março de 2020

DEUS É SÁBIO


Em meio à crise da pandemia do coronavírus em escala global, muitos podem questionar a sabedoria de Deus no seu íntimo. Outros proclamam em alto som que o Deus revelado nas Escrituras é um engodo. No entanto, podemos afirmar com certeza que a crise global evidencia que os homens não podem perscrutar os caminhos de sabedoria do Onipotente Senhor de tudo e de todos.
Vamos considerar alguns pontos em que Deus é sábio.
– Deus é necessariamente sábio. A sabedoria não pode ser separada dEle. Ela é a Sua primeira operação vital.
– Ele é originalmente sábio. Todas as outras formas de sabedoria provêm dEle, mas Ele não as recebe de ninguém.
– Ele é perfeitamente sábio. Por outro lado, até mesmo a sabedoria dos anjos é limitada, e, portanto, imperfeita.
– Ele é universalmente sábio. Ele conhece tudo a respeito de todas as coisas, e faz uso perfeito deste conhecimento.
– Ele é perpetuamente sábio. Ao contrário dos homens, que adquirem sabedoria com o passar dos anos somente para envelhecer e perdê-la novamente.
– Ele é incompreensivelmente sábio. Seus juízos são insondáveis e seus caminhos inescrutáveis (Romanos 11: 33). Não há limites de como Ele possa demonstrar Sua sabedoria para nós.
– Ele é infalivelmente sábio. Não há enganos nEle. A trama mais sábia de um anjo contra Ele está fadada ao fracasso, e somente contribuirá para o cumprimento dos Seus propósitos. Não há sabedoria, nem inteligência, nem conselho contra o SENHOR (Provérbios 21: 30).

Stephen Charnock


segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Buscar a santidade

A SANTIDADE DEVE SER BUSCADA ARDOROSAMENTE SEM, CONTUDO, PERDER-SE DE VISTA QUE A SALVAÇÃO É PELA FÉ, E NÃO PELA SANTIDADE

Augustus Nicodemus

Muitos cristãos tendem à introspecção e a buscar a certeza da salvação dentro de si próprios, analisando as evidências da obra da graça em si para certificar-se que são eleitos. Não estou dizendo que isso está errado. Embora a salvação seja pela fé, no meu entendimento, a certeza dela está ligada ao processo de santificação.

Contudo, os crentes correm o risco de confundir as duas coisas. Se a busca contínua pela santidade não for feita à luz da doutrina da justificação pela graça, mediante a fé, levará ao desespero, às trevas e à confusão. Quanto mais olhamos para dentro de nós, mais confusos ficaremos. “Enganoso é o coração, mais que todas as coisas; e desesperadamente corrupto, quem o conhecerá?” (Jeremias 17.9).

Não estou descartando o exame próprio e a análise interior de nossos motivos. Apenas estou insistindo que devemos fazer isso olhando para Cristo crucificado e morto pelos nossos pecados. Somente conscientes de que fomos justificados pela graça, mediante a fé, sem as obras da lei, é que podemos prosseguir no longo caminho da santificação.

O elo entre a justificação e a santificação


Muito se discute nos arraiais evangélicos sobre a necessidade da justificação mediada por Cristo a fim de sermos parte do reino de Deus. Certamente, há farto amparo bíblico para este assunto, afinal aos que Deus chamou, a estes justificou. A justificação é uma declaração judicial unilateral por parte de Deus de que já não há mais culpa que condene o homem redimido, visto que seus pecados foram totalmente pagos pela obra vicária de Cristo Jesus.

Mas não podemos ignorar a ampla gama de textos bíblicos que afirmam a necessidade de crescimento e amadurecimento na fé, afinal sem santidade ninguém verá o Senhor. Menoscabar a santificação como um processo inexorável na vida do cristão é fazer pouco caso da graça maravilhosa do Senhor. Neste aspecto, o progresso na piedade deve ser evidente e realizado sob a dependência da graça.

Portanto, há forte ligação entre a justificação e a santificação. Enquanto a justificação nos livra da culpa do pecado, a santificação nos livra do poder do pecado. Somente conscientes de que fomos justificados pela graça, mediante a fé, sem as obras da lei (Rm. 5.1; 3.28), é que podemos prosseguir confiantes no caminho da santificação. E assim vamos amadurecendo em glória, parecendo-nos mais e mais com a estatura de varão perfeito.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Raízes

por Charles R. Swindoll

Marcos 4:1-41; Efésios 3:1-21; Colossenses 2:1-23
Existe uma árvore no meu jardim que me dá um trabalho enorme, várias vezes ao ano. Ela tomba. Não, ela nunca quebra ou para de crescer… só tomba. Ela é bonita, muito verde, encorpada. Mas deixe que uma boa rajada de vento a encontre – e lá vai ela para o chão – rapidamente.
Isso aconteceu hoje. Estava muito bem, até que ventou. É uma vergonha que essa charmosa árvore não consiga se manter em pé. Retire as cordas que a sustentam e é somente uma questão de tempo… ela não é páreo na luta contra seu invisível amigo.
Por quê? Na linguagem dos jardineiros, ela é uma cabeça-pesada. Muitas folhas e pesados ramos acima do chão (que apreciamos e gostamos), mas abaixo do solo, fracas raízes. Poucas raízes aqui e ali, procurando por água e nutrientes… mas insuficientes para suportar tudo o que cresce acima. E a árvore não para de produzir novas folhas para esperar as raízes se fortalecerem.
Então, eu vou de manhã e a coloco em pé novamente. Converso com ela, dou vários conselhos e, com gestos, falo para se “endireitar”. Mas é só aparecer outro ventinho mais forte, que ela vai ser nocauteada.
Essa árvore passa uma lição que eu não posso mais ignorar: raízes fortes estabilizam o crescimento. Se isso é verdade para as árvores, com certeza é crucial para os cristãos. Raízes fortalecem e nos sustentam contra os fortes ventos da persuasão. Quando os ventos “tombadores-de-mentes” atacarem sem aviso, será o emaranhado de sólidas raízes que irá nos segurar e nos manter em pé. Bonitos ramos e rendadas folhas, não importando quão atrativos possam ser, falham em nos fortificar quando a velocidade cresce. São necessárias raízes resistentes, profundas, poderosas raízes para nos manter em pé.
Isso explica por que o Salvador disse aquilo sobre a planta que secou. Ela tinha um problema de raízes (Marcos 4:2) e não pôde aguentar os raios de sol. E por que a oração de Paulo pelos jovens e enérgicos crentes de Éfeso incluiu o pensamento de “… estando arraigados e alicerçados…” (Efésios 3:17). Raízes fortes estabilizam o crescimento. É por essa razão que elas são tão importantes. Sem elas nós tombamos e às vezes estalamos.
Mas antes que você fique empolgado querendo criar uma série de fortes raízes, deve se lembrar de algo importante: isso leva tempo. Não existe uma rota instantânea para a criação de raízes. E não é uma das coisas mais divertidas de se fazer. Envolve trabalho duro e dedicado. E também não é um processo facilmente perceptível. Ninguém gasta tempo cavando ao redor do caule de uma árvore, admirando: “Que raízes fortes você tem!”. Quanto mais fortes e profundas forem as raízes, menos visíveis elas se tornam. Menos aparecem.
Grave isso. O processo é lento. E também não haverá barulho ou fumaça no seu crescimento. O processo é silencioso. Mas no final do processo, o produto será insubstituível… de valor incalculável.
Se você está procurando um crescimento rápido, superficial, do tipo “levante daí rapidinho”, então eu tenho o ideal. Apareça qualquer dia aqui em casa e eu vou vender para você um espécime perfeito – com cordas e tudo!

