segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Inconformismo

Texto: Miquéias 3


Martin Luther King Jr. (1929-1968) tornou-se um dos mais importantes líderes do movimento dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos e no mundo. Em 14 de outubro de 1964, recebeu o Prêmio Nobel da Paz pelo combate à desigualdade racial através da não violência. O seu inconformismo com a situação de apartheid que os negros sofriam, o levou a levantar a bandeira de contestação deste sistema excludente.  Sua atuação foi fundamental para aprovação da Lei de Direitos Civis dos Estados Unidos, em 1964. São famosos alguns trechos de seus discursos:
·        “O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons.”
·        “Eu tenho um sonho. O sonho de ver meus filhos julgados pelo caráter, e não pela cor da pele.”
·        “Se um homem não descobriu nada pelo qual morrer, não está pronto para viver.”
Martin Luther King era odiado por muitos segregacionistas do sul, o que culminou em seu assassinato no dia 4 de abril de 1968, momentos antes de uma passeata, num hotel da cidade de Memphis

O texto em epígrafe trata de uma realidade degradante no meio do povo de Israel. Havia uma série de escândalos em Israel que eram tolerados como se tudo aquilo fosse natural. O ministério de Miquéias foi centrado na época em que os assírios ameaçavam invadir a Samaria, a capital do reino do Norte destruída em 722 a.C., e a Jerusalém, a capital do reino do Sul. O zelo pela santidade do Senhor impeliu o profeta Miquéias a expressar o seu inconformismo diante daquela realidade reprovável (note o versículo Mq. 3:8). Miquéias não tinha como preocupação ganhar um concurso de popularidade na sua época. Não tinha como objetivo projetar o seu nome ou garantir a sua fama diante da classe dominante de Israel. Seu papel como profeta do Senhor foi incisivo, denunciando os males que dominavam o cenário político e religioso em Israel.

“Assim como o profeta Miquéias, devemos expressar o nosso inconformismo diante de situações que merecem contundente reprovação”

? Diante de quais situações que merecem contundente reprovação devemos expressar o nosso inconformismo?

Antes de pensar que estas situações são externas a nós, quero enfatizar que elas podem estar entranhadas em nós muito além do que imaginamos. O inconformismo deve começar em nós mesmos, quando somos confrontados pelas Escrituras. Como diz a letra de um antigo hineto: “A começar em mim, quebra corações”. Que estejamos atentos para perceber situações de pecado que devem causar inconformismo, primeiramente em nós, e assim estaremos aptos para expressar o mesmo inconformismo a nossa volta.
·        Veremos 3 SITUAÇÕES que merecem contundente reprovação, diante das quais devemos expressar o nosso inconformismo:


. Quando o exercício do poder é visto não como recurso moderador da justiça, mas como fonte de opressão (vs. 1-3)
Os termos hebraicos que correspondem a “chefe” e “cabeça” relacionam-se com alguém no exercício de autoridade, e abrangem todos aqueles possuidores de algum poder, responsáveis por executar a justiça, podendo ser os ministros, os nobres, juízes e também os sacerdotes. Era esperado dos líderes civis e religiosos mais proeminentes de Israel que exercessem suas atribuições com equidade e prudência, mas a realidade não era essa nem de longe.  “Mishpat”, traduzido como juízo, é o estabelecimento de relações corretas e justas entre os homens. No âmbito judicial, aborrecer o bem e amar o mal, corresponde a emitir sentenças injustas, favorecendo os culpados e prejudicando os inocentes. No uso mais amplo, “bem” e “mal” são termos genéricos que se referem ao “certo/errado”. Assim o que era certo e justo era desprezado, e o que era errado e injusto era amplamente aceito. As classes superiores e governantes eram tanto açougueiros quanto animais ferozes, e seus subordinados eram as vítimas indefesas de um sistema brutal de exploração e opressão. Os chefes de Israel tinham tal consideração pelos seus compatriotas, assim como os açougueiros e as feras têm pelas carcaças. O povo humilde e subalterno era literalmente esfolado vivo, para dar sustentação aos líderes que exerciam com tirania o poder que detinham nas mãos.
Ø Ilustração:
A exploração sofrida no seio da igreja foi denunciada por Tiago, meio irmão do Senhor.  Na sua carta, famosa pela expressão "a fé sem obras está morta", ele apresenta também o seu inconformismo com a situação fraudulenta que tinha invadido a igreja do Senhor. "Eis que o salário dos trabalhadores que ceifaram os vossos campos e que por vós foi retido com fraude está clamando; e os clamores dos ceifeiros penetraram até aos ouvidos do Senhor dos Exércitos." (Tiago 5:4) (Lv. 19:13). Nada mais anticristão do que um cristão explorar outro cristão.
A justiça social plena é um ideal inatingível neste mundo corrompido pelo pecado. O sonho de igualdade social dos marxistas não passa de sonho. Mas não podemos fechar os olhos para a opressão brutal que as pessoas têm sofrido, em benefício de líderes corruptos da nossa nação que viajam de graça, comem e dormem nos melhores hotéis com dinheiro de impostos cada vez mais altos.
Mas deixando de lado o plano político em nosso país, o que dizer quando a igreja se torna um local de exploração cruel das ovelhas? Suetônio disse: “É função do bom pastor tosquiar as ovelhas, e não arrancar-lhes a pele”. Não somente o pastor, mas também a liderança precisa estar atenta às reais necessidades espirituais do rebanho para não exercer um poder arbitrário, sem base nas Escrituras. Toda autoridade nasce e morre nas Escrituras; portanto, sempre haverá exercício arbitrário do poder quando as Escrituras são deixadas de lado para cumprimento de caprichos pessoais da liderança. Quando Deus fala, o homem cala. E quando um líder levantado e guiado por Deus fala, não pode haver contestação. Mas quando um líder não se curva diante do Senhor, suas atitudes e mensagens terão como objetivo causar intimidação e opressão nos ouvintes (Zc. 11: 15-17).
O púlpito pode ser uma fonte de edificação para o povo, quando a Palavra é corretamente exposta e aplicada; mas também pode ser um local em que caprichos e vontades humanas são impostas de modo opressivo e inconsequente. O fato de toda autoridade vir de Deus não diviniza o detentor do poder. A autoridade que o Senhor delegou aos seus representantes deve ser usada de modo a trazer glória ao nome de Cristo, e não prejuízos à noiva de Cristo.