sábado, 28 de dezembro de 2019

Potencial de dano


Texto: Mateus 18: 1-9
Tema: Potencial de Dano

Introdução 1:
Em uma segunda-feira, 6 de agosto de 1945, às 8 horas e 15 minutos da manhã, a bomba atômica "Little Boy" foi lançada sobre Hiroshima por um bombardeiro B-29 americano, o Enola Gay, matando instantaneamente por volta de 80 mil pessoas. A bomba lançada sobre a cidade de Hiroshima era uma bomba nuclear de urânio-235 com uma potência estimada de 16 quilotons (1 quiloton = 1000 toneladas de TNT). Ela explodiu a uma altura de aproximadamente 570 metros do chão e provocou uma nuvem de fumaça que alcançou 18 km de altura. Sua explosão gerou uma bola de fogo com uma temperatura de aproximadamente 300.000 °C, atingindo um raio de 2 km de destruição, além de espalhar uma nuvem radioativa. Estima-se que houve mais de 140 mil mortes em decorrência das queimaduras e dos ferimentos causados pela explosão e dos danos causados pela exposição à radiação. O potencial destrutivo da bomba atômica era de causar espanto, mas nem mesmo seus criadores esperavam tanto.
Música ROSA DE HIROSHIMA: Pensem nas crianças/ Mudas, Telepáticas/ Pensem nas meninas/Cegas, inexatas/ Pensem nas mulheres/ Rotas, Alteradas/ Pensem nas feridas/ Como rosas cálidas/ Mas oh! Não se esqueçam/Da rosa, da rosa/ Da rosa de Hiroshima/ A rosa hereditária/ A rosa radioativa/ Estúpida e inválida/A rosa com cirrose /A anti-rosa atômica/ Sem cor, sem perfume/ Sem rosa, sem nada. Essa música, em tom melancólico, expressa com poesia a força destrutiva da bomba de Hiroshima, ironicamente chamada de rosa, por conta do formato de botão em flor, ou de cogumelo, da enorme nuvem de fumaça que se formou após a explosão. O ataque ao Japão não parou por aí, três dias depois outra bomba (de plutônio) foi jogada sobre a cidade de Nagasaki, os efeitos geraram milhares de mortes instantâneas e outras devido ao efeito radioativo. A bomba apelidada de Little boy, que significa "garotinho" em português, não tinha nada de diminutivo na sua capacidade devastadora.
Introdução 2: E por falar em potencial danoso, não podemos jamais esquecer que a Bíblia nos adverte que o pecado jaz à porta, mas cumpre a nós dominá-lo. Já em Gênesis o potencial de dano do pecado nos serve de alerta. O livro de Provérbio está repleto de princípios para evitarmos seguir pelo caminho da insensatez, conhecendo o potencial de danos que é próprio deste caminho. Os danos decorrentes de ações intempestivas são recorrentes na Bíblia, por exemplo quando Saul resolveu por conta própria ofertar bois e ovelhas ao Senhor em Gilgal (usurpando o papel exclusivo do sacerdote Samuel). O potencial danoso desta atitude de Saul custou-lhe a reprovação imediata do profeta (agiste nesciamente e não guardaste o mandamento que o Senhor) e ainda chancelou a perda do reino (agora, não subsistirá o teu reino).
No texto em epígrafe, temos mais uma advertência do Senhor Jesus aos discípulos que o seguiam. Esta dura advertência ressalta o potencial danoso que algumas atitudes trazem para dentro das relações humanas, e que acabam minando a vitalidade e o progresso dos redimidos. Jesus está sendo bastante direto, não deixando margem para interpretações ambíguas. Ele claramente alerta sobre o potencial de dano, sobre a insensatez que deve ser considerada nestas atitudes para não incorremos também nelas. Conhecendo as condutas que possuem um potencial danoso/lesivo, podemos fazer um diagnóstico se estamos incorrendo nelas. Buscar o arrependimento e clamar por perdão é o primeiro passo para não sermos veículos com tamanho potencial de causar danos. Em razão disso, afirmo o seguinte:

 “Neste texto, somos advertidos sobre inclinações cujo potencial de dano não deve ser ignorado”


1) Fomentar um conceito elevado de si próprio (Vs. 1-5)
EXPLANAÇÃO: O motivo do Senhor ter feito essa pergunta retórica acerca de quem era o maior do reino de Deus foi a constante disputa dos discípulos entre si para determinarem quem era o maior deles. É bem possível que os últimos acontecimentos tenham agravado esse problema, especialmente com referência a Pedro que andara sobre as águas com o Senhor e tenha sido aquele que representou o Senhor ao pagar o imposto do templo através de um milagre. O fato de Jesus ter compartilhado com eles acerca do seu futuro sofrimento e morte na transfiguração, não causou o devido impacto na vida deles, pois continuavam pensando em si mesmos e no cargo que ocupariam no reino de Deus. Eles estavam tão obcecados pela questão que chegaram mesmo a discutirem entre si (Lc.29.46). A condição de servos causava entre os discípulos muito mal-estar.
Os discípulos estavam pensando acerca do reino de Jesus em termos de um reino terreno e em si mesmos como os principais ministros de Estado. Essa distorção teológica dos discípulos perdurou até mesmo depois da ressurreição de Jesus (At 1.6). Percebamos que na pergunta "quem é o maior", que diz respeito a posição/relevância, está implícita outra pergunta: "quem é o melhor", que diz respeito a quem é o mais excelente para ocupar tal posição. Esta ladainha entre os discípulos não aconteceu apenas uma vez, e sempre que aconteceu recebeu a reprimenda de Jesus.
Quando Jesus fez essa pergunta, certamente eles ficaram aguardando com ansiedade que o Senhor dissesse quem era o maior, mas Jesus ignorando-os completamente chamou uma criança para junto de si, como a dizer, eis o exemplo da verdadeira grandeza. A criança é levantada como um ideal não de inocência, pureza ou fé, mas de humildade e de despreocupação por posição social. Jesus advoga a humildade de mente (v. 4), não a infantilidade de pensamento (cf. 10.16). A humildade de uma criança consiste principalmente em um estado de confiança e dependência. Notem o contraste que Jesus apresenta: por um lado havia um grupo de pretensos homens, que disputavam entre si para saber quem era o maior e do outro uma criança sem a menor preocupação com esse assunto. Essa é a atitude que Deus deseja que seus filhos adotem em relação a Ele. O estado de espírito moderno que prevalece atualmente, de autossuficiência e de sabedoria mundana e sofisticada, é inimigo de uma autêntica espiritualidade.
ILUSTRAÇÃO: Quem não se lembra da história de Hamã, aquele homem orgulhoso, descrito no livro de Ester. Ele tinha um conceito tão elevado de si mesmo que ao ser perguntado pelo rei sobre o que se deveria fazer a um homem a quem o rei quisesse honrar, pensando que se tratava dele (Hamã) disse: “Que seja vestido de trajes reais, e que desfile pelas ruas montado no cavalo do rei, sendo dito sobre ele: Esse é o homem a quem o rei deseja honrar.” A sugestão agradou ao Rei Assuero que mandou imediatamente que se fizesse o sugerido com o judeu Mordecai a quem Hamã odiava, além disso ele é quem conduziria o cavalo do rei anunciando Mordecai como o homem a quem o rei queria honrar.  Esse só foi o primeiro degrau na queda do orgulhoso Hamã, que terminou por morrer numa forca que ele preparara para Mordecai.
Vivemos num mundo onde a autoafirmação tem se tornado uma regra. As pessoas não se preocupam tanto em ser, mas em ser reconhecidos como tal. São pessoas que possuem uma necessidade íntima muito forte de impor-se à aceitação dos outros. Precisam estar sempre em destaque, como o centro das atenções, recebendo, é claro, constante aprovação dos que as cercam. A necessidade de autoafirmação, de estar sempre sendo reconhecido e elogiado pelos outros, faz com que a pessoa deixe de olhar verdadeiramente para dentro de si, o que a levaria a ter uma percepção equilibrada e realista de si mesmo. Vivendo na busca da autoafirmação, de reconhecimento externo, não sobra tempo para se trabalhar para ser. O caminho é o de se tornar um sepulcro caiado, tal como os fariseus. É obvio que essa conduta é um barril de pólvora e tem enorme potencial lesivo no Corpo de Cristo. Estamos errados ao badalar o sino a respeito de nossas qualificações, com o desejo de sermos reconhecidos. Quem tem habilidades não toca trombeta sobre si, mas simplesmente usa os seus dons como meios para a glória de Deus.
Por causa da queda, somos atraídos por visões enfatuadas, deturpadas e grandiosas de nós mesmos. Pessoas que fazem muita referência a si próprias (autoelogios) são danosas para o equilíbrio no Corpo de Cristo. O sábio Salomão já advertiu: “Seja outro o que te louve, e não a tua boca; o estranho, e não os teus lábios” (Pv. 27:2). Fazer comparações ministeriais sempre em proveito próprio indica um coração autocentralizado, que precisa da graça de Deus. Usando as palavras de Paulo, “não pense de si mesmo além do que convém" (Rm. 12:3). Paul Tripp escreveu: “A aclamação pública frequentemente é o viveiro para o crescimento da semente do orgulho espiritual.”
É impossível alguém se humilhar diante do Senhor se, ao mesmo tempo, estiver procurando se exaltar em relação aos outros. Tudo em nosso viver deve ser projetado para produzir maior humildade em nós. Devemos enxergar os irmãos não como oportunidades para trazer glória a nós mesmo, mas como pessoas a que podemos servir para trazer glória a Cristo. João Batista, a respeito de Cristo, proferiu um dos desafios mais importantes para todos nós: “Convém que Ele cresça e que eu diminua”. Até porque ao pé da cruz o terreno é plano, portanto, não deve existir espaço para autopromoção que cria divisões dentro da igreja. Somos servos, não soberanos. Somos ovelhas, não pavões. E diante do exemplo supremo de Cristo nenhum de nós pode jamais dizer que está se humilhando demais. Nenhum de nós pode dizer: “Chega! Eu mereço algo melhor, agora é a vez de ser servido e aclamado.”
O sentimento de superioridade, seja ele consciente ou não, sempre começará a eliminá-lo do ministério protetor e santificador essencial do corpo de Cristo. Você começa a se enxergar como alguém que não precisa dos demais, que é bastante a si mesmo, quase uma igreja ambulante com todos os dons necessários. Precisamos lutar continuamente contra o perigo da síndrome de celebridade. Somos rodeados por espelhos curvos que têm o poder de dar uma visão distorcida de nós mesmos. Por isso somos carentes da graça todos os dias, para que o evangelho de Cristo nos humilhe e nos revele de fato quão pequenos e fracos nós somos. Olhar para o exemplo de Cristo (kenosys=autoesvaziamento) deve nos constranger diariamente. Em mais um paradoxo da fé, a verdadeira grandeza pertence ou faz parte da disposição de ser o último e servo de todos.
A luta do discípulo em busca de poder ou primazia entre os seus pares denota a confusão que está se fazendo do reino dos céus como um tipo de reino terreno, político, que propicia posições de poder. Quantas vezes as disputas por primazia na igreja do Senhor fazem o povo de Deus enfermar? É terrível o potencial de dano trazido pela prática da autoexaltação e egocentrismo que gera disputas e divisões no corpo de Cristo, assim como aconteceu em Corinto. De Deus somos todos cooperadores; a lavoura é de Deus e o crescimento vem dEle somente. Portanto não sobra espaço para vanglória, pois "nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento” (1 Cor. 3:7). Quando vamos abandonar as práticas infelizes de buscar posição como se estivéssemos concorrendo entre nós quem é o melhor? De fato, já passou da hora de nos portarmos como servos, não como senhores na obra do Mestre, tais como crianças despretensiosas.