. Quando a proclamação da mensagem é vista não como recurso promotor da verdade, mas como fonte de ilusão (vs. 5)
Miquéias estava inconformado com o fato de que os profetas e sacerdotes faziam errar o povo de Deus, que significa iludir, desviar e desencaminhar moral e espiritualmente. Estes falsos profetas proclamavam apenas aquilo que o povo e os dirigentes queriam ouvir, ainda que fosse algo ilusório, em troca de manter o seu próprio bem estar de mordomia e de recursos financeiros. Fica bastante claro no texto, que a motivação destes falsos profetas não era pregar com fidelidade a palavra de Deus, mas se locupletarem. O dinheiro era o vetor que governava a vida deles. Se havia dinheiro entrando no bolso, tinham palavras cheias de esperança para o povo. Se o pão lhes era retirado da boca, ameaçavam o povo com guerra santa. Ou seja, a mensagem mudava conforme os benefícios materiais/financeiros (R$) para os profetas. Estes profetas tinham a audácia de falar piedosamente em nome de Deus, como se Ele fizesse parte daquele negócio desonesto.
Ilustração:
No sermão de 27/06/1937, o pastor luterano Niemoller deixou claro para os presentes que ele tinha o dever sagrado de denunciar os males do regime nazista, não importando as consequências: “Não temos nenhuma intenção de usar nossos poderes para escapar do braço das autoridades. Não estamos mais dispostos a ficar em silêncio sob o comando de homens quando Deus nos manda falar. Porque é o caso, e assim deve permanecer, de que devemos obedecer mais a Deus que aos homens”. Alguns dias depois, ele foi preso. Seu crime? “Abuso do púlpito.”
Não é de hoje que os pregadores de ilusão têm arrebanhado muitos seguidores. No tempo do profeta Miquéias imperava a pregação por conveniência e não é diferente nos nossos dias. O conteúdo da mensagem era adaptado de acordo com as ofertas que eram dadas aos falsos profetas. Charles Spurgeon disse que “um ministro infiel (que negocia a verdade) é o maior instrumento de Satanás dentro da igreja”. Atualmente, a tônica dentro dos arraiais evangélicos é oferecer falsas esperanças, conforto ilusório, conselhos convenientes, tudo que não cause nenhum incômodo aos ouvintes, talvez uma espécie de band-aid espiritual. Existem muitos vendedores de ilusões, que cometem estelionato da fé. Devemos expressar o nosso inconformismo quando pessoas se utilizam do púlpito ou da Palavra de Deus para se favorecem de alguma maneira, trazendo vergonha à causa do Evangelho.
“Qual é o seu preço, meu querido irmão?” Você negocia a verdade de Deus por alguma conveniência? Ou você está fechado para qualquer tipo de negociata, já que a verdade do Senhor é inegociável? “Compra a verdade e não a vendas!” (Pv. 23:23), é o imperativo bíblico. Certamente precisamos estar atentos a tudo o que falamos em nome de Deus, pois o que dizemos precisa ser aferido com a verdade das Escrituras. Não adianta querer agradar gregos e troianos com um discurso adaptável às circunstâncias, isso nunca vai glorificar a Deus. Podemos até conquistar a aprovação e aplausos de muitas pessoas, mas não seremos tidos como despenseiros fiéis. O que se requer dos despenseiros é que sejam fiéis na entrega da mensagem que receberam do Senhor, sem diluir, tirar ou acrescentar nada. Não fomos autorizados pelo Senhor a criar falsas ilusões para ninguém.
A saúde espiritual de um crente pode ser medida de várias maneiras, e uma delas é o nível de confrontação bíblica que ele está disposto a travar, quando sua aceitação ou popularidade é colocada em risco. Ou quando, por amor à verdade, suas posições cristãs não oscilam diante daqueles que podem lhe favorecer de alguma maneira.