2) Causar algum estorvo espiritual a outrem (Vs. 6,7)
EXPLANAÇÃO: Os versículos de 6 a 9 estão unidos pela palavra grega eskandalon (pedra de tropeço) e seu respectivo verbo eskandalizo (tropeçar). O Senhor inicia a fala registrada no versículo 6 com o pronome “qualquer” seguido que fizer tropeçar... Isso significava que nenhum dos discípulos estava isento da possibilidade de fazer alguém tropeçar. No entanto fazer alguém tropeçar é uma ação insensata por sua falta de amor e misericórdia e pelo juízo que tal ação evoca. Para descrever o peso do juízo que virá sobre aquele que faz o outro tropeçar, Jesus diz que seria preferível que se pendurasse ao pescoço dessa pessoa uma grande pedra de moinho e que fosse afogada na profundeza do mar. Geralmente as pedras no pescoço eram adereços, aqui por mais que ilustra um duro juízo terreno não se compara com o celestial. O mundo é um lugar de pecado (jaz no maligno) e consequentemente é até compreensível que seja também um lugar de escândalos, no entanto ai do mundo por causa disso e ai daqueles que patrocinam esses escândalos. A questão dos escândalos apresentada neste texto por Mateus é diferente da abordagem apresentada por Paulo em 1 Coríntios. Na questão da carne sacrificada aos ídolos prevalece a questão de sermos cautelosos em não prejudicar a fé de alguém com consciência fraca, isto é, uma consciência ainda não treinada e fortalecida nos princípios doutrinários. Já aqui em Mateus o que está em voga são as atitudes deliberadas de causar tropeços na vida de alguém, seja por mau testemunho ou por alguma palavra que gere prejuízos à carreira cristã de outro irmão. Armar ciladas e induzir ao erro é uma praxe no mundo, mas não deveria ser entre o povo de Deus.
ILUSTRAÇÃO: A imagem do ex-maratonista Vanderlei Cordeiro de Lima sendo agarrado por um ex-padre irlandês nos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004, ficou mundialmente conhecida. Na ocasião, Vanderlei liderava a prova com uma diferença de 150 metros do italiano Stefano Baldini, mas perdeu metade do seu tempo de vantagem quando foi empurrado por Neil Horan, ex-pároco da igreja católica da Irlanda.  Desconcentrado pelo susto, o brasileiro foi ultrapassado e ao final da prova subiu ao pódio para receber o bronze.
O escândalo é uma pedra de tropeço para as pessoas. É uma conspiração contra o bom testemunho. É negar a fé não com palavras, mas com atitudes. A vida do cristão é sua mensagem mais eloquente. Portanto, falar contra o pecado em público e praticá-lo em secreto é uma abominação diante de Deus e uma pedra de tropeço diante dos homens.  Acautelemo-nos, pois o pecado mais escondido na terra é um aberto escândalo no céu. (Hernandes Dias Lopes). Quando aqueles que conhecem a Deus desviam-se da verdade, caem na iniquidade, e praticam os mesmos pecados daqueles que não o conhecem, tornam-se pedra de tropeço, como está ilustrado nos Salmos e nos profetas: “Teimam no mau propósito; falam em secretamente armar ciladas; dizem: Quem nos verá? Projetam iniquidade, inquirem tudo o que se pode imaginar; é um abismo o pensamento e o coração de cada um deles.” (Salmo 64: 5-6) “Flecha mortífera é a língua deles; falam engano; com a boca fala cada um de paz com o seu companheiro, mas no seu interior lhe arma ciladas.” (Jr. 9:8)
E difícil conceber como Jesus poderia ter dado um aviso mais solene sobre o horror de levar outro cristão que está se desenvolvendo a errar e ser seduzido pelo pecado por causa da influência de alguém. A necessidade de uma vida consistentemente santa deve despertar a nossa atenção como as luzes que piscam no cruzamento de uma estrada de ferro. Faremos bem em dar atenção a esse aviso. Quando formos tomar alguma atitude devemos refletir com cautela, averiguando se aquela atitude pode se constituir causa de tropeço para alguém. E não se trata de viver pisando em casca de ovo, num ambiente cheio de pessoas hipersensíveis. O alerta que Jesus faz é sobre causar deliberadamente um tropeço, uma situação que traga prejuízo ao próximo, de modo a envergonhar a causa de Cristo e o progresso da fé de alguém. Com base em outros textos do Novo Testamento, o alerta envolve cautela redobrada por parte daqueles que estão em posição de liderança ou de ensino na igreja. Sabemos que o exemplo é um fator de influência bastante significativo para os irmãos na fé, por isso cultivar a prudência é sempre necessário e salutar para o bem do equilíbrio no corpo de Cristo.
As causas de tropeço podem ser várias, mas a que por inferência é mencionada aqui é a ambição orgulhosa, como a que acabara de ser manifestada pelos discípulos. No texto paralelo do evangelho de Marcos traz à baila também os efeitos perniciosos do preconceito (Mc. 9:38-41). A Bíblia nos mostra, em especial em Provérbios e na epístola de Tiago, que um enorme potencial de dano está na questão do falar.Porque todos tropeçamos em muitas coisas. Se alguém não tropeça (ou não causa tropeços) no falar, é perfeito varão, capaz de refrear também todo o corpo” (Tg. 3:2). Com a língua podemos causar grandes incêndios e trazer prejuízos incalculáveis para outros irmãos. Podemos levar pessoas a terem uma visão pequena de Deus se nossas palavras forem uma deturpação do Evangelho. Podemos influenciar pessoas a romperem amizades se o nosso falar estiver corrompido com preconceitos e maldade. Podemos destruir um casamento alicerçado por tantos anos, por meio de uma mentira calculada ou um falso testemunho. Podemos inviabilizar a coexistência pacífica dentro da igreja. Podemos menosprezar pessoas feitas à imagem de Deus, atacando a dignidade inerente à condição de criatura. Sendo assim, todo cuidado é pouco com a questão da língua. O salmista Davi faz uma pergunta e ele mesmo responde: “Quem é o homem que ama a vida e quer longevidade para ver o bem? Refreia a língua do mal e os lábios de falarem dolosamente” (Salmo 34: 12-13). O médico diz:  "Você é o que come".  O psicólogo diz:  "Você é o que sente". O educador físico diz: "Você é o que transpira". O filósofo diz: "Você é o que pensa". O professor diz: "Você é o que estuda". E Tiago, na sua epístola no NT, diz: "Você é o que fala". Conhecemos, de fato, o tremendo potencial de causar tropeços da nossa língua?
Por outro lado, também podemos ser causa de tropeço quando somos omissos. A vida do cristão não deve ser causa de tropeço nem por ação e nem por omissão. A omissão é claramente reprovada em Tiago 4:17:  “Aquele, pois, que sabe que deve fazer o bem e não o faz comete pecado.” Omissão é não assumir a responsabilidade ou não adotar a postura adequada diante de alguma requisição da parte do Senhor. E assim, podemos levar outros a tropeçar por conta de uma situação que exige um posicionamento correto e embasado nas Escrituras e deixamos de agir. Martinho Lutero, quando estava sendo confrontado pelas hostes do papa Leão 10, disse: “Você não é responsável apenas pelo que diz, mas pelo que não diz também.”  Toda a vida do crente deve ser mantida e nutrida com responsabilidade, ciente do bom propósito de glorificar a Cristo somente.
De fato, a responsabilidade pelo pecado é pessoal e intransferível. Cada um que cair dará contas de si mesmo ao Senhor. Mas não podemos utilizar deste argumento de defesa quando agimos erroneamente e, por causa disso, outros venham a tropeçar na carreira cristã. Como membros do Corpo de Cristo somos interdependentes e, portanto, responsáveis também pela saúde e progresso espiritual de irmãos na fé. Criar tropeços, ciladas ou induzir maliciosamente obras malignas não é próprio do cidadão celestial, que está rumando para encontrar-se com Cristo na glória. Levar outra pessoa a fracassar, seja por mau exemplo, orgulhosa ambição, por indiferença, ou outra coisa qualquer, tem um potencial de dano enorme para a igreja do Senhor. Precisamos cuidar uns dos outros, e este cuidado protetor envolve nutrir relacionamentos que sejam sólidos o suficiente para não levarmos ninguém a tropeçar na fé. Cuidemos com redobrada atenção de nossas palavras e de nossas ações, para não servimos ao príncipe das trevas induzindo outros ao erro.