. Quando a identificação com o Senhor é vista não como recurso santificador da vida, mas como fonte de presunção (vs. 9-11)
A expressão “o Senhor está no meio de nósdenota uma identificação profunda do Senhor com o Seu povo amado. Mesmo sendo transcendente o Senhor resolveu partilhar a Sua presença com o Seu povo, desde o momento do chamado de Abraão culminando na saída milagrosa do Egito. Se não fosse o Senhor no meio do Seu povo, dando sustento e direção,o povo de Israel não existiria. Mas a despeito desta identificação com o Senhor, que deveria ser encarada com responsabilidade, o povo resolveu agir com rebeldia. Observa-se no texto um misto de cinismo e presunção por parte daqueles que despertaram o inconformismo do profeta Miquéias: “Nenhum mal nos sobrevirá”. Algumas traduções do verso 11: “O Senhor está conosco. Nada de ruim nos sucederá” e “Nenhum mal vai acontecer porque o Senhor está do nosso lado.” Os líderes corrompidos alimentavam a falsa pressuposição de que Deus estaria do lado deles sob quaisquer condições. Para eles não haveria juízo da parte do Senhor. Mas o Deus santo e justo não pode contemplar o mal ou aprovar a injustiça, nem ficar indiferente diante da opressão.
Ø Ilustração:
“Porquanto o Senhor, teu Deus, anda no meio do teu acampamento para te livrar e para entregar-te os teus inimigos; portanto, o teu acampamento será santo, para que ele não veja em ti coisa indecente e se aparte de ti.” (Dt. 23:14). O Senhor andaria com o seu povo, mas o acampamento deveria ser mantido limpo e nada impuro poderia ser visto dentro de suas fronteiras. Fica evidente a necessidade de não ser complacente com qualquer coisa que afrontasse a santidade do Senhor. A identificação do Senhor com o Seu povo e a recíproca pressupunha zelo e temor.
Precisamos entender que a identificação do Senhor conosco é a base de nossa identificação com Ele: “O Senhor, teu Deus, está no meio de ti, poderoso para salvar-te; ele se deleitará em ti com alegria; renovar-te-á no seu amor, regozijar-se-á em ti com júbilo.” (Sf. 3:17)
De fato é uma promessa bastante segura que o Senhor está conosco todos os dias até a consumação dos séculos. Esse é um lado da moeda. O outro lado é a nossa resposta efetiva diante desta verdade bíblica. Cada vez mais somos convocados a nos identificar com o Senhor. A teologia tem de abrir caminho da cabeça para o coração e depois à prática, ou foi mal utilizada. Toda teologia que não nos impulsiona a uma resposta efetiva não serviu ao seu propósito. Além disso, Qualquer “teologia” que facilite o nosso pecado não é uma teologia bíblica. Presumir que Deus está ratificando a nossa conduta por conta de algum progresso ou sucesso aparente é típico do homem pós-queda. Geralmente, a prosperidade ou a ausência de dificuldades, é entendida erroneamente como o selo de aprovação do Senhor. Nada mais perigoso do que fiar-se na identificação com o Senhor, na aliança firmada por Ele, sem dar importância a uma viver santificado. Viver com base numa presunção equivocada é um passo certo para a queda espiritual. “No tocante a Deus, professam conhecê-lo; entretanto, o negam por suas obras” (Tt 1:16)

Como saber que o Senhor está no meio de nós? Quando há arrependimento verdadeiro e mudanças efetivas, quando há relacionamentos restaurados, quando a igreja avança em temor e piedade, quando os lares são edificados pela graça de Cristo, quando as Escrituras têm preeminência nas decisões que tomamos. A apatia certamente dominará nosso viver se a nossa identificação com o Senhor for meramente teórica e sem resultado prático. Precisamos muito mais do que um discurso teológico e uma boa confissão de fé.

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