3) Poupar a si próprio de sacrifícios espirituais (Vs. 8,9)
EXPLANAÇÃO: Usar as mãos, os pés e os olhos para pecar é uma loucura consumada. As mãos que agem, os pés que andam e os olhos que veem dever estar a serviço do bem, e não do mal; da santidade, não da iniquidade. O que fazemos, aonde vamos e o que vemos pode constituir-se armadilha para a nossa alma. Jesus não ensina a amputação física, mas o radical enfrentamento do pecado. A pé, mão e olhos representam a própria pessoa em suas várias formas de expressão. Toda vez que os pés se desviam do caminho, isso acontece porque o coração também se desviou. Se não houvesse pecado no coração, o pé, a mão e os olhos não se tornariam, tão facilmente, instrumentos do pecado. Uma personalidade santa terá pés, mãos e olhos santos. Portanto, Jesus está insistindo para que a resistência seja vencida a fim de que nos tornemos santificados através do sacrifício daquilo que atrapalha o progresso na fé. Se alguma coisa no caminho nos impede de seguir a Jesus, precisamos nos livrar disso.
Renunciar àquilo que parece ser o nosso direito natural, seja representado pelo pé, mão, ou pelos olhos, não é tarefa fácil e feita de bom grado. Mas, é melhor salvar um homem deformado do que perder um homem “completo”. Jesus reforça que devemos ser radicais na remoção de qualquer obstáculo que se interponha entre nós e Deus, por meio de renúncia e autossacrifício. Na luta contra a natureza de Adão que ainda reside em nós não podemos ser indolentes ou letárgicos. Sem dúvida, o sacrifício literal de mão, pé ou olho não resolverá os problemas da tentação e do pecado, mas a ilustração é clara. Da mesma forma como se sacrifica um órgão do corpo para salvar a vida física, também qualquer disciplina, por severa que seja, não é preço muito grande a ser pago pela vitória sobre os tropeços. O inferno está reservado para aqueles que nunca fizeram sacrifícios espirituais, porque de fato os tais nunca nasceram de novo pelo poder do Espírito de Deus. Só quem é capacitado pelo Espírito pode produzir frutos e realizar sacrifícios que glorifiquem ao Pai, através da mediação do Filho.

ILUSTRAÇÃO: Conta-se que na Primeira Guerra Mundial um jovem soldado francês foi seriamente ferido. Seu braço havia sido quebrado em várias partes e teve que ser amputado. Ele era considerado um soldado de grande coragem e o cirurgião lamentou profundamente o fato de, ainda muito jovem, ter o corpo mutilado. Ele aguardou ao lado da cama do soldado para lhe dar as más notícias quando recuperasse a consciência. Quando o rapaz abriu os olhos, o cirurgião lhe falou: “Eu sinto muito lhe dizer, mas você perdeu o seu braço.” “Senhor,” falou o rapaz, “eu não perdi o meu braço, eu o dei – pelo meu país, a gloriosa França.” Sacrifícios, será que somos capazes?  Frank Farley, um antigo político cristão norte americano disse: “Grande parte de nosso cristianismo atual está encharcado de sentimentos, mas desprovido de sacrifícios.”  O estudioso britânico do Novo Testamento Ralph Philip Martin disse:  “O sinal do amor que professamos pelo evangelho é a medida do sacrifício que estamos dispostos a fazer para ajudar o seu avanço.” John MacArthur vem reforçar essa mesma concepção: “O verdadeiro evangelho é um chamado para o autossacrifício e não para a autorrealização”.
Algo só pode ser considerado sacrifício se nos custa alguma coisa. Não vale dizer que somos cristãos sacrificiais, se na hora “H” nos deixamos levar pela autoproteção desenfreada. Para seguir o caminho do sacrifício das próprias vontades o discípulo tem que compreender que é um doulos (escravo, no grego). Nas Escrituras, a descrição que prevalece sobre o relacionamento dos cristãos com Jesus Cristo é a relação escravo/mestre. Ser escravo de alguém, significava ser sua possessão, sujeito a obedecer suas vontades, sem hesitação ou questionamentos. Os primeiros cristãos se contentavam em considerar a si mesmos como absoluta propriedade de Cristo, comprados por Ele, possuídos por Ele, e estando totalmente ao seu dispor.  Somos seus escravos, chamados a obedecê-Lo e honrá-Lo, com humildade e de todo o coração. Somente assim, entenderemos que os sacrifícios espirituais são importantes para sermos agradáveis ao nosso Mestre.
         O potencial de dano de não realizarmos sacrifícios espirituais em nossa vida é evidente. Quanto mais alimentamos vontades carnais e centradas no “eu”, mais cresce a nossa autonomia. Quanto mais alimentamos caprichos pessoais, mais tropeçamos e levamos outros a tropeçar. Passamos a viver sem a devida consideração para com o Senhor que nos comprou com seu precioso sangue. Começamos a enxergar o milagre da salvação com desdém, sem dar o valor devido ao que Cristo fez. Depois de descrever com detalhes o plano eterno de salvação na carta ao Romanos (capítulos 1 a 11), o apóstolo Paulo faz um clamor retumbante: “ROGO-VOS, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional” (Rm. 12:1). Só alguém que entendeu o plano perfeito de redenção do pecador e que se rendeu ao senhorio de Cristo, é capacitado pelo Espírito a realizar sacrifícios espirituais que mortificam os desejos da carne e dos pensamentos mundanos.
O verdadeiro Cristianismo não se trata de acrescentar Jesus à minha vida. Em vez disto, trata-se de devotar-me completamente a Ele, submetendo-me inteiramente à sua vontade e procurando agradá-Lo, acima de todas as coisas. Isto demanda morrer para mim mesmo e seguir ao Mestre, não importando o custo. Em outras palavras, ser um cristão é ser um escravo de Cristo. E ser um escravo implica sacrifício de caprichos pessoais e da autonomia da vontade. Há muitas canções gospel que falam sobre rendição a Cristo: “Eu me rendo; rendo a ti minhas vontades”. Mas biblicamente o que significa rendição? Rendição a Cristo implica desistir de lutar contra a Sua autoridade e não mais oferecer resistência diante da urgência em dar um basta nos hábitos escravizadores que precisam ser extirpados da nossa vida.
Não nos enganemos. A falta de sacrifícios espirituais não traz prejuízos somente para o indivíduo, mas também para a coletividade na qual está inserido. É fácil constatar que igrejas não amadurecem porque seus membros não estão fazendo os ajustes necessários: onde estão os que se sacrificam pela causa de Cristo? Onde estão aqueles que saem do comodismo para agir cortando na própria carne? Irmãos, não precisamos de heróis ou salvadores da pátria. Necessitamos de crentes que se sacrificam para uma vida de santidade e utilidade. Santidade é essencial, mas é impossível caminhar nesta direção sem sacrifícios espirituais.
Até que ponto nós estamos dispostos a sofrer as dores da santificação? A santificação dói porque envolve sacrifícios. As dores da santificação dão testemunho de que somos filhos de Deus. Não existe santificação sem direção, e direção requer disciplina no sacrifício de nosso orgulho e paixões centradas em nossos pretensos direitos. Muitas vezes somos ligeiros em identificar os sacrifícios espirituais que outras pessoas devem fazer, na nossa avaliação. Ignoramos que não é possível enxergar adequadamente com uma enorme trave em nossos olhos. Sacrifícios são necessários para o equilíbrio no Corpo de Cristo, e quando não há o potencial de dano torna-se evidente.
Uma forte evidência de sacrifício espiritual é quando não reivindicamos direitos diante de Deus e passamos a trilhar o caminho do arrependimento. O salmista proclamou: "Sacrifícios agradáveis a Deus são o espírito quebrantado; coração compungido e contrito, não o desprezarás, ó Deus.” (Salmos 51:17). A essência da vida cristã passa necessariamente pelo arrependimento e não é possível arrependimento genuíno sem o sacrifício do nosso orgulho. É inviável queremos avançar em contrição sem que antes sacrifiquemos o que temos de mais precioso: os nossos direitos. Esta rebelde inclinação é uma afronta à cruz de Cristo, que nos mostra o preço que foi pago para que não vivamos mais para nós mesmos.

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Política na igreja

"Sejamos honestos, existem lutas demais pelo poder na igreja local. O ministério do evangelho facilmente se torna politizado. O orgulho o leva a uma fome pelo poder (mesmo que você nem saiba disso); a fome pelo poder leva você a ajuntar aliados ministeriais, e o desejo de controle o leva a localizar inimigos ministeriais. De alguma maneira, o ministério do evangelho tem se tornado um campo de batalha político pelo poder humano. Esta é uma forma de ministério que tem perdido o seu centro. Jesus saiu do recinto. Um rei está sendo colocado à frente, mas não o Rei. Um reino está sendo edificado, mas não o Reino. Se, como pastor, você está sendo pastoral, está fazendo isso por outros; mas se, como pastor, você se tornou político, está fazendo isso para si mesmo."

Paul Tripp, no livro Vocação Perigosa

A verdade sobre a santidade

Como filhos obedientes, não se deixem amoldar pelos maus desejos de outrora, quando viviam na ignorância. Mas, assim como é santo aquele que os chamou, sejam santos vocês também em tudo o que fizerem, pois está escrito: “Sejam santos, porque eu sou santo”. (1 Pedro 1:14-16)

Por que é tão importante para nós, que buscamos sua vontade, saber que Deus é santo?
Primeiramente porque sua santidade nos diz que ele é absolutamente digno de confiança.
Sendo santo, Deus nunca vai tirar vantagem de seus filhos. Ele nunca vai abusar de nós, nos manipular ou nos desviar do caminho. Sua vontade pode parecer misteriosa, mas nunca está errada. Esse ser santo, sem pecado, não pode fazer o mal. Eu e você podemos confiar que ele fará sempre aquilo que é certo, o tempo todo.
Segundo, sua santidade nos garante que ele não tem segundas intenções nem motivações questionáveis.
Você não precisa se preocupar quando Deus o estiver conduzindo na vontade dele. Será que o tiro vai sair pela culatra? Será que, de alguma forma, isso vai agir contra mim? Sua santa vontade está acima de questionamentos.
Terceiro, sua santidade representa um modelo de perfeição.
Nosso Deus não tem nenhuma falha, oculta ou declarada, dita ou registrada. Nem mesmo indiretamente.
Pelo fato de Deus ser totalmente santo, Ele nunca se envolveu em nossos atos pecaminosos, nem mesmo de modo indireto. Isso é simplesmente impossível. Ele não apenas não pode ser tentado, como não tenta ninguém. É isso mesmo, Ele não pode. Sua santidade impede que isso aconteça.

Charles R. Swindoll

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Vocação


O sentido da vocação é um dos sentidos superiores do homem. É o sentido que o leva a realizar com interesse e denodo as maiores empresas. Nos momentos sombrios, proporciona-lhe luz; nos transes difíceis, incute-lhe novo ânimo. Vejamos três verdades importantes sobre a vocação.

Em primeiro lugar, a vocação é o vetor que rege nossas escolhas. Vivemos em uma sociedade embriagada pelo lucro. As pessoas são valorizadas pelo que possuem, e não pela dignidade do caráter. O dinheiro e o lucro tornaram-se os vetores das escolhas profissionais. No mercado global e consumista, o lucro é o oxigênio que rega os pulmões da sociedade. A riqueza em si não satisfaz, mas o senso do dever cumprido, movido pela alavanca da vocação, traz uma alegria indizível. 

Em segundo lugar, a vocação é a consciência de estar no lugar certo, fazendo a coisa certa. O problema da vocação é talvez o problema social mais grave e urgente, aquele que constitui o fundamento de todos os outros. O problema social não é apenas uma questão de divisão de riquezas, produtos do trabalho, mas um problema de divisão de vocações, modos de produzir. Que tragédia quando grande quantidade de homens de um país  procura cargos, em vez de vocações! 

Em terceiro lugar, a vocação pode ser tanto um pendor quanto um chamado. Em geral, encontra-se a vocação por um destes dois meios: o descobrimento de uma capacidade especial, ou a visão do uma necessidade urgente. A vocação para o ministério é um chamado específico de Deus, conjugado por uma necessidade urgente e uma capacitação especial.


Hernandes Dias Lopes
No livro: DE PASTOR PARA PASTOR

terça-feira, 20 de agosto de 2019

■ Esperar é preciso

Vivemos sob a tirania da pressa. Não fomos treinados na virtude da paciência, nem na disciplina da espera. A tecnologia encurtou as distâncias e eliminou o tempo de espera. A eficiência da tecnologia está na rapidez com que as informações e os serviços são oferecidos. Em um mundo de conexões ultrarrápidas e instantâneas, esperar é um ato de resistência.

O problema que os discípulos de Cristo enfrentam é que a pressa não forja uma fé madura, mas sim cristãos ansiosos, manipuladores e inseguros. O processo que nos leva a confiar menos em nós e mais em Deus é lento, e nele aprendemos que Deus não está preso à pressa neurótica da nossa cultura. Esperar é uma disciplina espiritual e uma necessidade humana. Viver é, em grande medida, esperar, mas nós não sabemos e nem queremos esperar.

A espera sempre foi um princípio para a experiência de oração do povo de Deus. Os salmos nos ajudam a perceber o quanto o povo de Deus precisou da virtude da paciência enquanto aguardava as respostas de suas orações e o cumprimento das promessas de Deus. Somos ensinados a resistir às pressões dos atalhos, da fé fundamentada em falsas promessas e permanecer aguardando o cumprimento da palavra de Deus.

Alguns exemplos: “Por que estás abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei, a ele, meu auxílio e Deus meu” (Salmo 42:5). “Esperei confiantemente pelo Senhor; ele se inclinou para mim e me ouviu quando clamei por socorro” (Salmo 40:1).

Precisamos aprender com os salmistas: clamamos por socorro e esperamos silenciosamente a manifestação da misericórdia de Deus. Entre a nossa oração e o socorro de Deus existe um tempo necessário ao fortalecimento da musculatura da fé.


Pr. Ricardo Barbosa

sábado, 8 de junho de 2019

Fome e sede de justiça


O homem que mostra não ter fome e sede de justiça (Mt. 5:6) é porque está cheio (empanturrado) de justiça própria. Sendo assim, ele enxerga a si mesmo com um grau superlativo e despreza a verdadeira justiça que procede da Palavra de Deus. Tal fome e sede de justiça brota somente de um relacionamento efetivo com o Senhor, isto é, não acontece de modo automático na vida de ninguém. Então, para aquele que se acha autossuficiente e bastante em si mesmo, não há espaço para buscar afeições santas e piedosas com base nos justos e verdadeiros caminhos de Deus. Este homem escolhe seguir os seus próprios conselhos e caminhos, sem considerar o que Deus diz por meio das Escrituras, corretamente interpretadas e aplicadas.

A sequência das bem-aventuranças em Mateus 5 comprova este argumento. Vejamos: somente alguém que se considera sem crédito pessoal algum diante de Deus (pobre de espírito), que chora por sua precária situação de miserável pecador, que não se vangloria de si mesmo e está sempre disposto a ouvir e aprender (manso), será aquele que amará a justiça que Deus requer na Sua santidade. Primeiro somos confrontados a descer do pedestal de orgulho que erigimos em nossos corações, para que então sejamos famintos e sedentos daquilo que honra a Deus.

Portanto, é impossível que tenhamos fome e sede da genuína justiça se já estamos fartos com as opiniões humanistas e as receitas de sucesso que se ancoram na idolatria do eu. Como iremos ansiar por aquilo que satisfaz verdadeiramente nossas almas, se o que nos enche é a nossa imagem prepotente que cultivamos tão cuidadosamente diante dos homens? As guloseimas que o ego tem a oferecer nunca trarão real satisfação para o cristão, por isso ele ama a justiça e almeja ser cada vez mais parecido com Cristo. Sendo assim, devemos nos alimentar diariamente da provisão substancial que nutre as nossas almas para exercermos com vigor a missão que o Senhor nos confiou de sermos uma bênção para a glória do Seu Nome excelso.

INDEPENDÊNCIA É ILUSÃO



Um dos tristes resultados do pecado é que ele nos leva, em algum momento da vida e de alguma forma, a aceitar a ilusão da independência. Independência é o que a serpente vendeu a Adão e Eva, mas essa independência é tão falsa quanto uma nota de três reais. A moeda falsa da independência é a recompensa que o inimigo continua a tremular diante de cada um de nós. A mentira é mais ou menos assim: “Você pode ser qualquer coisa que quiser ser ou fazer, qualquer coisa”! Essa mentira tem o objetivo de nos fazer crer que somos mais sábios e justos do que realmente somos. Ela nos faz pensar que não fazemos coisas maléficas porque existe algo ruim dentro de cada um de nós, mas por causa das pressões externas com as quais somos forçados a lidar. Essa mentira tenta nos convencer de que somos capazes e merecemos recompensas.

A Bíblia deixa muito claro que a procura por independência nunca termina em independência; ela termina em escravidão. Por quê? Porque fomos cuidadosamente projetados pelo Criador para vivermos em um relacionamento dependente, obediente e adorador com Ele, e em relacionamento humilde e interdependente com outros seres humanos. A procura por independência não é apenas um erro espiritual, ela é uma negação fundamental da nossa humanidade. A busca por independência sempre nos deixa dependentes de uma lista de coisas para as quais nós olhamos, em vez de esperança, vida, força e descanso. Numa tentativa vã de nos enganar achando que somos independentes, nos tornamos viciados em coisas que iludem, as quais jamais darão descanso ao nosso coração.

O Salmo 23 nos ensina, entre outras coisas, que somos pessoas com uma necessidade constante e urgente da ajuda do bom Pastor. E mesmo que andemos com Deus durante mil anos, continuaremos necessitando da Sua ajuda tanto quanto necessitamos no primeiro dia em que fomos socorridos por Sua forte mão. A única maneira de você encontrar descanso no Pastor divino é fugindo da ilusão da independência. Por que você não faz isso com maior frequência em sua vida.


Texto adaptado de Paul Tripp
Livro: Abrigo no temporal

terça-feira, 28 de maio de 2019

Pecado bom é pecado morto


"Porque, se viverdes segundo a carne, caminhais para a morte; mas, se, pelo Espírito, mortificardes os feitos do corpo, certamente, vivereis" (Rm. 8:13)

Ficou famoso o bordão utilizado por várias pessoas quando se trata do combate à criminalidade: "bandido bom é bandido morto." Não entrando na questão política e social que sustenta a discussão em torno do tema, é interessante buscar a analogia que podemos extrair deste bordão. Certamente o pecado será sempre um inimigo a ser combatido em prol da saúde da nossa alma. E como bem sabemos o pecado é um bandido audacioso, que rouba a nossa alegria, mata a nossa vitalidade espiritual e sequestra a nossa paz de consciência. Não podemos baixar as armas espirituais quando se trata do velho homem feroz e do pecado que tenazmente nos assedia. Seja por ação, omissão ou pensamento, devemos estar atentos a todas as emboscadas em que o pecado bandido quer nos surpreender. Sabemos que a luta é ferrenha, envolve esforço e dedicação sempre crescentes, uma vez que o pecado será um inimigo que não desiste fácil dos seus ataques. Em cada momento da vida, desde o momento em que acordamos de manhã, faz-se necessário revestir-nos dos frutos do Espírito, a fim de que o pecado não tenha espaço para seus ataques insidiosos ao nosso coração.

Os feitos do corpo, no linguajar paulino, representam esta tendência pecaminosa humana que busca dominar o homem, fazendo refém de práticas afrontosas à santidade de Deus. Mas é plenamente possível mortificarmos os feitos do corpo, mediante o poder e a dependência do Espírito Santo, de quem decorre o selo que em cada crente foi posto pela misericórdia divina. Nada ou ninguém pode nos separar do amor que nos alcançou pela graça do Senhor, e, portanto, temos os recursos espirituais que nos foram disponibilizados para não cedermos ao pecado e às suas ardilosas investidas sobre nós.

Temos que deixar de lado a indolência quando o assunto é lutar contra aquilo que em nós busca resistir à autoridade do Senhor. Crentes indolentes são presas fáceis ao mundo, à carne e ao diabo, pois não fazem uso adequado dos recursos espirituais disponíveis para mortificação dos feitos do corpo. Por isso, os enganos do coração pecaminoso ganham musculatura e vencem facilmente as investidas, levando o cristão a um estado de mediocridade espiritual. Sem alegria, sem ânimo e sem a paz que excede o entendimento habitando em sua alma, fica difícil fazer frente ao pecado e suas artimanhas. Sendo assim, é urgente que adotemos a frase “pecado bom é pecado morto” não como mais um chavão decorado, mas como uma prática diária que nos levará à maturidade espiritual e nos fará cada vez mais resistentes em nossa luta contra o pecado.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Lidando com o dinheiro

O dinheiro, o que ele pode fazer e o que ele pode oferecer nos lembram que este é um mundo de engano e perigo. As coisas nem sempre são o que parecem. E não há mentira mais danosa do que a que diz que a vida pode ser encontrada em algum lugar fora do Criador. O dinheiro pode funcionar como um ingrediente de um estilo de vida que, na prática, se esqueça da existência de Deus e de Seu plano. Quantas pessoas têm acreditado nessa mentira e acabado com o coração e bolso vazios? A luta contra o amor ao dinheiro no coração de cada um de nós é um lembrete constante de que ainda vivemos em uma zona perigosa.

O dinheiro é uma janela muito precisa para aquilo que realmente é importante para nós. Ele expõe o fato de que, deste lado da eternidade, é difícil manter em nosso coração, como importante, aquilo que Deus diz que verdadeiramente o é. Há uma tendência perigosa no coração de cada um de nós de as coisas ganharem significado além de seu real significado e começarem a comandar os pensamentos, desejos e a lealdade do nosso coração. Se olharmos humildemente, o desejo pelo dinheiro e o uso que fazemos dele nos ajudarão a ver o que está tentando governar nosso coração. Em outras palavras, o dinheiro pode financiar nossa lealdade ao reino do eu.

Precisamos entender que os problemas financeiros são mais profundos que o tamanho do salário ou a especificidade do nosso orçamento, pois estão enraizados em problemas no coração (Mateus 15.19-20).  Algumas perguntas-chaves servem para revelar o equilíbrio ou desequilíbrio quanto à questão do dinheiro em nossas vidas: o nível de nosso contentamento sobe e desce de acordo com a quantidade de dinheiro que temos disponível? Ficamos felizes em dar, mesmo em épocas em que não temos muito? Quando dispomos de algum dinheiro extra qual o nosso sonho de consumo? Somos prontos, desejosos e rápidos em expressarmos generosidade? Façamos um exercício pessoal: procurar a base bíblica para nossas respostas honestas a estas perguntas.

Adaptado de Paul Tripp